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Plano Polêmico #42 | Em Defesa do Final de Lost

por Iann Jeliel
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  • CONTÉM SPOILERS DE TODAS AS TEMPORADAS! Leia, aqui, as críticas de todo nosso material do Universo Lost.

Se você pulou de paraquedas do Oceanic 815 e se deparou com este texto, saiba que ele não é exatamente democrático. “Como assim não é democrático?”, bem, digamos que não é necessário ter lido todos os seis textos das temporadas anteriores que complementam tudo aqui falado, mas você só tem o direito de comentar as mesmas afirmações referentes ao rótulo que este final tem – como “Ah, mas não faz o menor sentido”, “Final sem pé nem cabeça”, “Tava todo mundo morto”, “Um dos piores finais de série de todos os tempos” – se leu todas as 30 mil palavras utilizadas para analisar todo o trajeto até aqui.

Porque, sim, eu escrevi tudo isso, em seis dos maiores textos da história do Plano Crítico, e não foi para marmanjo que viu a série só na época, com outra mentalidade – ou nem isso, só assistiu ao final direto para compactuar com essa distopia mental de que o final é ruim -, comentar algo genérico e automatizado bem naquela linha do ditado “uma mentira quando contada muitas vezes se torna verdade”. NÃO! Eu, com toda minha prepotência de crítico, venho aqui provar a “verdade”, o quanto este final está à frente de seu tempo e é uma das melhores coisas que já aconteceu na história da TV. E não! Isso não é um exagero, hipérbole ou ironia. Será um fato histórico daqui a algum tempo.

“Ah, mas quer dizer então que eu preciso aceitar a partir de agora que o final de Lost é bom? Eu sou obrigado a gostar do final agora?” Não, claro que não. O que promovo com este texto e com todo o Especial de Lost não é uma verdade a ser absoluta da mesma forma que essa suposta verdade de que o final é ruim surgiu. São apenas argumentos para dar o gatilho de oportunidade a uma segunda chance, essa sim, a meu ver, necessária para aproveitar Lost como um todo, até mesmo para argumentar negativamente sobre ela. Porque eu acho bem possível desqualificar esse final, como qualquer coisa na arte cinematográfica, televisiva. Toda unanimidade é burra, não é mesmo? O grande problema – além da burra unanimidade incutida pelo rótulo pejorativo do final – se dá nas argumentações pobres e nos motivos que fizeram esse final ganhar tal rótulo.

Então, para o bem ou para o mal, é NECESSÁRIO desconstrui-los REVENDO A SÉRIE, no meu caso, sob uma óptica positiva, mas também – por que não – sob uma óptica negativa, só que inteligente, que respeite a série e seja condizente com o que ela construiu, algo distante do que ocorre. Por isso que reforço: no mínimo, leia os textos anteriores. Eles contêm um detalhamento importante de todas as configurações de linguagem que a série adotou e foi se adaptando ao longo do tempo, além de boa parte das explicações dos “mistérios não resolvidos”, antes que você, marmanjo, fale algo do tipo. Mas o ideal, se possível, é que reveja a série juntamente com a leitura, porque nessa longa missão, iniciada há seis meses, tomei bastante cuidado em ser didático sobre cada etapa. Assumo daqui para frente uma linguagem considerando que leu, mas caso não tenha lido, ainda é possível captar todos os argumentos que justificam a magnitude deste final.
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A Fantasia Sempre Presente

“Isso não importa. Ele destruindo a ilha. Você destruindo-o. Não importa.”

“Vocês me desceram até aquela luz e eu irei para outro lugar. Um lugar onde podemos ficar com aqueles que amamos e não temos nem que pensar nessa maldita ilha novamente.”

