Plano Polêmico #37 | Filmes de Répteis Assassinos Ainda Funcionam?

Como não temer animais que possuem um estômago que funciona com órgãos que parecem pedras para triturar ossos, chifres e demais partes mais firmes das presas abocanhadas por sua mordida com carga de duas toneladas? Diante de tantos animais monstruosos que já serviram de condução para conflitos e necessidades dramáticas de personagens ao longo da história da narrativa humana, os crocodilos e jacarés são alguns dos “monstros” que ocupam não apenas o topo da cadeia alimentar em seu ambiente natural, mas também o lugar privilegiado no bojo das eficientes máquinas de matar ofertadas constantemente pela ficção literária e cinematográfica que traça o confronto entre seres humanos e animais ferozes há eras.

Saber a diferença entre cada um, no entanto, é fundamental para entender determinadas questões geográficas e contextuais de cada narrativa com esses seres rastejantes. Os crocodilos, conforme organização dos estudos biológicos, pertencem à família crocodilidae, enquanto os jacarés são da família alligatoridae. Com todos os dentes do mesmo tamanho, os crocodilos possuem a cabeça afilada e os dentes superiores alinhados aos dentes inferiores. No caso dos jacarés, a cabeça é larga e arredondada, com dentes superiores desalinhados com os inferiores, sendo o quarto dente de cada maxilar inferior bem maior que os outros e aparecem mesmo quando esses animais estão de boca fechada. Basta saber se os realizadores cinematográficos entendem essas mínimas referências, afinal, esses dois répteis já apareceram diversas vezes na ficção, como protagonistas do horror ou breves coadjuvantes da representação da faceta selvagem da nossa existência.

Os repteis em Crocodilo Dundee e no horror classe B (Z?) de The Alligator People (1959)

No clássico The Alligator People, de 1959, dirigido por Roy Del Ruth, cineasta que teve como embasamento e guia, o roteiro de Robert M. Fresco, Orville Hampton e Charles O’Neal, adentramos na trajetória dramática e bizarra de Jane Marvin (Beveryl Garland), uma mulher em tratamento para os seus problemas de memória. Muito mistério envolve o desaparecimento de seu marido Paul Webster (Richard Crane), situação na qual ela não consegue recordar de absolutamente nada. Certo dia, viaja para um local onde há suspeita de algumas pistas sobre o paradeiro de seu antigo esposo, um homem que depois do acidente de avião sofrido no passado, havia sido submetido ao tratamento de reconstituição de partes do corpo com hormônio de répteis, experiência que deu errado e o transformou num monstro.

Na comédia Crocodilo Dundee, lançada em 1986, o aventureiro Mick Dundee (Paul Hogan) é a representação da vida de Rod Ansell, numa narrativa sobre um australiano ganhando a vida em terras estadunidenses. Periodicamente, notícias do personagem chegam em Nova Iorque, interessada nas suas aventuras como um caçador de crocodilos. Sue Charlton (Linda Kozlowsky), editora de um jornal, é chamada para assumir a editoria que cobre a chegada da celebridade. Numa terra com costumes e práticas diferentes, Dundee vai viver situações inusitadas, além de um possível amor com a jornalista. Os crocodilos, coadjuvantes, não aparecem como personagens assustadores, ao contrário, representam o exotismo do herói da narrativa.

Os repteis como personagens em aventuras cômicas de Robin Williams e Jim Carrey

No ramo dos filmes de aventura e comédia, os répteis foram personagens passageiros de impacto. Dentre tantas produções, destaco Jumanji, Ace Ventura 2 – Um Maluco na África, Queima de Arquivo e Tudo Por Uma Esmeralda, além de um breve trecho em Indiana Jones. Em Jumanji, seres humanos e natureza dialogam depois que Allan Parrish desaparece quando menino, situação explicada por uma versão pouco crível dos fatos que alegam ter sido o jovem sugado por um jogo, encontrado 26 anos depois e praticado por duas crianças que abrem determinado portal e se conectam com uma partida que ainda não acabou. Uma referência no quesito aventura para muitas gerações, a produção coloca Robbie Williams e os demais protagonistas de frente aos temíveis crocodilos, numa breve passagem que reforça tais animais como entidades perigosas e mortais.

