Home Colunas Plano Polêmico #41 | Qual o Melhor Personagem de F.R.I.E.N.D.S?

Plano Polêmico #41 | Qual o Melhor Personagem de F.R.I.E.N.D.S?

por Iann Jeliel
964 views (a partir de agosto de 2020)

O texto contém SPOILERS de toda a série.

Ontem, 22 de setembro de 2020, Friends completou 26 anos de sua estreia oficial. Assim, rememorando a série, decidi trazer um questionamento que talvez nem fosse merecedor do nosso quadro polêmico, mas certamente o resultado ao final será. Antes disso, é necessário reforçar o caráter perspectivo da escolha direcionada, que não tenta em hipótese nenhuma diminuir a preferência de ninguém sobre qualquer um dos seis ótimos personagens da série, até porque essa é pessoal e vai de acordo com a identificação de cada um para com eles, algo que a própria série influencia por basicamente dividir o tempo de tela na mesma proporção e dar características muito peculiares e de fácil reconhecimento. Naturalmente, essa identificação influencia de alguma forma a minha escolha (e antes que porventura queiram me cancelar, explicarei logo à frente), mas isso não será levado mais em conta do que os critérios objetivos da análise, que vai além da preferência e analisa a construção dos personagens dentro da linguagem da série.

Alguns dos critérios adotados:

Regularidade de tramas dramáticas:Ah, mas a série não é comédia? Quem liga para drama?” Eu. Portanto, esse é um critério fundamental, e destrincharei os porquês ao longo do texto, mas digo logo que é possível enxergar Friends além de uma série feita para desligar o cérebro e rir um pouquinho;

Transformação de personalidade durante a série: personagem bom é aquele que evolui. Contudo, não entenda evoluir como se tornar um santo. A evolução de um personagem está pautada em como ele reage aos confrontos dramáticos que lhe são direcionados, para o bem ou para o mal;

Momentos cômicos: óbvio que se tratando de uma sitcom não iria ignorar a questão da comédia, mas longe de eleger o melhor somente aquele mais engraçado (algo que é um argumento válido, tá?). Para além de ser somente engraçado é preciso entender como o humor do personagem se encaixa na proposta de comédia da série como um todo, como ele movimenta a narrativa no contexto do episódio, temporada ou mesmo série como um todo;

– Atuação: entra no mesmo contexto que a anterior, não é só sobre o melhor ator dentre a equipe, mas também aquele cuja atuação melhor se adequa à proposta de linguagem da narrativa. Entretanto, para esse critério, já digo logo que todos são de altíssimo patamar, então aquele com mais ferramentas de atuação certamente ganha um bônus na disputa;

Construção dos romances: Friends sem as suas teias amorosas não é Friends. O critério aqui é um complemento aos anteriores, a que esses romances levaram? Pensando na evolução do personagem, quais renderam os melhores momentos cômicos? Quais exigiram mais da química entre o elenco?

– Carreira de trabalho: tá… esse critério é meio aleatório, mas essa é a principal base para a evolução de todo mundo na série. Então, o processo de conflito gerado pelo seu trabalho também foi algo de importância na escolha.

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NÃO PODE SER, NÃO É O JOEY NEM A PHOEBE!?

Sendo assim, já começo eliminando dois dos polos mais queridos da equação, Joey e Phoebe, por eles não passarem de alívios cômicos ou utensílios para alavancar outros personagens. Phoebe nunca teve seus dramas paternos plenamente explorados, tanto que seus pais só aparecem uma vez na série e fica em aberto a relação deles com o futuro que nunca chega. Algo que poderia ter sido resolvido facilmente no dia de seu casamento, contudo este acontecimento só foi para satisfazer os inúmeros fãs da personagem, tanto que nem foi construído como um grande evento, ele acontece na pressa de dar um final feliz para ela de alguma forma. Porque levando em conta o todo da jornada, não faz muito sentido ela escolher esse lado desejoso de relações monogâmicas, tanto que era o que a diferenciava de Monica e Rachel, que quase disputavam esse feito, sendo Mike um personagem perfeito para complementá-la no típico relacionamento mais despojado, e David aquele que representaria a tentação estável que ela em si nunca desejou, o que tornou ainda mais incoerente a escolha de seu final, por mais “bonitinho” que seja.

