Home Colunas Plano Polêmico #38 | Crítica Não é Aritmética da Estética!

Plano Polêmico #38 | Crítica Não é Aritmética da Estética!

por Luiz Santiago
115 views (a partir de agosto de 2020)

Acreditem: eles vivem! E estão no meio de nós! “Eles quem?“, pergunta o xófen e inocente leitor. Ora, os Críticos de Críticos Especialistas em Aritmética da Estética, oxe! “E quem são esses?” há de perguntar o mesmo tenro leitor. Pois bem, este é o tema do nosso Plano Polêmico, que na verdade é apenas a semeadura do óbvio. No entanto, diante da realidade em que vivemos, semear o óbvio se tornou uma prática necessária. Ainda mais quando falamos com quem acha que um crítico precisa tabelar as avaliações que fez na vida, afinal, se para a comédia de costumes Por Que Vocês Não Aceitam Opiniões Diferentes das de Vocês? (1913) o crítico Ditadorzinho Irônico e Bruto deu absurdas 456 estrelas, como é possível que ele tenha dado apenas 31 galáxias para o documentário Ninguém é Obrigado a Aceitar a Opinião de Ninguém, Apenas a Garantir a Liberdade de Fala do Outro (1900) e pior ainda, apenas 6,17³ meteoritos para o épico jornalístico Aqui Está Garantida a Sua Liberdade de Fala, Agora, Se Você Não Gostou do Que Leu, Não é Um Problema Que Compete a Mim Resolver, Afinal, Se Tens a Liberdade de Falar o Que Queres, Eu Tenho a Liberdade de Responder o Que Quero… A Não Se Que Você Queira Que Todo Mundo Concorde Com a Sua Discordância, E Isso Lá Em Casa Tem Outro Nome (2020).

Para esses Pitágoras da atribuição tabelada de estrelas, a crítica é feita via um comparativo regulado pela “aritmética ético-estética” que obriga o profissional avaliar todo o restante das coisas que ele vir na vida a partir de uma metódica comparação aproximada (e corrigida) frente a tudo o que avaliou antes. Ou seja, para atribuir estrelas ao suspense Bee, A Senhora Só Vem Aqui Escrever “Lacraste” Nas Críticas, Já Sacamos Qual é a Tua, Cacura! (2019), o crítico precisa levar em profunda consideração quantas estrelas ele atribuiu para A Gigantesca Barba do Mal (2013), O Grande Golpe (1956), A Mulher Que Se Foi (2016), Entre Facas e Segredos (2019), Eleição (1999), Primavera Para Hitler (1967), Laranja Mecânica (1971), Memórias de um Sargento de Milícias (1854) e Terra de Ninguém (1973)! Se ele deu 5 estrelas para um filme, pela tabela, jamais poderia dar 3,5 para outro, pois é assim que funciona a atribuição de notas numa crítica, não é?

Resposta: não.

Para começo de conversa, a atribuição de um valor numérico a qualquer obra de arte é algo puramente didático, mais ou menos prático, patético e… popular. Como uma das funções da crítica é estabelecer um diálogo com seus leitores a partir de uma interpretação/leitura da obra, a nota meio que crava uma “opinião qualitativa fácil” para quem bate o olho e conclui que “fulano gostou” ou “fulano odiou” o filme, o livro, etc. Mas esse tipo de avaliação é um problema para a quase totalidade dos críticos: a maioria de nós na verdade nem gosta desse tipo de notificação. E sabem por que? Primeiro, porque às vezes uma obra é complexa demais ou até simples demais para ser resumida apenas por estrelinhas, ovinhos, tomatinhos, insetinhos, cocozinhos. Eu não sei se vocês sabem, mas a parte mais importante da crítica não são as estrelas. Estrelas são perfumaria, isopor. Um charminho mimoso e às vezes ridículo. A parte mais importante da crítica é… pã pã pã… a crítica! OOOOOOOOOOOOOOOOHHHHHHHHHHHHHHH!!! De explodir a cabeça, não?

Vocês já leram um texto que, ao chegar ao fim, vem aquele pensamento “ué, não entendi por que o indivíduo deu 4 estrelas se ele fala mais mal do que bem do filme!” ou o contrário disso? Este é um dos exemplos que mostra o por quê usar uma avaliação numérica para arte é complicado. Eu mesmo já me vi pelejando para saber se dava + ou – meia estrela para um filme. E às vezes mudei a nota (ou, como editor, já pedi para meus parceiros mudarem a nota) de textos que eu leio e penso “hummm… não tá batendo o texto com a quantidade de estrelas dadas“. E sim, isso acontece mesmo. Porque transformar um conteúdo artístico em um número dá margem para esse tipo de problema. Aos poucos é que a gente consegue deixar o mais coerentemente possível a nossa reflexão + a nossa nota.