“E sabe o que é melhor, Jack? Você está nesse lugar. Sentamos lado a lado no voo da Oceanic 815. Ele nunca caiu. Nós conversamos, você parecia feliz. Talvez eu possa achar um meio para te levar para lá também.” – Desmond Hume

 

“Desmond. Eu já tentei isso uma vez. Não há atalhos. O que aconteceu, aconteceu. Acredite em mim. TUDO ISSO IMPORTA.” – Jack Shepard

“Ah, mas… Então Lost só funciona se você assistir duas vezes? Toda série e filme precisa funcionar na primeira assistida, não?” Sim, e Lost funciona e é maravilhosa numa primeira assistida, ou vai dizer que não? Quem não ficou arrepiado em vários momentos com os cliffhangers da série? Quem não se emocionou com a dramática dos personagens? Quem não fez questão de assistir até o final para saber o que iria acontecer? Diferente de Game of Thrones, por exemplo, que possui um rótulo parecido (mas esse com razão), Lost em nenhum momento soou desinteressante de um modo geral. Cansativa? Talvez, para aqueles com preguiça do desafio que a série propunha aos espectadores. Mas eu duvido MUITO de que mesmo os citados marmanjos teorizadores durante algum momento ficaram indiferentes ao que estava acontecendo.

A título da comparação, diferentemente de Lost que fazia de tudo para promover ambiguidade durante as duas últimas temporadas, GOT fez justamente o oposto ao tentar confirmar todas as teorias possíveis para agradar os fãs teorizadores, e assim desagradou aos que se prenderam à série pelos seus fatores subversivos. E como se não bastasse, nem assumir esses clichês e teorias os roteiristas fizeram, para tentar ganhar com alguma surpresa que acabou só ficando incoerente com o resultado de toda a construção – Daenerys vilã foi o fim da picada. Aquele final desagrada todo mundo porque tentou agradar todo mundo, sem coragem de assumir riscos, fechando-se antes do tempo e de forma insossa ou sob qualquer emoção.

Lost não foi covarde como Game of Thrones ao ter entregado as respostas porque não sabia como respondê-las ou por não ter subvertido tudo mais uma vez para entregar um final mais impactante de explodir a cabeça, ela foi corajosa demais ao sustentar seus princípios até o fim com honestidade e coerência com tudo que havia construído como seu legado, sem ceder à vontade de terceiros. Esses princípios que valorizariam o entorno do universo e os personagens até o fim precisam ser considerados. Mesmo com expectativas errôneas – esperando mistérios que nunca prometeram ser resolvidos sob uma óptica racional -, qualquer um chega ao final de Lost com as emoções à flor da pele por não saber o que esperar a seguir, como era a sensação ao final de qualquer outro episódio na série. E se chegou até aqui, é porque o fenômeno em algum momento foi captado intimamente, faltou ser valorizado por quem o captou, mas não pelo final.

Pense bem, quando você descobriu que John Locke lá em Walkabout, quarto episódio da primeira temporada, saiu andando pela ilha mesmo sendo paraplégico, você esperava alguma explicação racional para aquilo? Esse mesmo exemplo pode ser usado em qualquer outro fatídico mistério implementado, mesmo aqueles que flertavam com a possibilidade científica, que era baseada em metodologias mitológicas próprias, que mais à frente tematicamente foram direcionadas conscientemente ao espiritual, um lado escolhido em uma disputa que sempre esteve presente na série: Fé vs Ciência. Se a fé ganhou, é porque Lost nunca foi uma ficção científica, e sim uma fantasia, e isso já estava implementado, no mínimo, desde o episódio mencionado. Mas nem considerando esse argumento da falta de explicações racionais funciona, porque a ficção científica em essência está aí para usar os preceitos tecnológicos e racionais para destrinchar questões, no fim, humanistas.

Lost tem sim sua base nesse contexto, só que de forma ainda mais completa, utiliza o sobrenatural em conjunto para fortificar o debate dramatúrgico. Uma dramaturgia fantástica e, assim como Star Wars, bem nerd, que ajudou a consolidá-la como fenômeno popular, mas também dramaticamente potente e melancólica como Solaris do Tarkovski. Essas três obras, vendidas em um gênero por preceitos científicos, em seus finais são diretamente envolvidas pela fé. O que seria a Força em Star Wars? Olha o que aconteceu quando vieram com o papo de Midi-chlorians. O que seriam as alucinações dos astronautas na nave em Solaris? Qual seria a relação da ilha com o “mundo paralelo” daqueles que nunca caíram no avião?
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NÃO! NÃO ESTAVAM TODOS MORTOS!