Jim Carrey também já esteve com répteis em Ace Ventura 2 – Um Maluco na África. A foto do cartaz de divulgação nos apresenta o protagonista farsesco a surfar em dois animais desse porte, numa visão humorada das feras, sem a demonização que as transforma em assassinos por natureza. No desenvolvimento da trama, o famoso detetive de animais sai do seu exílio no Himalaia e segue rumo ao processo investigativo do sumiço de um raro morcego branco sagrado, animal responsável por manter a paz entre duas tensas aldeias africanas. Como é de se esperar neste tipo de comédia, o humor serve estereótipos em bandejas das mais variadas, num retrato da vida selvagem hostil em comparação ao estilo urbano estadunidense de seu protagonista.

Os repteis dando um trabalhão para os heróis interpretador por Arnold Schwarzenegger e Michael Douglas em Queima de Arquivo e Tudo Por Uma Esmeralda, respectivamente. 

Ao passo que a ação avança com cenas exageradamente coreografadas de Queima de Arquivo, o herói interpretado por Arnold Schwarzenegger digladia com tais feras num dos trechos mais frenéticos da produção. Na trama, John Kruger é um competente agente do governo que recebe a missão de manter Lee Cullen intacta, a “mulher que precisa ser protegida” da narrativa, após ter sido testemunha das negociações escusas de uma empresa que pretende ofertar um fuzil revolucionário no mercado obscuro. Entre carros envenenados e explosões típicas da pirotecnia hollywoodiana, os personagens precisam lutar para garantir a sobrevivência, em especial, num parque temático destroçados por balas de metralhadora, espaço que teve as suas feras libertadas dos aquários, seres famintos e sedentos por libertar o seu estado instintivo natural.

Algo semelhante ocorre na velha visão dos habitantes do norte de nosso continente. Em Tudo Por Uma Esmeralda, Michael Douglas também precisou lidar com répteis famintos em determinado trecho da história que traz uma escritora de histórias românticas que precisa atravessar a selva colombiana para resgatar a sua irmã que pode ser assassinada caso o pedido de resgata não seja pago aos bandidos. Ela dependerá da ajuda de um mercenário que logo mais se torna seu interesse amoroso. No meio do caminho entre resgates e descobertas, a dupla vai enfrentar os desafios da natureza, principalmente depois que o interesse por uma joia valiosa entra na jogada. Vale até mesmo se arriscar diante de animais perigosos e vegetação hostil.

Tubarão promove seguidores: os repteis dos anos 1970 e 1980!

Na virada dos anos 1970 para a década de 1980, os animais assassinos literalmente infestaram a indústria cinematográfica. Piranhas, ursos, serpentes, tubarões e diversas feras tomaram as telas e deixaram os humanos desesperados. Com os crocodilos e jacarés não foi diferente. Um deles estabelece a receita do filme do clássico Tubarão, de Steven Spielberg, uma das estruturas mais copiadas na seara das aventuras hollywoodianas: animal assassino ameaça a paz de determinada região. Alguém com traumas do passado será incumbido de resolver o problema, juntamente com algum caçador com planos para exterminar a criatura da narrativa.

Para atrapalhar, os gestores da cidade atrapalham o desenvolvimento da investigação e permitem que o animal faça a festa na cidade. Quando não é um feriado nacional, tipo 4 de julho, é algum evento importante para a receita da cidade. Alligator – O Jacaré Assassino segue esta fórmula. Dez anos depois, o filme ganhou uma continuação deslocada e ainda mais bizarra, Alligator 2 – A Mutação. Os italianos, cientes do sucesso comercial da fórmula, “cometeram” dois filmes bem toscos com os temíveis répteis: Crocodilo – A Fera Assassina e Crocodilo Assassino, de 1979 e 1989, respectivamente.

Em 1987, Arch Nicholson dirigiu John Jarrat em Dark Age, aventura de horror sobre um guarda florestal designado a eliminar um crocodilo de água salgada responsável por gerar terror em Queensland. No entanto, ele enfrenta problemas ao ter que lidar com uma aldeia que acredita no animal como representação espiritual do passado daquele povo. Em Primitivo, de 2007, o crocodilo Gustave já é visto por outro viés, isto é, como a representação das monstruosidades locais, dentre elas, a selvageria humana e a guerra civil. No mesmo ano, Morte Súbita e Croc – A Fera Assassina foram lançados, numa emissão generalizada de holofotes para os crocodilos assassinos.

