O historiador materialista sabe disso. […] Os tesouros que ele contempla têm uma origem que ele não pode contemplar sem horror. Não há nenhum documento de cultura que não o seja, ao mesmo tempo, de barbárie. E assim como ele não pode ser separado da barbárie, também não pode ser separado do processo de transmissão: este processo nunca ocorre sem que se misture com ela. […] Pois o que hoje é considerado cultura participa, em larga medida, de uma tradição de poder e violência. É por isso que ele a resgata — não com entusiasmo, mas com lucidez.
Walter Benjamin, em Magia e Técnica, Arte e Política
Meses atrás me deparei com uma daquelas manchetes prontas para provocar polêmica: Stellan Skarsgård declarou, em entrevista, que Ingmar Bergman foi “a única pessoa que conheci que chorou quando Hitler morreu”. Uma fala dura, anacrônica, vinda com atraso. Hitler morreu em 1945. Bergman, em 2007. E esse episódio já estava registrado há décadas, pelo próprio cineasta, em Lanterna Mágica (1987), sua autobiografia. Li a manchete, li a entrevista, vi algumas reações histéricas pedindo a destruição da obra do cineasta e… senti um enorme cansaço. Um cansaço de quem já viu essa engrenagem girar inúmeras vezes.
Bergman não era inocente, e eu nem vou me dar o trabalho de contextualizar o poder dos fascismos sobre os jovens na Europa durante os anos 1920 e 1930. É só vocês olharem para a juventude de hoje. É condenável. É real. Mas nunca foi novidade. E, sobretudo, não é razão para varrer do mapa a obra de um dos maiores arquitetos da linguagem cinematográfica. Ou é?
Aí reaparece, em loop, a discussão sobre “separar a arte do artista”. Essa murrinha volta a cada escândalo, mas nunca amadurece. Gira que nem barata tonta. Tornou-se um ritual performativo, mais preocupado em sinalizar virtude do que em pensar com profundidade sobre o caso em questão, porque há quem ache que apagar o artista redime o espectador. Como se o ato de desautorizar obras de arte extinguisse o legado e fizesse dos canceladores uns santos. Eu conto ou vocês contam?
A realidade é outra. Nela, a arte nasce das infâmias, do caos, da miséria, das referências sociais e políticas, das experiências… não da santidade ou da pureza isolada. Nasce de mentes contraditórias, frágeis, muitas vezes erradas e totalmente reprováveis. O talento, assim como o horror, também é humano. O que devemos fazer é confrontar o problema honestamente e conviver com o desconforto! Ou vamos fingir que todo artista é gente boa, em todos os lugares e em todos os tempos da história humana?
Mas tem gente criando a sua própria farsa: um cadafalso onde os deslizes dos seus ídolos ganham atenuantes poéticos, enquanto os pecados dos outros viram alvos de execração sumária. Uma contabilidade moral flexível, onde “crimezinho” e “crimezão” são definidos conforme a simpatia pessoal do cancelador e sua planilha afetiva para justificar incoerências alheias. Sim, porque se tem alguém que gosta de fazer ginástica mental pra defender gente escrota de estimação é cancelador que vive pedindo a destruição da obra de artista escroto que ele não gosta.
Bergman foi um gênio. E também foi um imbecil deslumbrado pelo nazismo, até os seus 25 anos. Essas duas verdades coexistem. E negar uma em nome da outra é desonesto com a História, com o cinema e com nós mesmos. Para mim, ele continua sendo um dos maiores cineastas de todos os tempos. Definitivamente, um dos meus favoritos. Porque eu sei que não há pureza na arte. E também sei que um legado artístico exige muito mais do que um caminho ideológico ou uma biografia podre para ser considerado.