Aí vem a outra parte do samba: o objeto de análise. Embora cada crítico tenha um estilo diferente — e até uma intenção final diferente, o que  faz alguns textos nem serem uma crítica de fato, mas uma resenha ou um ensaio — há algo que todos precisam levar em consideração ao levantar uma discussão e trazer um olhar avaliativo para uma obra específica: o contexto. É como eu sempre digo para os meus alunos antes de iniciar a doutrinação titeufista: contexto é tudo. No campo das ideias, especialmente quando a proposta é uma análise (de qualquer cunho!), o articulista tem por obrigação colocar seu objeto de estudo em contexto, trajetória que começa na identificação da proposta e termina no componente externo, mas relevante, para a criação daquele produto: o tempo e espaço, o artista, os materiais utilizados (cabe aqui toda a consideração técnica), a visão do resultado final (opinião pessoal — para quem ainda não sabe, toda crítica é parcial e também pessoal!) e o levantamento de uma discussão original, um tipo de “… então, para mim, esse filme quer dizer isso por conta disso, disso e disso” e é aí que muitos autores podem soar bem parecidos uns com os outros ou completamente diferentes.

Spoiler: a maioria das concordâncias e discordâncias a respeito de uma obra está nesse aspecto. Na leitura que cada um faz de um dos significados que a obra pode ter. Empatado com isso vem a experiência pessoal.

Se o contexto é a nossa âncora, ou seja, aquilo que impede que um texto seja engessado, praticamente uma cópia estrutural do outro, só trocando o elenco, a sinopse e o diretor, é natural que apliquemos das mais distintas maneiras o nosso julgamento para cada obra! Um crítico (não confundir com “Fazedor de Meu Querido Diário“) jamais julgará os efeitos especiais de um filme de 1920 sob o mesmo contexto que julgará um filme de 2020. Estamos falando de um século de desenvolvimento da tecnologia! A manufatura da arte aí tem peso, instrumentos, execução e resultados completamente diferentes. A mesma coisa eu posso dizer quando pego um trash, um blaxploitation, um blockbuster com milhões de orçamento ou um alternativo feito com alguns milhares de dólares. Tudo é cinema e tudo será analisado com as mesmas ferramentas, mas com manipulação diferente delas (ou seja, considerando o contexto), porque uma crítica sem a observação do contexto é apenas um amontoado anacrônico/irreal que termina cobrando de uma obra de arte algo que ela nunca se propôs a dar.

Assim, o que moveu O Pior Crítico do Mundo a dar 5 estrelas para Palhaços Assassinos do Espaço Sideral foi todo um contexto e proposta diferentes para que ele desse 4,5 para Coringa, mais todo um contexto e proposta diferentes para dar ZERO para 47 Ronins, mais mais todo um contexto e proposta diferentes para fechar com 3 em Roma. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Cada filme tem uma proposta diferente, uma leitura diferente, um caminho de análise diferente, uma equipe e história de produção diferente, um tempo diferente, um espaço diferente e as estrelas atribuídas a eles não obedecem a um padrão onde nós, críticos, somos obrigados a dar X para um só porque demos Y para outro… Minha dica é: sempre que tiver dúvida ou ficar insatisfeito com a atribuição de estrelas para um texto, siga esses dois conselhos:

1 – Repare que lá na parte superior e na parte inferior da página não está escrito o seu nome. Logo, não é O SEU texto, logo, a visão e as estrelas podem ser (ora, quem diria, não é mesmo?) bem diferentes das que VOCÊ atribuiria para tal obra.

2 –  Sinta-se à vontade para xingar o crítico o quanto quiser, afinal, crítico nem é gente (não espere, todavia, ser tratado com carinho na réplica), apresente suas discordâncias (mas não espere que o autor vá concordar com tudo o que você disse) e explique você mesmo por que pensa diferente (isso é sempre legal, porque gera diálogo. Faça isso!). Se, na sua argumentação, alguma comparação precisar ser feita, que seja uma comparação de conteúdo, de proposta, de aproximação temática ou de trabalhos diferentes feitos pelo mesmo profissional. Faça tudo isso. Menos condicionar a notinha dada para um filme/série/livro/álbum/game/peça/quadrinho a uma tabela fixa, achando que a atribuição de notas para uma obra de arte é tipo tabuada. Crítica não é aritmética da estética!

E agora lá vou eu coletar minhas zero estrelas, dá licença? Numerosos thauzinhos a 24fps!

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais