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Plano Polêmico #34 | Não Existem Críticos Imparciais!

por Luiz Santiago
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Crítico não presta. Tudo um bando de artista frustrado. Não serve pra nada. Ninguém lê crítica. Crítico é alguém que não consegue fazer algo melhor e morre de inveja, aí quer destruir o trabalho dos outros. Crítico nem é gente. Ninguém precisa de crítico.

Assinado: um Crítico de Críticos.

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Final da década de 2010 e ainda rondamos em torno de algo que, até onde eu tinha conhecimento, havia sido perfeitamente compreendido por todos com QI acima de zero: a tal da crítica imparcial e/ou livre de viés ideológico [ou de qualquer outro viés imaginável, por sinal].

Na quinzena anterior à escrita deste Plano Polêmico, me deparei com cinco situações bem enfáticas em relação a esta questão, duas delas em discussões no meu ambiente de trabalho (sobre música e quadrinhos), uma ironizada pelo meu conge no Twitter, uma aqui no site e direcionada a mim (cof cof) e outra rondando um grupo do Facebook, onde a galerinha das altas confusões defendia a manufatura de “filmes políticos ou de artes imparciais” [isso é tema para outro Plano Polêmico, por sinal]. Pois é. Eu tinha que escrever sobre isso.

Aqui, vou me ater exclusivamente ao cinema, mas vocês certamente conseguirão guiar o argumento para todo tipo de arte.

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Adorei, Nota Zero!

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Crítica é análise sob um argumento criativo-opinativo diante de uma arte. Para se analisar, é necessário que o crítico domine a linguagem da arte sobre a qual escreve. É através dela que uma ideia geral da obra será construída, tendo como base princípios que são particulares de cada escritor. É exatamente por isso que existem milhares de críticos e muitas vezes (mesmo quando discordam juntos, ou concordam juntos) cada um toma um caminho diferente em sua análise. Um dará mais peso para um erro ou um acerto. Outro concordará ou discordará de algo intrínseco ao enredo. Um irá interpretar a ideia geral da obra através de uma vereda política, sociológica, simbólica, psicológica [a lista segue até os bilhares de possibilidades]. Outro não se conectará com a obra, por diversos motivos. Um irá se divertir à beça. Outro se entediará nos cinco primeiros minutos. Um condenará a abordagem. Outro achará o mesmo texto o bastião da genialidade. Experiências diferentes que gerarão textos diferentes. E todos criarão uma ideia, usando de seu conhecimento técnico, de sua capacidade de escrita e de suas experiências + visão de mundo para argumentarem sobre a obra em questão.

Sendo produtos de uma construção social, dotados de ideologias diferentes, marcados por distintos conceitos de aprendizagem e alinhamento ético e moral, é inacreditável que alguém realmente sustente o sonho de que se pode ser “imparcial” ou “não ideológico” ou “livre de opiniões pessoais” ao criticar. Criticar exige a tomada de uma posição diante de algo. Uma posição positiva, negativa ou mista, em diferentes graus e contextos, à qual acrescentaremos juízos e considerações que são, em tudo, coisas nossas. O ato de criticar em si já é um exercício obrigatoriamente parcial. E olha que ainda não adicionamos a extensão cinéfila de cada crítico de cinema, o nível de seu conhecimento técnico, seu estilo de escrita, sua relação com as teorias da cinema e por aí vai.

Crítica não é uma ciência exata. Notem que estamos falando de arte e, como todos sabemos, leitura e interpretação de uma obra de arte é algo pessoal, mesmo que essa visão esteja costurada a um andaime técnico, por aqueles que possuem o conhecimento necessário para tanto. Assim, é impossível a qualquer ser humano CRITICAR IMPARCIALMENTE, já que os ingredientes que formarão a crítica — do julgamento de valor à recepção ou interpretação da arte consumida — são manifestações pessoais. Todo argumento passa por um crivo particular e, quanto mais ligado a ideias importantes para uma pessoa, mais intensa será a opinião dela sobre a obra que trata desses temas. Leia críticas de Paulo Emílio Salles Gomes, Judith Crist, Otis Ferguson, Pauline Kael, Roger Ebert, Andrew Sarris e André Bazin para ter uma noção imediata de como grandes nomes da crítica no mundo sequer flertaram com a loucura da “imparcialidade” e a maioria deles abraçavam o modelo de ensaio, que de imparcial não tem absolutamente nada.

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Mas não se avexem. Crítica é apenas uma leitura, uma visão, uma interpretação (entre milhares possíveis) de um determinado produto artístico. E em todas elas, não existe uma sílaba de imparcialidade. Assim como não existe imparcialidade em quem lê, pelos mesmos motivos pessoais daquele que escreve. Afinal, são dois seres humanos pensando criticamente sobre arte, não um robô contando ciclos de 24 quadros por segundo.

