Plano Histórico #24 | Imagens do Brasil na Ficção Contemporânea

Os espanhóis e as suas touradas, os japoneses e os seus nerds, os homens negros e os seus órgãos sexuais avantajados, os homossexuais afetados, os franceses arrogantes, os italianos de fala afetada, os ingleses com o chá das cinco, os mexicanos com os seus bigodões, os colombianos traficantes de drogas e as brasileiras seminuas na praia, juntamente com uma partida de futebol. Quem nunca imaginou uma cena dessas envolvendo cada grupo citado? Um caminho para começar a compreender o assunto é o texto Em busca de um clichê: panorama e paisagem do Brasil no cinema estrangeiro, tese de doutorado produzida pelo pesquisador Antonio Carlos Amâncio da Silva, hoje professor da Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro, instituição que subsidiou a pesquisa.

Em seu trabalho, Tunico Amâncio traçou um painel de produções cinematográficas que apresentaram o Brasil de maneira estereotipada. A tese se transformou no livro O Brasil dos Gringos: Imagens no Cinema.  Seu extenso processo de análise contemplou a leitura de mais de três mil sinopses de filmes, além de ter assistido a 202 filmes. Tanta pesquisa lhe deu fôlego para escrever o roteiro do documentário Olhar Estrangeiro, da cineasta Lúcia Murat. Em sua tese, o que podemos observar é um desfile de estereótipos que ainda insistem em circular na produção cultural contemporânea.

Jon Voight “imagina” um Brasil estereotipado enquanto Sandra Bullock vive o seu inferno amazônico…

O panorama, como se pode observar, não é curto. Temos Carmen Miranda, uma estrela de cinema que nasceu para exportação ganhou fama e sucesso nos Estados Unidos durante a década de 1940 e 1950; Orson Welles, diretor de Cidadão Kane, esteve em nosso país para a realização de documentários que contemplavam aspectos culturais dos brasileiros; Walt Disney, o mestre da animação, em visita ao Brasil, nos presenteou com o famoso Zé Carioca; o erotismo de Emanuelle, personagem que em visita ao Brasil, vive as suas experiências mais ardentes; o pão-de-açúcar como cenário para o desfecho de 007 Contra o Foguete da Morte; o casamento exagerado apresentado em Orquídea Selvagem, ritual com presença do catolicismo, candomblé e outras manifestações religiosas num inter-relacionamento improvável, etc.

Há outros filmes interessantes e com cenas emblemáticas, mas que transcendem a proposta deste capítulo. O importante é saber que a pesquisa que serve de base para as produções selecionadas em Êxodos – Travessias Críticas analisou 88 filmes estadunidenses, 43 franceses, 19 italianos, 16 ingleses, além de outras nacionalidades pouco numerosas na listagem de Amâncio. Sua pesquisa dividiu-se em quatro alegorias. Para analisar os filmes, Amâncio nomeou as alegorias de Afonso Ribeiro, Essomericq, Pero Vaz de Caminha e Utopia.

James Bond em ação no Rio de Janeiro, juntamente com os personagens de Orquídea Selvagem, Velozes e Furiosos 5 – Operação Rio, Zé Carioca, Carmen Miranda e Lana Turner e seu latin lover em Meu Amor Brasileiro.   

Em Afonso Ribeiro, temos a seleção de filmes que representam a figura do degredado, isto é, aquele que precisou sair do seu local de origem para viver em outro país, haja vista o distanciamento do alcance das leis que o enquadrariam, numa abordagem que entrega uma nova oportunidade. Nela estão Cova Rasa e Um Peixe Chamado Wanda. A alegoria traz também o novo rico, alguém que não pode usufruir de sua condição social na própria terra natal. Encapsulam-se nesta alegoria muitos filmes de personagens que cometeram crimes no exterior e vem ao Brasil para viver com as cifras adquiridas de maneira ilícita. Inspirada no personagem histórico, também pode ser associada ao quinto da franquia Velozes e Furiosos, de Justin Lin, subintitulado Operação Rio.

