Plano Polêmico #34 | Não Existem Críticos Imparciais!

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Crítico não presta. Tudo um bando de artista frustrado. Não serve pra nada. Ninguém lê crítica. Crítico é alguém que não consegue fazer algo melhor e morre de inveja, aí quer destruir o trabalho dos outros. Crítico nem é gente. Ninguém precisa de crítico.

Assinado: um Crítico de Críticos.

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Final da década de 2010 e ainda rondamos em torno de algo que, até onde eu tinha conhecimento, havia sido perfeitamente compreendido por todos com QI acima de zero: a tal da crítica imparcial.

Na quinzena anterior à escrita deste Plano Polêmico eu me deparei com cinco situações bem enfáticas em relação a esta questão, duas delas em discussões no meu ambiente de trabalho (sobre música e quadrinhos), uma ironizada pelo meu conge no Twitter, uma aqui no site e direcionada a mim (cof cof) e outra rondando um grupo do Facebook, onde a galerinha das altas confusões defendia a manufatura de “filmes políticos imparciais” [isso é tema para outro Plano Polêmico, por sinal]. Pois é. Eu tinha que escrever sobre isso.

Aqui, vou me ater exclusivamente ao cinema, mas vocês certamente conseguirão guiar o argumento para todo tipo de arte.

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Adorei, Nota Zero!

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Crítica é análise. Para se analisar, é necessário que o crítico domine a linguagem da arte sobre a qual escreve. É através dela que uma ideia geral da obra será construída, tendo como base princípios que são particulares de cada escritor. É exatamente por isso que existem milhares de críticos e muitas vezes (mesmo quando discordam juntos ou concordam juntos) cada um toma um caminho diferente em sua análise. Um dará mais peso para um erro ou um acerto da obra. Outro concordará ou discordará de algo intrínseco ao roteiro. Um irá interpretar a ideia geral do filme de uma forma. Outro não se conectará com o filme, por diversos motivos. Um irá se divertir à beça. Outro se entediará nos cinco primeiros minutos. Um condenará o enredo. Outro achará o mesmo texto o bastião da genialidade. Experiências diferentes que gerarão textos diferentes. E todos criarão com elas uma ideia e usarão de seu conhecimento, de sua capacidade de escrita e de suas experiências e visão de mundo para argumentarem sobre a obra.

Sendo produtos de uma construção social, dotados de ideologias diferentes, marcados por distintos conceitos de aprendizagem e alinhamento moral, é inacreditável que alguém realmente sustente o sonho de que se pode ser “imparcial” ao criticar. Criticar exige a tomada de uma posição diante de algo. Uma posição positiva, negativa ou mista, em diferentes graus e contextos, à qual acrescentaremos juízos e considerações que são, em tudo, coisas nossas. O ato de criticar em si já é um exercício obrigatoriamente parcial. E olha que ainda não adicionamos a extensão cinéfila de cada crítico de cinema, o nível de seu conhecimento técnico, seu estilo de escrita, sua relação com as teorias da cinema e por aí vai.

Crítica de cinema não é uma ciência exata. Notem que estamos falando de arte e, como todos sabemos, leitura e interpretação de uma obra de arte é algo pessoal, mesmo que essa visão esteja costurada a um andaime técnico, por aqueles que possuem o conhecimento necessário para tanto. Assim, é impossível a qualquer ser humano CRITICAR IMPARCIALMENTE, já que os ingredientes que formarão a crítica — do julgamento de valor à interpretação da arte consumida — são manifestações pessoais. Todo argumento passa por um crivo particular e, quanto mais ligado a ideias importantes para uma pessoa, mais intensa será a opinião dela sobre a obra que trata desses temas. Leia críticas de Paulo Emílio Salles Gomes, Judith Crist, Otis Ferguson, Pauline Kael, Roger Ebert, Andrew Sarris e André Bazin para ter uma noção imediata de como grandes nomes da crítica sequer flertaram com a loucura da “imparcialidade” e a maioria deles abraçavam o modelo de ensaio, que de imparcial também não tem nada.