Há um texto incrível de Machado de Assis, escrito em outubro de 1865 no Diário do Rio de Janeiro, chamado O Ideal do Crítico. Nele vocês vão encontrar uma abordagem que demarca bem esse território íntimo que levantei, com conselhos do autor para que o crítico “evite amizades, ego, vingança ou ódio quando escreve, para que a sua convicção (abordagem absolutamente pessoal) seja a linha que cimentará o texto“. A argumentação de Machado de Assis sai desse núcleo que é a convicção de quem escreve e não interessa QUAL é esta convicção. Apenas interessa que ela não seja comprada, influenciada ou inundada por questões externas. Ou seja, além do conhecimento da linguagem da arte que se dispõe a criticar, o crítico precisa exercer sua humanidade. Frases feitas, compilação de verbetes do Dicionário Artístico e fingimentos de distanciamento tornarão o texto qualquer coisa, menos uma crítica. A alienação está aí, cai quem quer. Especialmente os leitores que dizem “gostar de determinado crítico porque ele/ela é imparcial“. O que não só é uma frase burra e pedante, mas imensamente vergonhosa e alienada.

Cabe ao crítico, portanto ser honesto. Escrevendo convicto do que pensa, argumentando com base em sua interpretação da obra e sabendo justificar seus pensamentos dentro de uma sintaxe adequada àquela arte, ele não pode propositalmente passar o texto inteiro inventando coisas que a obra não tem, cobrando coisas que a obra não propõe ou insistindo em não contextualizar a obra ao seu tempo histórico (artistas refletem o seu tempo, não se esqueçam disso!). A coerência, aqui, é a cereja do bolo.

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Você é o Objetivo Final!

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Depois de tudo pronto, o que vem é o contato com o leitor. Crítica, alguns ainda não perceberam, serve para iniciar uma conversa sobre uma produção artística. Abrir caminhos interpretativos, propor visões, dar ao leitor uma perspectiva diferente sobre a obra vista, compartilhar, integrar, contrapor opiniões sobre uma arte. Crítica não é caderninho místico de opinião definitiva sobre o que “você deve ver” ou sobre o que “você não deve ver“. Crítica não é a palavra final sobre absolutamente nada. Crítica é uma visão entre milhares. Sabem aquelas joaninhas que alardeiam aos quatro ventos as frases:

Não deixe a crítica te influenciar, vá você mesmo ver o filme e crie sua própria opinião.

A crítica não sabe de nada, meu gosto eu que defino e pronto.

Sabem esses? Esses definitivamente não entendem o que é ou para o que serve a crítica. Não existe um complô Universal feito em becos escuros por críticos sarnentos tentando te obrigar a pensar como eles. Ninguém está tentando dizer o que você deve fazer ou não. Do que você deve gostar ou não. Este não é esse o objetivo da crítica! A gente expõe o que pensa de uma obra e você pode gostar ou não do que a gente diz. Pode ou não concordar ou não com o que está no texto, no vídeo, no podcast. Diante disso, dialogue! Se discorda, diga por quê, faça perguntas, procure construir coisas boas nas divergências de opinião. Isso é possível! Desde que você seja educado, faça uma abordagem camarada e não comece o papo querendo cantar de galo no terreiro alheio, principalmente se você não faz ideia do que está falando.

E se você não gostou de um determinado crítico e não é dado a diálogos, não se afobe. Tem muitos outros por aí, vá procurá-los — inclusive os não-críticos que acham que podem ser imparciais! Se você arde pode isso, então junte-se a eles e se emburreçam, se pedanteem e se alienem juntos, achando que estão sendo imparciais, não-ideológicos e não-particulares! Afinal de contas, todo mundo tem o direito de viver a sua fantasia molhada. Só não queira discutir, com base em achismos e fantasias, com quem vive no mundo real e sabe o conceito dos gêneros e como funciona a produção da arte e da literatura que a criticou ao longo da História.

Para finalizar: como em qualquer arte, existem as boas e as más críticas. As honestas e as desonestas. As chatas e as gostosas de se ler. Aquelas que a gente adora a leitura, mas discorda de tudo o que foi falado. Ou as que a gente concorda com todos os conceitos, mas percebe que é pessimamente escrita. Surpresas de Kinder Ovo perdem para a variedade desse mercado! Pois é. Crítica é tudo isso. Só não é algo imparcial. Só não é algo não-ideológico. Só não é algo livre de opiniões particulares. A não ser que o autor seja objeto de estudo do Teorema do Macaco Infinito. Aí, tudo bem. Esta é a exceção à regra.

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