“A luz. Eu a desliguei. Não funcionou. Pensei que iria sair desse lugar, mas ainda estou aqui. Você tinha razão, Jack.” – Desmond Hume

“Bem, há uma primeira vez para tudo.” – Jack Shepard

Com o final da quinta temporada, os flashsideaways continham uma imensa ambiguidade entre a possibilidade de os eventos da ilha realmente terem sido revertidos ao efeito da bomba, ou não e aquilo tudo não passar de uma metáfora sobre. Uma ambiguidade sustentada até o último capítulo, para dar emoção ao desfecho, que, no entanto, mantém se plenamente emocionante mesmo com essa informação, porque o que estava em jogo não era isso, pelo menos não mais. Se as pistas dadas até aqui na construção dos personagens no sideaways, com as inversões, fatos que não aconteceriam numa realidade alternativa se não tivesse uma ação interligada do destino, ou o arco de Daniel da quinta temporada não foram suficientes para esclarecer ou a menos direcionar o esclarecimento dessa ambiguidade, o próprio último episódio a tira ela de uma vez por todas com o Desmond e Juliet (nas cenas que separei), mesmo que não a abandone por completo em quesito simbólico, porque existe aqui, a margem para interpretação também.

Dá para fazer a leitura somente como metafórica, assim como dá para fazer a leitura mitológica interligando pontos desenhados durante toda a série. Eu prefiro juntar as duas, porque a série trabalha sobre uma grande metáfora que é construída sob as reges do rico universo que criou. O que não dá é ter a pachorra inescrupulosa de afirmar algo que não aconteceu, como o que muita gente espalha como verdade com a estúpida frase “todos estavam mortos desde o início”. Acreditar nisso é o cúmulo da preguiça intelectual, porque está longe de ser culpa de uma má articulação ou falta de clareza da série. O último episódio inclusive tem tanta ciência dessa possível interpretação burra que faz questão de afirmar ao final de que não se trata disso, ou seja, quem entendeu o contrário, entendeu assim porque quis e teve preguiça de assimilar o mais complexo e ir pelo caminho mais fácil inventando algo pra si, porque só assim, né? Já que Lost nunca foi de corresponder à contaminação de teorização de seu público, ela o desafiava a ir além do que era consumido na TV aberta.

“Ah, mas e aquelas cenas que apareceram nos créditos, com o avião caído em pedaços? Não dá a entender que todos estavam mortos desde o início?” Não. Usar isso como argumento chega a ser mais burro ainda. Quantos créditos de series finale não passam pelos cenários icônicos da história? Tipo Friends, cujos créditos finais focam na porta do apartamento de Monica ao invés dos tradicionais créditos. Você sai perguntando ao fim de Friends se todos estavam mortos desde o início ou aquele apartamento nunca existiu? Lógico que não. Precisava daqueles créditos num contexto de paranoia do pessoal? Não precisava. Mas quem de uma produção que sempre nivelou a inteligência de seu público por cima iria desconfiar que a maioria pensaria em algo tão burro quanto isso? Pois é. Infelizmente, o mainstream ainda não estava mesmo pronto para receber Lost.
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As Diferentes Leituras

“Sentiu isso?” – James “Sawyer” Ford

“Deveríamos tomar um café.” – Juliet Burke

“Eu adoraria, mas a máquina ficou com a nota. Eu tinha apenas uma.” – James “Sawyer” Ford

“Podemos dividir a conta.” – Juliet Burke

Cena do primeiro episódio da sexta temporada / cena do último.
Leitura Metafórica

“Perdidos” nunca foram eles na ilha, e sim em suas vidas, todos os personagens despedaçados assim como um avião pós-queda (literalmente), e a partir das relações de amizade, afeto, carinho, confiança e amor superariam seus demônios internos. Os flashsideaways, metaforicamente, desde o início queriam mostrar que mesmo que o avião nunca caísse, a força maior do destino continuaria ligando-os de uma alguma forma. Tal forma, extremamente semelhante aos eventos da ilha, porque no mundo físico, foi aquele momento que possibilitou que suas vidas fossem transformadas, através de uma união redentora, que no plano espiritual com planos maiores, precisava ser unida novamente.