A segunda alegoria, Essomericq, faz alusão ao emigrante, exilado, o brasileiro posto em contato com outra cultura, no papel do estrangeiro. É uma alegoria que trata da diluição da nacionalidade ao representar uma identidade em conflito ao entrar em contato com o “outro”. Um exemplo bastante elucidativo é Lambada, A Dança Proibida, drama sobre uma brasileira que vai até os Estados Unidos denunciar problemas relacionados à exploração da Amazônia. Em Pero Vaz de Caminha, terceira alegoria da pesquisa, temos o viajante que vive in loco a relação de alteridade. Estes filmes apresentam a experiência vivida pelo estrangeiro e as representações que o olhar do diretor legitimam, num processo seletivo que busca afinidade ou rejeição. Emanuelle 4 é um caso clássico: no filme, a personagem francesa viaja por amplo trecho do território brasileiro e entrega-se aos mitos da supremacia sexual negra, da sensualidade mulata e da liberalidade dos trópicos.

O Brasil como cenário nos videogames: um excerto do exotismo de Street Figther

A quarta alegoria, nomeada Utopia, trata da projeção de ilusão, o desejo de alteridade e exotismo, a intensa busca por um espaço mitológico ou geográfico de realização. Brazil, de Terry Gillian é um representante bastante ilustrativo desta alegoria, pois seu protagonista deseja tomar um banho para mudar a sua condição racial, assim como Macunaíma, de Mário de Andrade, salvas as devidas proporções comparativas. É a alegoria que trata da subversão e da excentricidade dos trópicos, da transgressão dos modelos civilizados.

Ao traçar uma análise detalhadas destes filmes, o pesquisador refletiu, semioticamente, sobre as produções, além de adentrar em aspectos históricos que explicam o processo de criação de tais narrativas. Em 2006, dez anos depois da defesa e divulgação do trabalho, Lucia Murat entregou ao público uma versão do texto de Amâncio, como mencionado, através de um documentário. Em paralelo ao texto de Amâncio e o documentário de Murat, deparei-me com uma elucidativa referência bibliográfica: Psicologia social dos estereótipos, do professor Marcos Emanoel Pereira, pesquisador que atua no curso de Psicologia da Universidade Federal da Bahia. Um material basilar para compreender os olhares míopes analisados neste texto.

A primeira linha (cenas de Sabor da Paixão) e a segunda (cenas de Turistas): o horror selvagem, a terra de ninguém, as mulheres oportunistas e o tráfico de órgãos em paralelo ao romantismo exótico da personagem de Penélope Cruz, uma versão pastiche das personagens femininas de Jorge Amado. 

Em suas páginas, o texto traça um panorama do conceito de estereótipo, palavra de origem grega que foi tomada de empréstimo pelas Ciências Sociais para a concepção que temos na contemporaneidade. No entanto, antes da perspectiva sociológica, estereótipo era uma palavra/conceito amplamente utilizada no campo da psiquiatria e da tipografia. No primeiro caso, denominava as imagens que se repetiam na descrição realizadas por pacientes com demência. Na tipografia, isto é, no segundo caso, estereótipo está ligado ao nome de um mecanismo de uma máquina responsável por imprimir repetidas vezes, as páginas de determinada produção impressa.

A história da família mais famosa das animações televisivas começou em 1987, em apresentações de 30 segundos para a série de TV The Tracey Ulman Show. Ao consagrar-se em 1989, ganhou a sua primeira exibição no Brasil em 1991. Burlesco, crítico, sagaz e com fôlego mesmo depois de quase 30 anos de exibição, o humor em Os Simpsons possui uma qualidade quase inquestionável, tamanho os desafios que a série propõe a cada temporada. Os brasileiros ficaram ofendidos com a representação agressiva? Sim, mas não é de estranhar, afinal, o episódio que nos retrata foi pesado e muito acima do nível que as demais caricaturas do nosso país já haviam sido representadas pelo cinema do século XX.  No entanto, criticar é a mola propulsora da série, tendo os próprios estadunidenses como alvos centrais das alfinetadas realizadas pelos membros desta família politicamente incorreta.