Crocodilos dos anos 2000: a bizarra franquia Pânico no Lago, o réptil de Tobe Hooper, etc! 

Cineasta competente, mas sem as mesmas oportunidades evolutivas de John Carpenter e Wes Craven, Tobe Hooper ingressou na temática da relação da selvageria e barbárie entre os seres humanos em Devorado Vivo, num regresso aos répteis na perspectiva do horror ecológico no famigerado Crocodilo, lançado aqui no Brasil direto em VHS. Na aventura sanguinolenta e pouco convincente, erguida com base no roteiro de Jace Anderson, Adam Gierasch e Michael Weiss, acompanhamos oito jovens que são aterrorizados durante as suas férias num lago remoto na região sul da Califórnia. Conta-se que há 90 anos um homem teria montado um santuário para a criatura que acreditava ser o avatar de uma divindade egípcia. Precisa falar mais?

Como se não bastasse, o filme ganhou a vulgar continuação basicamente desconectada, Crocodilo 2, também lançada diretamente em VHS por aqui. No filme dirigido por Gary Jones, acompanhamos uma gangue de ladrões que transporta dinheiro e joias roubadas em um avião que sofre um acidente e cai numa região pantanosa mexicana. Os sobreviventes precisam lutar por suas vidas, em especial o grupo que não faz parte da bandidagem, pois além de ter que enfrentar os ordinários com suas posturas covardes e armas de fogo, eles ainda precisam lutar para garantir a sobrevivência num terreno hostil para seres humanos, haja vista a quantidade de crocodilos e demais répteis ferozes e sanguinolentos.

Ano 2000: Onde Tobe Hooper estava com a cabeça ao cometer esta infâmia chamada Crocodilo?

A franquia Pânico no Lago é outro festival de aberrações dramáticas e visuais. O primeiro filme, como sabemos, teve certo prestígio de público, apesar das críticas que o consideraram um exercício menor de horror ecológico. Representante dos crocodilos para a década de 1990, afinal, os tubarões e as serpentes já tinham cumprido as suas missões com Do Fundo do Mar e Anaconda, respectivamente, Pânico no Lago deu vida aos crocodilos assassinos numa trama bem-humorada e divertida, tendo Bill Pulman e Bridget Fonda como protagonistas classe A para um filme considerado B pelos especialistas e cinéfilos conservadores.

A direção de Steve Miner, responsável por dois episódios da franquia Sexta-Feira 13 e pelo retorno de Michael Myers em Halloween H20 – Vinte Anos Depois também era um diferencial. Aceitável, o primeiro estabeleceu uma franquia bizarra, com filmes repletos de efeitos visuais toscos e personagens sem nenhum aprofundamento que pudesse promover vínculo com os espectadores. Em Pânico no Lago 2, lançado em 2007, David Flores dirige o roteiro de Todd Huritz e Howie Hiller, material com a seguinte premissa: um chefe de polícia e um paleontólogo juntam as suas experiências para encontrar um monstro responsável por sua carnificina numa cidade fictícia.

Tão ruim, mas ainda assim, ganhou continuação: imagens de Crocodilo 2!

Ao investigar mais à fundo, descobrem que na verdade precisam enfrentar não apenas uma, mas três feras assassinas, verdadeiras máquinas de matar. Algo semelhante ocorre em Pânico no Lago 3, aventura dirigida por Griff Furst, cineasta guiado pelo roteiro de David Reed sobre três crocodilos gigantes que tocam o terror numa cidade. Desta vez, um biólogo ganha a ajuda de uma valente caçadora, dedicada ao extermínio da criatura por algum motivo bem pessoal. Quem também está obstinado para caçar a fera é um jovem que sente a falta de sua namorada que recentemente havia saído para se divertir com amigos e até então não deu mais as caras.