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ATA

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Mas não se avexem. Crítica é apenas uma leitura, uma visão, uma interpretação (entre milhares possíveis) de um determinado filme. E em todas elas, não existe uma sílaba de imparcialidade. Assim como não existe imparcialidade em quem lê, pelos mesmos motivos pessoais daquele que escreve, afinal, são dois seres humanos pensando criticamente sobre arte, não um robô contando ciclos de 24 quadros por segundo.

Há um texto incrível de Machado de Assis, escrito em outubro de 1865 no Diário do Rio de Janeiro, chamado O Ideal do Crítico. Nele vocês vão encontrar uma abordagem que demarca bem esse território íntimo que levantei, com conselhos do autor para que o crítico evite amizades, ego, vingança ou ódio quando escreve, para que a sua convicção (abordagem pessoal) seja a linha que cimentará o texto. A argumentação de Machado de Assis sai desse núcleo que é a convicção de quem escreve e não interessa QUAL é esta convicção. Apenas interessa que ela não seja comprada, influenciada ou inundada por questões externas. Ou seja, além do conhecimento da linguagem da arte que se dispõe criticar, o crítico precisa exercer sua humanidade. Frases feitas, compilação de verbetes do Dicionário Cinematográfico e fingimentos de distanciamento tornarão o texto qualquer coisa, menos uma crítica.

Cabe ao crítico, portanto ser honesto. Escrevendo convicto do que pensa, argumentando com base em sua interpretação da obra e sabendo justificar seus pensamentos dentro de uma sintaxe cinematográfica, ele não pode propositalmente passar o texto inteiro acumulando ofensas a desafetos, inventando coisas que o filme não tem, cobrando coisas que o filme não propõe ou insistindo em não contextualizar a obra ao seu tempo histórico (artistas refletem o seu tempo, não se esqueçam disso). A coerência, aqui, é a cereja do bolo.

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Você é o Objetivo Final!

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Depois de tudo pronto, o que vem é o contato com o leitor. Crítica, alguns ainda não perceberam, serve para iniciar uma conversa sobre um filme. Abrir caminhos interpretativos, propor visões, dar ao leitor uma perspectiva diferente sobre a obra vista, compartilhar, integrar, contrapor opiniões sobre uma fita. Crítica não é caderninho místico de opinião definitiva sobre o que “você deve ver” ou sobre o que “você não deve ver“. Crítica não é a palavra final sobre absolutamente nada. Crítica é uma visão entre milhares. Sabem aquelas joaninhas que alardeiam aos quatro ventos as frases:

Não deixe a crítica te influenciar, vá você mesmo ver o filme e crie sua própria opinião.

A crítica não sabe de nada, meu gosto eu que defino e pronto.

Sabem esses? Esses definitivamente não entendem o que é ou para o que serve a crítica. Não existe um complô Universal feito em becos lodosos e escuros por críticos sarnentos falando esperanto e tentando te obrigar a pensar como eles. Ninguém está tentando dizer o que você deve fazer ou não. Do que você deve gostar ou não. Não é esse o objetivo da crítica! A gente expõe o que pensa de um filme e você pode gostar ou não do que a gente disse. Concordar ou não com o que está no texto, no vídeo. Diante disso, dialogue! Se discorda, diga por quê, faça perguntas, procure construir coisas boas nas divergências de opinião. E se você não gostou de um determinado crítico e não é dado a diálogos, não se afobe. Tem muitos outros por aí — inclusive quem pensa que pode ser ou é imparcial! Tem para todos os gostos! Nós somos iguaizinhos aos conceitos de Groucho Marx.

Para finalizar: como em qualquer arte, existem as boas e as más críticas. As honestas e as desonestas. As chatas e as gostosas de se ler. Aquelas que a gente adora a leitura, mas discorda de tudo o que foi falado. Ou as que a gente concorda com todos os conceitos, mas percebe que é pessimamente escrita. Surpresas de Kinder Ovo perdem para a variedade desse mercado! Pois é. Crítica é tudo isso. Só não é algo imparcial. A não ser que o autor seja o objeto de estudo do Teorema do Macaco Infinito. Aí, tudo bem. Esta é a exceção à regra.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.