Filmes que citam ou flertam com o Brasil

Com velocidade intensa ao acionar os mecanismos da metalinguagem, os acontecimentos que envolvem Os Simpsons referem-se constantemente aos meandros da política, do cinema, da literatura e da história. Difundido através da televisão, a estereotipia do episódio que retrata os brasileiros se estabelece como uma versão 2.0 de Walter Benjamin, isto é, os estereótipos que Lucia Murat destacou no documentário Olhar Estrangeiro tinham sido impulsionados pelo cinema. Em Os Simpsons, a projeção televisiva, detentora da capacidade de alcançar um número mais abrangente de espectadores potencializou ainda mais a dimensão da estereotipia. Conforme aponta Amâncio em um artigo intitulado Em Busca de um Clichê: panorama atual do Brasil no cinema estrangeiro de ficção, provavelmente um resumo com dados parciais da sua tese, o pesquisador chamou o campo da estereotipia de minado, ao alegar ser “um conjunto de imagens pejorativas, redutoras”, isto é, “cristalizadoras de um cenário preexistente”. Esta é uma ótima definição para a representação dos brasileiros em Feitiço de Lisa, episódio da 13ª temporada desta família de sucesso crítico e de audiência.

Exibido em 31 de março de 2002, o 284º episódio foi dirigido por Steven Dean Moore e teve roteiro de Bob Bendetson. Apesar de largamente criticado por aqui, o texto permitiu que o dramaturgo fosse indicado ao Writers Guild of America Award. Transmitido no Brasil em 07 de dezembro do mesmo ano, a emissora Fox foi assertiva: “não nos responsabilizamos pela visão dos criadores da série”. Antes mesmo de chegar por aqui, a polêmica havia se espalhado como um rizoma pelo mundo. O episódio começa com a família assistindo a uma animação violenta na TV, Comichão e Coçadinha, uma espécie de sátira do divertido Tom e Jerry. Marge Simpson interrompe a interação para falar sobre a conta telefônica e uma ligação de U$400 para o Brasil. Inicialmente, Marge e Homer vão buscar satisfação na companhia telefônica, mas não conseguem resolver os problemas. Ao voltar para casa, o casal é surpreendido pela revelação de Lisa, assumindo-se como a responsável pela ligação.

O Brasil dos Simpsons

Os pais estão abismados, pois a garota é exemplar. Lisa, então, se explica: ela estava ajudando um menino órfão no Brasil. A família fica comovida quando ela conta que Ronaldo parou de entrar em contato e com isso, a sua preocupação com o garoto aumentou. Para reforçar as suas necessidades dramáticas, a personagem apresenta um vídeo para os familiares. Depois de assisti-lo, eles decidem viajar ao Brasil para tentar encontrar “o órfão e pobre menino brasileiro”. No material, o menino agradece as doações de Lisa e diz que o dinheiro deu para comprar um par de sapatos que vai durar muitos carnavais, além de ter sobrado uma parte para comprar uma porta. Agora, os macacos não podem mais invadir o espaço. Assim que termina de falar, vários macacos aparecem para desespero dos órfãos.

Com título que faz referência ao filme Feitiço do Rio, de 1984, melhor explicitado na seção sobre Sex and The City, o episódio traz macacos nas ruas; ratos coloridos que parecem balinhas; um programa televisivo infantil chamado Tele Melões, repleto de conotações sexuais; uma escola de samba onde as pessoas aprendem a “rebolada”, numa provável alusão à lambada, uma dança dita pelo instrutor como “erótica”; os recepcionistas do hotel que emulam um campo de futebol com as chaves dos hóspedes; uma fila de conga, ritmo musical que nem é brasileiro, para chegar ao hotel; um táxi não licenciado que culmina no sequestro de Homer; Bart Simpson engolido por uma cobra gigantesca, numa referência ao mito da Anaconda; os braceletes e colares que na verdade são serpentes vivas; uma vendedora de sucos de frutas tipicamente brasileiras que, ao disfarçar para dar uma informação, permite que os seus filhos roubem Homer e Bart; a sexualidade ambígua dos “figurantes” masculinos que aparecem como pano de fundo; o visual Latin Lover dos sequestradores de Homer, uma espécie de visão metonímica da América Latina, etc.

Filmes que citam ou flertam com o Brasil

A lista de absurdos, creio, seja suficiente para entender o processo de exagero promovido pelo episódio que consegue em pouco mais de vinte minutos, traçar um inventário dos estereótipos sobre o Brasil representado ao longo de muitas décadas de produção cinematográfica. Quando lançado, a Riotur ameaçou processar os envolvidos. Os brasileiros que dependiam do turismo já estavam demasiadamente preocupados com o surto de dengue que na época, colocou a nossa reputação num patamar imagético desfavorável. O produtor executivo Al Jean, em 2010, reconheceu através de uma entrevista para o The Guardian, que havia “ofendido praticamente todo o Brasil”, no entanto, não deixou de transformar a recepção dos brasileiros ao episódio em motivo de piada para o roteiro de alguns episódios das temporadas seguintes. Em The Regina Monologues, Homer Simpson menciona que um dia gostaria de voltar ao Brasil, mas receia por conta dos problemas com os macacos, algo que parece ter aumentado; em Mr. Spritz Goes to Washington, o palhaço Krusty revela que o macaco que se apresenta em seu programa é um imigrante brasileiro que vive nos Estados Unidos em situação ilegal; em The Wife Aquate, há uma cena em que Lisa menciona Barnache Bay como o lugar mais nojento do mundo depois do Brasil.

A situação talvez pudesse ter sido remediada com o episódio envolvendo a Copa do Mundo de 2014. Apesar de ter ajustado alguns estereótipos projetados em lente de aumento no ácido Feitiço de Lisa, episódio que ao final das contas, era uma conexão direta com o caos social que havia se tornado o Brasil no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, a sensação que se tem é a de que a ironia desta vez foi disfarçada, talvez não representada em diálogos, mas através de algumas imagens específicas. De volta ao Brasil, os integrantes da família Simpson chegam à cidade de São Paulo para assistir aos jogos da Copa do Mundo. Intitulado You Don’t Have To Live Like a Referee, no episódio, Homer recebe a incumbência de apitar a final entre o Brasil e a Alemanha. O convite vem de uma organização envolvida em projetos corruptos, intitulada WFF (World Football Federation). Homer recebe proposta para desembolsar um milhão. Constantemente subornado, o patriarca resiste.

Filmes que citam ou flertam com o Brasil

Os excessos estão lá, mas desta vez contextualizados: há uma freira que fica de biquíni no estádio, traficantes que tentam atrapalhar algumas situações, além do avião que os traz, meio de transporte que tem como marca registrada um macaco. Os estereótipos presentes em Feitiço de Lisa, desta vez, ganham nova aparição, alguns com maior outros com menor projeção. A erotização da apresentadora do programa Tele Melões ressurge, pois Bart faz questão de assistir ao programa assim que se hospeda. Em certo momento, a personagem se esfrega na letra E do cenário e há uma rápida referência a uma excitação masculina. Para evitar maiores problemas no Brasil outra vez, Marge surge consciente, com um tablet na busca de informações sobre o país.  Homer descobre que faz aniversário no mesmo dia que o famoso Pelé, Bart denuncia a campanha “não são apenas 20 centavos” logo na abertura e uma espécie de radiografia do Movimento Acorda Brasil, de 2013, se estabelece. Há uma manifestação conta a situação da Amazônia, o que nos remete ao período que os brasileiros indignaram-se com o caos na saúde pública, educação, transporte coletivo e supostos desvios/superfaturamento das reformas nos estádios, além do crescimento exponencial da violência e do turismo sexual.

As Imagens do Brasil em Sex and The City 

Em A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica, publicado em 1935, o filósofo Walter Benjamin destacou o cinema como agente de maior eficácia na destruição da aura de uma obra artística e, consequentemente, alcance das massas, o que permitia uma importância política jamais vista em outro meio de comunicação. O cinema teria então a capacidade de quebrar a unicidade da obra de arte, pois o seu poder de reprodutibilidade é muito grande, tendo como consequência a capacidade de atingir espaços mutuamente. Ao pensarmos as ideias de Benjamin para a seara ficcional televisiva, a projeção mútua torna-se ainda maior, principalmente em nossa era da cibercultura, com as conexões entre cinema, televisão e internet em profunda simbiose. Sex and The City é uma das narrativas seriadas pioneiras da HBO, canal fechado que hoje tem Game of Thrones como uma de suas produções mais populares.

Cenas de Anaconda: o filme de horror ecológico no Brasil

Antes da popularização do formato narrativo televisivo que conhecemos através de abundantes séries disponíveis para consumo, as opções eram pouco numerosas: Sex and The City, assim como Friends, foi uma das séries a despontar e alcançar estrondoso sucesso no final dos anos 1990, com seis temporadas e muitas discussões sobre empoderamento feminimo em perspectivas múltiplas: no mercado de trabalho, nos relacionamentos familiares, nos relacionamentos sexuais e amorosos, bem como em outras esferas da sociedade. Criada por Darren Star e Karen Kirkpatrick, a série foi exibida entre 06 de junho de 1998 e 22 de fevereiro de 2004. Baseada no livro homônimo de Candace Busnell, uma narrativa literária com quatro histórias paralelas, mas tendo Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) como personagem hegemônica, Sex and The City nos mostra as mulheres ostentando os crachás das suas conquistas diante dos cotidianos embates dentro da teia de complexidades que sustenta as relações entre homens e mulheres no mundo contemporâneo.