Tal como Sexta-Feira 13 Parte 4: O Capítulo Final, o quarto filme da franquia Pânico no Lago adota o mesmo subtítulo para narrar a história de um lago de crocodilos isolado por uma cerca elétrica, haja vista a presença das feras para o desenvolvimento de uma pesquisa realizada por um engenheiro oriundo das Forças Armadas. Lá, os répteis são mantidos para análise, mas como é de esperar, as coisas dão errado e a cerca apresenta ineficácia, além da presença do ônibus de estudantes que acabaram de viajar para um evento de natação. Eles estacionam por engano no local e garantem a manutenção da dieta dos bichos, apresentados por efeitos visuais questionáveis.

Surf Sangrento: uma aberração em termos visuais e dramáticos!

A franquia ainda rendeu dois absurdos: Pânico no Lago Vs. Anaconda, aventura que mescla dois universos monstruosos para abordar os animais como cobaias de uma pesquisa inescrupulosa que acaba dando errado. O resultado é a promoção de um embate entre duas forças destrutivas, tendo como vítimas do meio desta situação, as jovens que habitam uma irmandade próxima ao local onde a pesquisa era desenvolvida.  O quinto filme da franquia, dirigido por A. B. Stone, cineasta guiado pelo roteiro de Berkeley Anderson, abriu as portas para o sexto episódio, Pânico No Lago: O Legado, descartável e cheio de crocodilos horrorosos, criados por efeitos visuais bizarros.

Lançada em 2018, a produção aborda os pesquisadores de sempre, aterrorizados por répteis que habitam o centro de um lago que banha uma região extraída do mapa. De tão ruins, os tais filmes dialogam com o igualmente abominável Surf Sangrento, de 2001, dirigido por DR Hickcox, produção sobre um grupo de empreendedores que surfam entre tubarões numa região turística, tendo em vista registrar imagens para edição e exibição nestes programas que deflagram situações extremas para uma sociedade ávida por espetáculos macabros. O problema é que além de ter que driblar os tubarões, o grupo precisa enfrentar piratas saqueadores e um gigantesco crocodilo de água salgada, conhecido por ser o maior de sua espécie.

Os repteis de luxo em Predadores Assassinos: horror ecológico de classe!

Os filmes do segmento horror ecológico são embasadas por histórias que permitem a possibilidade de reflexão social e altas doses de entretenimento, sem que uma coisa anule a outra. A diferença entre Águas Rasas, Predadores Assassinos e Medo Profundo, quando comparados com Pânico no Lago 3, Tubarão de Malibu e Ataque das Víboras, por exemplo, está na estética, pouco apurada em filmes com outro grande problema: elenco abaixo do requisito básico para que nos importemos minimamente com a trama. Os efeitos visuais também funcionam como outro aspecto absurdo, além do desenvolvimento da história, geralmente desenvolvida sem bons conflitos dramáticos e diálogos sem qualquer recurso para promover a empatia entre público e personagens.

Produzido por Sam Raimi, Predadores Assassinos teve a direção segura do francês Alexandre Aja, cineasta experiente no horror ecológico, haja vista a direção da refilmagem de Piranha. O filme surgiu na esteira do meu questionamento sobre o funcionamento dos filmes com répteis assassinos no bojo da indústria cinematográfica. Saber se funcionam ou não é algo bem subjetivo, pois tal como na reflexão sobre os filmes de tubarões realizada na ocasião do lançamento de Megatubarão, é preciso delimitar a análise. De que público consumidor estamos falando? Para quem é produzido e direcionado este tipo de filme?

Em meu ponto de vista, filmes deste segmento funcionam quando os personagens são bem desenhados, conduzidos por uma estética no mínimo envolvente e escolhas narrativas que possuam elementos que magnetizem o nosso interesse com a história ofertada para consumo. Quando a história não se preocupa com o mínimo, torna-se complicado o envolvimento, o que nos leva para a tendenciosa resposta negativa sobre o funcionamento ou não dos filmes de animais assassinos. Em suma: para funcionar, o filme precisa ser ao menos próximo de Tubarão, Águas Rasas, Medo Profundo, Do Fundo do Mar, Morte Súbita, dentre outros.

Se for tosco como Pânico no Lago 3 e Surf Sangrento, aberrações propositadamente bizarras, a relação já é completamente diferente. Você, leitor, o que acha? Crocodilos e jacaré convencem, isto é, ainda funcionam?

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.