O último episódio vai nada mais que convergir todas essas principais uniões feitas durante a série, “despertando” os personagens a compreenderem e valorizarem o que foi construído nessas relações, reconectando-os por meio de alguma recompensa não concluída que recompensaria não só eles próprios como nós, público, que os acompanhamos desde o início e nos relacionamos quase que intimamente com cada um. As expressões de cada reencontro feito nesse último episódio são a máxima da verdadeira valorização do próprio legado. Até mesmo aqueles que não foram personagens tão bem construídos até esse momento, como Shannon e Sayid, são sentidos, porque é uma condução tão singela e de cargas emocionais tão bem orquestradas que seu reencontro ganha os mesmos contornos de completude que os demais.

E o que falar então desses demais? Desde Jin e Sun, finalmente tendo a oportunidade de ver seu filho juntos, passando por Kate e Claire revivendo o nascimento de Aaron com Charlie (esse é de chorar até morrer); Sawyer e Juliet tendo uma nova chance de se amarem – revelando o contexto daquela frase de Juliet “Funcionou” do primeiro episódio; Ben finalmente dizendo para Locke de seu arrependimento, que Locke sempre foi especial e que ele tinha inveja disso, e Locke de forma muito bonita o perdoando. Mas de todos, o reencontro mais simbólico possivelmente foi o de Jack e Locke após a cirurgia, em contraste à cena da ilha em que Jack finalmente admite explicitamente que Locke tinha razão. Toda a construção dos flashsideaways unindo os dois de forma complementadora ressignifica a rivalidade da série com relação à fé e à ciência, tornando-a escolha de um dos lados distantes de qualquer maniqueísmo, afinal, cada etapa do conflito, seja um ou outro na frente, foi necessária para que o todo pudesse “seguir em frente”.

IMPORTANTE: Daniel e Charlotte também se reencontram, mas nenhum desperta porque eles não faziam parte do grupo, emocionalmente falando, embora fique claro que aquele gatilho, futuramente, possa unir os dois. Aí dependeria de Eloise, despertada, que não queria que o filho despertasse para ele não sofrer com a memória do que ela fez com ele.

Leitura Mitológica

Falei a maioria porque existiram aqueles que não foram parar na igreja, e há motivos dentro da concretude da mitologia justificando o porquê. Em Everybory Loves Hugo, Michael aparece para Hurley explicando sobre o mistério dos sussurros na ilha, sendo vozes daqueles que morreram e ficaram presos na ilha, sem ter como “seguir em frente” – no original dito por Michael: Moving On. Mesma frase dita por Christian na última cena da igreja. Se aliarmos essa explicação aos desdobramentos ocorridos no sideaway podemos intuir que aquela realidade espiritual é uma realidade espiritual concreta dentro do universo de Lost. Aqueles que não ficaram presos na ilha, passariam por esse “purgatório” que nada mais é que um local onde todos aqueles que se ajudaram pudessem se reunir novamente pelo destino para irem a um lugar melhor. Veja bem, coloco entre aspas porque sua funcionalidade não é entrelaçada diretamente por nenhuma doutrina específica, o que só me leva mais ainda a crer que de fato é um local concreto na mitologia, não somente uma metáfora.

Um local que está acima da ilha (tanto que na realidade alternativa, a ilha está debaixo d’água, o que, reforçando, se fosse um paradoxo, não deveria acontecer), sendo a ilha o meio entre esse local e o “inferno” que Richard e Jacob mencionariam, aí sim, de maneira metafórica àquele imenso bolsão de energia eletromagnética no subterrâneo da ilha. Mas por que esse “inferno” é só metafórico? É só metafórico para Jacob e consequentemente para Richard. Considerando a explicação da rolha em Ab Abeterno, nenhum dos dois, ou mesmo nós no restante da série testemunhamos concretamente a realidade lá de baixo para afirmarmos algo do gênero, mas sabemos que existe a energia eletromagnética e sabemos de seu poder – vibe o que aconteceu com fumaça -, então consideramos como esse tal “inferno”, ou “a maldade” segundo Jacob, porque quando descontrolada, traz consequências de destruições imprevisíveis, acarretando até mesmo no fim do mundo, como era dito, quando não apertavam o botão da escotilha.