Carrie Bradshaw é uma colunista do jornal New York Star. Em sua escrita ela questiona as relações interpessoais e sexuais, relacionando-as com a sua própria história e com a realidade das amigas com quem divide o seu tempo, pessoas inseparáveis que ocupam o lugar de membros familiares: Samantha Jones (Kim Catrall), Miranda Hobbes (Cynthia Nixon) e Charllote York (Kristin Davis). Carrie, ao ocupar o posto de narradora, desenvolve cada episódio com base no que aborda em suas publicações, trazendo à tona os temas que fazem parte da agenda feminina contemporânea. Em determinados momentos das temporadas 3 e 4, Carrie e as suas amigas deparam-se com o Brasil. Elas não viajam como Emanuelle, tampouco são vítimas de pessoas violentas como no famigerado Turistas, mas o clima brasileiro atravessa o continente e toma conta da atmosfera narrativa de alguns episódios, cenas que perpetuam os mesmos estereótipos sobre a mulher brasileira em outras narrativas ao longo do século XX.

Filmes que citam ou flertam com o Brasil

É como Bhabha traz em O Local da Cultura: o estereótipo é uma simplificação porque é uma forma “presa” e “fixa”. Terreno pantanoso que se torna cada vez mais complicado para desconstrução e rompimento, haja vista o grau de cristalização em narrativas na era da reprodutibilidade. A cultura brasileira não é representada por seu jeito malandro, mas pela via da sexualidade excessiva. Em tempos de globalização e internet, será que este tipo de estereótipo ainda se sustenta? Em Sex and The City a resposta é positiva. É estranho observar um dos melhores seriados da história da televisão se deixar levar por questões que já foram problematizadas há tempos. Ao quebrar as correntes dos estereótipos femininos engendrados por séculos através do discurso patriarcal, a série entra num impasse e cai na contradição ao representar a cultura brasileira.

É certo que a referência sexual ao Brasil faz parte dos conflitos que gravitam em torno dos acontecimentos dos episódios selecionados. São compreensíveis para a dinâmica que se estabelece com cada personagem, o problema maior é a recepção destes estereótipos e a perpetuação em cadeia de uma imagem que parece cíclica, promovedora de alguns problemas de representação míope dos brasileiros. Com estrutura semelhante à crônica literária, a série trata de temas corriqueiros da mulher contemporânea. Bem sucedidas e independentes, as personagens estão constantemente em busca do amor e no estabelecimento de vínculos em suas pulsantes relações sociais. Com vida sexualmente ativa, as suas histórias são marcadas por namoros voláteis e disputa de poder na denominada “selva de batom” em Manhattan.  A valorização do sexo como algo que as mulheres podem falar abertamente, bem como viver, é um dos pontos nevrálgicos de todos os 94 episódios, dispostos em seis temporadas.

As Imagens do Brasil na animação Rio: estereótipos em trânsito

No final da terceira temporada, no episódio Sexo e Outra Cidade (Sex and Another City), a relação entre o sexo e a mulher brasileira faz parte de alguns diálogos e da trilha sonora, presente sempre que há uma insinuação sexual ou ato propriamente dito. Carrie, Miranda e Samantha estão em Los Angeles e Charlotte, por conta do recente casamento, é a única que ficou em Nova Iorque, tendo em vista consumar a sua lua de mel. Com um plano aberto e, logo depois, um travelling que contempla em zenital a piscina do hotel onde as personagens estão hospedadas, a câmera passeia por alguns clientes hospedados do hotel até contemplar as três personagens bronzeando-se. Um corte seco nos leva para um rápido flashback, com Carrie numa sessão de depilação. Atendida por uma russa, a personagem narra o acontecimento e reforça que a depilação brasileira ali é obrigatória.

