Home Colunas Plano Polêmico #45 | Em Um Bairro de Nova York: Notas Sobre um Ativismo Que Tudo Quer, Mas Nada Reconhece

Plano Polêmico #45 | Em Um Bairro de Nova York: Notas Sobre um Ativismo Que Tudo Quer, Mas Nada Reconhece

por Luiz Santiago
1067 views (a partir de agosto de 2020)

No dia 9 de junho de 2021, um certo filme musical estreava no Tribeca Film Festival. Versão cinematográfica do histórico e mercadologicamente revolucionário In the Heights (que estreou nos palcos em 2005), o filme, assim como os seus criadores Lin-Manuel Miranda (letra, música e enredo originais para teatro) e Quiara Alegría Hudes (livro e roteiro) não conseguiu sequer uma semana de paz. Aportando na HBO Max no dia 10 de junho, foi apenas questão de algumas horas para que uma linha argumentativa se criasse em cima do longa e ganhasse as inúmeras mídias, com incontáveis falas destruindo, pisoteando e inutilizando a obra por supostamente praticar colorismo. O termo é sério. Sociologicamente, tem um histórico plural e um amplo leque de definições a depender do contexto, mas neste cenário específico, refere-se à prática de ordem social e ideológica que procura apagar, esconder, invisibilizar ou até mesmo disfarçar indivíduos de cor preta. Mais especificamente: Em Um Bairro de Nova York recebe a sua prematura carteirinha de cancelamento porque “pratica colorismo contra afro-latinos”.

O trabalho dos escritores Lin-Manuel (descendência portorriquenha) e Quiara (descendência judaico-portorriquenha) ao lado do diretor Jon M. Chu (descendência sino-taiwanesa) conseguiu “apenas” isso aqui: um filme de Hollywood, de gênero musical, com 2h30 de duração, com um orçamento de 55 milhões de dólares e composto por um elenco majoritariamente latino, entre homens e mulheres de diferentes idades, além de um afro-americano (Corey Hawkins, dando vida a Benny) em um dos papéis centrais. A história do filme é embalada por uma trilha sonora que abarca diversos ritmos latinos. Diferentes sotaques de espanhol e diversas palavras nesse idioma são ouvidas ao longo do filme. Um recorte da cultura latina e as memórias das diferentes gerações vindas de países latinos aparecem no centro das atenções da fita, que é uma ficção sobre sonhar e sobre procurar realizar sonhos, tudo pela visão de um artista que cresceu no bairro que dá nome à produção. Mas para algumas pessoas, nada disso importa. Porque não existem afro-latinos nos papéis principais.

Não bastasse o fato de ignorarem o contexto de produção da obra e a indústria que lhe deu origem, pululam os ataques a Lin-Manuel Miranda, ou seja, à pessoa mais errada possível para se atacar. Quando eu apontei, no parágrafo de abertura, que a versão teatral de In the Heights foi “histórica e mercadologicamente revolucionária” eu não estava exagerando. Ritmos latinos como música-base, enredo voltado para um recorte da cultura latina e elenco majoritariamente latino num palco, nos Estados Unidos? Pois é, o musical abriu importantíssimas portas para atores e atrizes latinos na Broadway, e este filme deveria fazer a mesma coisa, em maior escala, no cinema. Mas a linha negativa de argumento que vem contra a produção, ainda mais com a acusação de colorismo, esquece a essência da própria obra — que é tão bem exposta — e cobra dela um adendo étnico em posição específica (personagem protagonista), deixando de celebrar e reconhecer a importância do que se está conquistando aqui.

In the Heights não é um catálogo demográfico audiovisual. Não é um censo em imagem-movimento. Ou um produto que, seguindo um contrato histórico-documental, deveria exibir um índice de todas as possíveis representatividades com as pessoas que moram no referido bairro-título. E a questão é essa, segundo o rolo-compressor que passam sobre o longa: o filme pratica colorismo não por excluir afro-latinos (que na verdade estão no filme, só que no elenco de apoio); ou porque coloca um homem negro, mas não latino, num dos papéis principais. O filme pratica colorismo, segundo esta visão, porque um ou alguns desses papéis principais não é ocupado por um afro-latino. Logo, essa omissão “demonstra que a obra não presta“.