Joey, por outro lado, já chegou a ter mais destaque em vias dramáticas, principalmente nas primeiras temporadas em relação a seu bromance com Chandler, o que rendeu vários arcos ótimos, como a sua troca de apartamento e o mini triângulo amoroso entre ele, sua namorada passageira e o próprio Chandler, dois ótimos desafios de confiança entre eles. Ao final, na 8ª temporada, seu arco com Rachel poderia ter sido bom, se fosse voltado para uma vertente de repensar o seu trato típico com as mulheres, de sair uma vez e depois não ligar mais para nenhuma, literalmente, algo que já havia sido beliscado em outro momentos, mas com Rachel, por ser uma das principais, tinha um ótimo potencial de revigorar o personagem de uma outra forma. Entretanto, a série optou por montar uma fanfic com ela, o que não fazia sentido tendo em vista que seu caso com o Ross foi algo estabelecido desde o piloto, e tinha que ser resolvido até o final por obrigação de coerência. Acaba que os roteiristas perceberam a besteira. Apenas desistiram da ideia repentinamente e nem falaram mais no assunto, mesmo pela forma fetichista com que se desenvolveu, poderia ter sido um divisor de águas para o personagem amadurecer, mas acabou o colocando como o “crianção” da turma ao final, não resolvendo sua carreira artística, que se resumiu a “Dr. Drake Ramorey” e nada mais.

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É MONDLER ENTÃO…NÉ?

Indo para Chandler e Monica, o casal improvável que conquistou o público, já se saem melhor, principalmente porque seus arcos se conversaram coerentemente e evoluíram sem perder a essência de ambos os personagens. Particularmente, Monica é com quem menos me identifico, por seu jeito eloquente de organização e limpeza, além da competitividade quase tóxica, porém são características que fazem sentido se aliarmos ao seu drama paterno. Irmã mais nova, nunca recebeu a atenção que queria, aliado ao sobrepeso, acabou criando um complexo de inferioridade que conversa em todos os lados da sua personalidade. Na falta desse carinho materno, ela sempre se comportou como uma mãe para o próprio grupo, disposta todo momento a ajudá-los servindo jantares ou oferecendo seu apartamento para ficar, o que acabou se tornando um dos principais símbolos de Friends. Chandler também tinha suas inseguranças com os pais, que foi por boa parte um mistério na série, e quando revelado, fez total sentido ao motivar suas nuances homofóbicas de masculinidade frágil com medo de se tornar o que o pai se tornou, no caso, um travesti, até há ótimas piadas a respeito desse lado mais afeminado dele.

Seu romance com Monica ajudou bastante a ambos na resolução de cada uma dessas inseguranças com a paternidade, principalmente quando eles juntos decidem criar um filho adotivo, ela deixa de lado essa preocupação já recorrente de ter a sua própria criança, e ele se torna um homem mais decidido do que quer, tudo isso sendo ligeiramente construído desde todo o arco do casamento. Entretanto, por mais que eles tenham se resolvido por si mesmos com esse trauma, ainda ficou faltando um gostinho da relação deles com os próprios pais, por mais que precedente ao casamento haja um entendimento geral, falta à série entrar mais em profundidade nesses dramas. Fora que sua relação como casal pouco teve desafios no processo, vivendo um conto de fadas sem intrigas ou se resolvendo rápido demais, mesmo diante de várias oportunidades românticas promissoras, como a possível desistência de Chandler no dia da festa ou o real motivo para Monica ter ficado com Chandler na primeira vez, arcos que se fossem com Ross e Rachel teriam muito mais pano pra manga.

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 É A RACHEL! SÓ PODE SER ELA! ME DIZ QUE SIM!!!!

Com isso, acredito que a disputa fica bem acentuada entre os dois finalistas, considerando que mais da metade dos conflitos que levam a série adiante envolve pelo menos um deles, o que consequentemente exigia mais dos atores. Logo, Jennifer Anniston e David Schwimmer foram os intérpretes que mais se destacaram na composição mais instável de seus personagens, a todo momento passando por intensas transformações de sentimentos. Isoladamente, Rachel foi a que mais evoluiu ao longo do percurso, a mimada que fugiu do casamento foi virando cada vez mais uma mulher bem resolvida no seu sonho e se desvinculando do típico estereótipo de patricinha desejada por todos os homens para uma grande mãe, sem tirar o seu jeito sensível de ser. Contudo, ela ainda não é a melhor por conta do controverso caso com Joey, que diferente de outras situações constrangedoras que a série colocou e logo mais desistiu, essa não se resolveu bem para a comédia e acabou sendo o principal divisor de águas na queda final da qualidade do programa.