Ao analisar o resultado, Carrie se assusta, pois a profissional lhe deixou totalmente lisa, em suas próprias palavras, “se sentido como sexo ambulante, assaltada e com a parte de baixo óbvia”. De volta à cena da piscina, Samantha lhe conta que a depilação brasileira é muito comum ali e que elas deveriam ter cuidado com convites para o Brasil, “pois os brasileiros são capazes de as levarem a fazer loucuras”. A famosa depilação é tratada como algo que após a sua realização, promove a libertação sexual. A fala de Samantha é alusiva ao que já vimos em filmes e outras séries: a ida ao Brasil como um lugar paradisíaco, de nudez e festa constante. Para complementar o pacote de estereótipos, a canção Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, adorna a narrativa nos momentos em que há conotações sexuais.

As Imagens do Brasil em Sex and The City

Neste ponto da narrativa, sabemos pela montagem alternada em Nova Iorque que Charlotte está em crise em seu casamento. O seu marido não consegue concentra-se para se entregar a uma relação sexual. Estressada, a personagem desloca-se para encontrar as amigas em Los Angeles. Ao chegar, recebe a indicação da depiladora russa. Na sessão, a canção de Barroso é tocada, o que reforça o conselho sobre a depilação ser uma possível ajuda para ativar a sua vida sexual desorganizada. Como elas afirmam, Trey precisa ver “a brasileira” de Charlotte. Mais adiante, Samantha encontra um ídolo antigo: Hugh Laurie, criador da revista Playboy. Ele as convida para uma festa na famosa mansão, o que culminará em outros conflitos para as personagens resolverem. Em determinado momento próximo ao final, Carrie explica em sua narração que todos os problemas são “culpa do Rio”, numa alusão aos famosos filmes que citam ou se passam no Brasil, uma nação estereotipada, carnavalizada pela falta de pesquisa dos roteiristas e realizadores.

Por que culpa do Rio? A resposta é simples: segundo estas produções, há algo de diferente na atmosfera do Rio de Janeiro, um local que faz com que as pessoas se soltem demasiadamente, libertem sua sexualidade reprimida, carnavalizem as suas vidas e não se importem com as consequências do que pode acontecer diante de tanta libertação, pois esta passagem pelo Brasil seria uma espécie de fuga da realidade, um distanciamento do cotidiano “correto” e “adequado”. A expressão já esteve em outras produções, sendo Feitiço do Rio, de Stanley Donen, um dos principais. No filme, Matthew Hollins (Michael Caine) é um executivo que, ao lado do amigo Victor Lyons (Joseph Bologna), viaja rumo ao Rio de Janeiro a negócios. Ao chegar por aqui, há macacos na praia, mulheres fazendo topless como algo extremamente natural e comum, além das confusões que nos remetem ao irônico episódio dos Simpsons.

As Imagens do Brasil em Sex and The City

A sexualidade dos brasileiros também foi mote para Orquídea Selvagem e Emanuelle 4. Ambas as produções apresentam personagens que viajam em direção ao Rio para efetivar as suas experiências de alteridade. Por aqui, experimentam a sensação de realizar algo proibido, antes de retornar para as suas respectivas realidades ditas “coerentes” e denominadas como “padrão”: as cenas dão espaço para serpentes passearem pelo corpo de uma mulher, numa mistura de mistério e erotização, bem como relações sexuais praticamente tribais, com mistura de ritmos e caos absoluto. No geral, muitos exageros, para manter a sensação de sexualidade no ar.

A depilação brasileira, por sua vez, não é uma prerrogativa apenas de Sex and The City, pois ao analisarmos o painel de referências à cultura brasileira na produção estrangeira, encontraremos outras séries que já tocaram no assunto, mesmo que tenha sido ligeiramente. True Blood, Uggly Betty e Dirt são algumas. Nas abordagens, o de sempre: a sexualidade e o Rio de Janeiro como metonímia do Brasil. O país, por sinal, já foi tema de Sex and The City também na quarta temporada. Ao investir em novas experiências, Samantha Jones aceita um relacionamento com Maria, artista lésbica que também é dona de uma Galeria de artes. Interpretada por Sônia Braga, a “presença” brasileira dura três episódios e é ainda mais humorada que a citação anterior, mas desta vez, focada numa mulher que não acredita que o relacionamento seja apenas sexo. Será que os produtores passaram por um processo de conscientização?

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.