A meu ver, tal caminho de polêmica faz com que uma das vozes midiáticas mais importantes para os grupos latinos hoje, nos Estados Unidos, como é a de Lin-Manuel Miranda, receba a ingrata enxurrada de não-reconhecimento por um incrível trabalho de INÍCIO DE REPRESENTAÇÃO MASSIVA DE LATINOS EM GRANDES PRODUÇÕES hollywoodianas. E com isso, sabem o que virá a seguir? Vejamos…

Se alguém com a força de mercado que Lin-Manuel Miranda tem, hoje, não consegue sequer emplacar um elenco majoritariamente latino em uma grande produção, os estúdios, ávidos para lucrar em cima dessa bandeira, verão que tal abordagem “não vale a pena economicamente“, e possibilidades como essas, no futuro, encontrarão muito mais dificuldades para sair do papel… se saírem. Grita aí o nível de ingenuidade e lorpice de muitos falando sobre representatividade em grandes empresas. Uma parcela enorme dessa gente realmente acredita que mega corporações da indústria cultural (editoras, marcas, estúdios) estão de fato preocupadas com representatividades! Uma Marvel ou uma DC da vida; uma Netflix, uma Disney ou uma Warner da vida; uma Amazon ou uma Funko da vida querem uma única coisa, aquilo que toda corporação quer: muito dinheiro. A indústria cultural surfa na onda de seu tempo, só isso. Se há possibilidade de lucro, logo aparecerá uma série, um boneco, um filme, um livro, um quadrinho sobre qualquer tipo de grupo que aquela sociedade vê como necessário representar, seja positiva ou negativamente. Então o ciclo de lucro — adicione aqui a cor do dinheiro que você quiser — seguirá rodopiando às alturas. Agora, se o esforço não resultar em +$, o cancelamento se voltará contra o cancelador. Só que dessa vez, com um estigma piorado, recriando/reforçando preconceitos estruturais do mercado que ainda hoje tentamos destruir a passos muito lentos, como “filme com idosos não vende“; “filme com elenco latino não vende“; “filme com elenco negro não vende” e por aí vai.

E eis o que temos e onde chegamos. Para um filme com uma elogiável escala de representações em diversos papéis, In the Heighs ganha a pecha de colorismo e já nesses primeiros dias pós-polêmica mostra recuo de vendas em salas de cinema e queda de streamings. E o que era para ser o primeiro grande passo para obras futuras, com muito mais gente e com muito mais cores e caraterísticas humanas sendo representadas, perde sua força já na largada. E ainda tem isso: gente que verdadeiramente acha que uma obra de arte conseguiria representar tudo e todo tipo de possibilidades humanas dentro de um determinado grupo étnico, cultural, social. Para ficar só nesse filme, já imagino linhas derivativas desse argumento reclamando da não-representatividade de latinos surdos e mudos, de latinos LGBTQIA+, de latinos trans, de latinos cadeirantes, de latinos cegos, de latinos gordos, de latinos autistas, de latinos de gênero fluído, de latinos de todos os países latinos, de latinos de diferentes classes sociais, de latinos das muitas religiões vistas em culturas latinas… uh, a lista segue até onde seguir a diversidade humana!

Pergunta: realmente falta “tipos representativos” do enorme leque dos povos latinos em In the Heights? Resposta: óbvio que sim! Como é que não faltaria, minha gente? Como representar até mesmo “todo o básico” de um grupo tão heterogêneo como os latino-americanos em um milionário musical hollywoodiano? A questão é: nenhuma criação artística será capaz de representar TUDO de uma cultura ao mesmo tempo, nem se tratando do considerado básico! E sim, estamos em 2021 e “isso já deveria estar em pauta há muito tempo!“. Claro, claro. A lista de coisas que nem deveriam existir ou que já deveriam estar em pauta há muito tempo é bizarramente maior do que a insanidade de argumentos ingênuos sobre representação na indústria cultural e sobre pseudo-colorismo! Mas é preciso sair da fantasia e viver no mundo real. Neste mundo, quase tudo ainda está abaixo do ideal. E não é pisoteando vitórias como In the Heights que vamos conseguir avançar para novas conquistas dentro dessa indústria.

Atacar Lin-Manuel Miranda (sim, o cara que também concebeu Hamilton!) é atacar a pessoa errada. Cobrar completude representativa de In the Heights é a cobrança errada, sem contar que “completude representativa” é impossível em qualquer obra de arte, especialmente nas que dependem de milhões de dólares em investimento. É aquele ditado: “tudo, não terás“. E pior: com pensamentos assim, que rejeitam uma vitória desse porte no necessário e bem-vindo terreno das representatividades, o que vamos ganhar de retorno é “só” um período de vacas magras. Então os ávidos por uma impossível “totalidade de representação” terão conseguido algo: fazer com que todos nós amarguemos uma nova Madonna da vida interpretando uma Evita Perón. Porque isso os donos do dinheiro já sabem que dará lucro. Em paralelo, bolhas de ativistas gastam energia psíquica e teórica minando e inutilizando um baita esforço de colocar um recorte da cultura latina na tela, antropologicamente irados porque a cor dos latinos nos papéis principais “não era tal e qual a totalidade de cores entre os latinos que moram naquele bairro“. Pois é. Parabéns aos envolvidos.

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