Situações essas que eram muito comuns com o Ross e seu jeito azarão de ser, o que sempre levou a momentos de comicidade incríveis e memoráveis, o que gera boa parte dos episódios mais engraçados da série, até para os vários admiradores que não gostam do personagem pela sua personalidade mais excêntrica, nerd, insegura e, sim, machista. “Mas espera, você não tinha falado que se identificava com ele?” Sim, inclusive por todas as características. Contudo, não venha com seu bastão de cancelamento, pois essa última, dentro da linguagem da série, é exatamente o que o faz ser tão identificável. Qual homem desconstruído de hoje que nunca replicou em algum momento da vida atitudes machistas? Que esse atire a primeira pedra. Por isso reforço sempre que não dá somente para enxergar Friends na primeira camada de descompromisso, o humor é e deve ser uma ferramenta de desconstrução crítica de aspectos sociais.

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AH NÃO! VOCÊ SÓ PODE ESTAR BRINCANDO!

Perceba que a série nunca ri COM o Ross, mas ri DELE, em todas as várias enrascadas situacionais em que ele se mete por conta da própria personalidade egocêntrica e temperamental. Ao contrário do que muitos pensam, Ross não é um elemento que datou a série por supostamente reproduzir os pensamentos de sua época, ele é justamente o contrário, à frente do seu tempo, ele é causador de boa parte dos debates sociais complexos a respeito de masculinidade e relacionamentos, porque a série olha para ele de forma a desarmar, aí sim, os pensamentos reproduzidos na sua época. Isso tudo sem levantar bandeira de cancelamento ao personagem, buscando realmente estudar, compreender e destrinchar o que o levou a ter essa personalidade, desarmando-a dentro de um didatismo direto com o público masculino e humanista com o personagem.

Ele passa por diversos processos, aprende com vários de seus erros o suficiente para se entregar ao emocional que tanto a sociedade o ensinou a bloquear no seu final com Rachel, mas ainda se fecha como um cara falho, porque como todas as figuras masculinas de Friends (e como todo homem), futuramente ainda precisaria passar por vários processos de desconstrução. “Ah, mas ele impediu a Rachel de seguir seu sonho? Machista, manipulador, embuste!!!” Já parou para pensar que depois era só comprar outra passagem, num outro dia? É muito claro ao final simbolicamente e racionalmente que o abandono do apartamento iria significar a separação de todos para seus caminhos, Monica e Chandler no seu novo apartamento, Phoebe e Mike casados em algum outro lugar, Joey indo para novas audições e conhecendo novas pessoas (algo explorado na sua série solo – sim, ele tem uma série solo), e Rachel e Ross se mudando para Paris, finalmente fechando o casal da série. “Como assim o casal da série? O Ross foi um lixo com a Rachel, não lembra de quando ele a traiu um dia depois? Ele não a merecia, bla bla bla“.

Todo grande romance clássico em convenção é feito à base de conflitos, porque esses conflitos são os que em contraponto à química irão nos fornecer material para torcer para o casal ficar junto. Por mais que possa ter demorado talvez um pouco mais que o devido – principalmente na 9ª temporada –, basicamente essa ideia de conflito para alimentar a sensação de destino é o que movimenta a série toda, até quando nos momentos que eles não protagonizam, como a cena mais importante do episódio de casamento de Chandler e Monica ser a informação de que Rachel está grávida. Isso de traiu ou não é só mais um elemento a favor de Ross, porque até hoje isso gera discussão, e na verdade o intuito é esse mesmo, provocar, tanto que não há resposta, a série dá ferramentas para argumentações válidas para todos os pontos, mas o que importa mesmo são as consequências dramáticas daquilo nos personagens e, logicamente, a piada, porque o humor está em Friends como desarmador de ideias, e nesse acontecimento, são tantas coisas desarmadas simultaneamente que daria um Plano Polêmico somente sobre isso… Quem sabe um dia.

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Enfim, é isso aí, mesmo não sendo o mais adorável para muitos, é inegável que a série consegue posicionar Ross dramaticamente e comicamente de forma igualmente eficiente, tornando-o o mais completo personagem da série, logo, o melhor. Concorda, discorda? Vai me cancelar? Deixe aí nos comentários a sua opinião!

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