E aí vamos à funcionalidade do mecanismo final, que mais uma vez parece “jogado” na trama, mas que tem fundamento no método que a série sempre usou de amarrar pontas de diferentes elementos distribuídos ao longo da história. Mencionei no texto da sexta temporada sobre as origens de alguns desses elementos surgidos no final – como o templo, o farol e a caverna – estarem ligados à civilização egípcia, algo colocado desde a aparição da estátua na segunda temporada. No último episódio, o diálogo entre Locke e Jack busca refrescar aquele momento como semelhante à escotilha, e não por acaso. É a série buscando essa associação direta porque se trata de um mesmo mecanismo parecido, construído pelos egípcios, com o mesmo intuito da escotilha da Dharma, descarregar esporadicamente o controle da energia descoberta e acidentalmente descontrolada por eles em seu tempo.

Tempos esses bem longínquos de Jacob. Chuto que o primeiro de seu precursor foi quem salvou os egípcios da besteira que fizeram ao perfurar a ilha, ajudando-os a fazer aquele mecanismo que ficou sob sua proteção. Em troca, por devoção, os egípcios criariam a estátua que se tornaria seu lar e o lar de seus sucessores no futuro, além de tumbas com canais que levariam água para reabastecer a descarga. Mais tarde esse sistema de córregos seria usado para defender os templos contra a fumaça. Como são fatos de cronologias diferentes, fica em aberto o processo de transição entre esses acontecimentos. Fato é que a noção de destino seguiu atuando, colocando Desmond como controlador da escotilha e constante na série pela última vez, desativando o mecanismo – com a motivação de achar que iria novamente para o universo sideaway, o que acabou não se concretizando porque o gatilho ao “despertar” já estava dado – e possibilitando, enfim, que a fumaça pudesse ser derrotada.

Algo também previsto na mitologia, se as propriedades especiais da fumaça vieram daquele bolsão, no seu “desativar”, elas não funcionariam mais, e Locke-Fumaça se tornaria humano novamente. O legal é que Jack descobre isso numa jogada de fé honesta, que dá certo porque pela primeira vez não é o personagem olhando para o próprio umbigo como foi The Incident. Ele realmente acredita que aquilo o fará vencer Locke-Fumaça, assim como Locke também acreditava que aquilo iria somente destruir a ilha e finalmente o libertar. No fim, ambos estavam certos e o cenário foi perfeitamente montado para a batalha final..

 

Final de Série GRANDE!

“Quero que saiba… Jack. Que morreu por nada!”John “Fumaça” Locke

Momento decisivo é com Lost mesmo, em todas as temporadas é possível destacar as season finales pelo caráter grandioso dentro da própria amplitude. Talvez, os acontecimentos crus nunca foram exatamente para tanto alarde, mas diante de uma construção cirúrgica de arcos, personagens e gradação de coisas em jogo, toda a convergência de acontecimentos ganhava uma escala maior, simbólica e emocionalmente mais carregada, geralmente conduzidas por um Jack Bender que não tinha medo de sujar as mãos. The End é o ápice dessa grandiloquência, sendo a cena do penhasco em especial um momento para ficar na história. O homem da fé e o homem da ciência, enfim se enfrentando, na chuva, na destruição, NA MÃO!

Não tinha como ter algo mais épico e honesto que isso para um final de Lost. Mesmo que na prática não fosse o Locke ali e não existisse mais o homem da ciência em Jack, a permanência da fumaça sobre aquela face também estava lá para proporcionar simbólica e visualmente um confronto final GRANDE e inesquecível. Um confronto com resoluções plantadas desde o início da temporada (como o corte no pescoço de Jack, as balas de Kate) e de vitória abraçada em alta dose de adrenalina. O protagonista apanhando, beijando sua amada na chuva e passando o manto para o verdadeiro líder em sacríficio, é o espetáculo televisivo que aguardamos!

Há quem reclame da forma tosca como Jack coloca Hurley como o novo Jacob através daquela garrafa d’água da Dharma e tal… Mas, sinceramente, acho essa solução fantástica, que não só reforça essa mística da fé sobre a série como não deixa de ser supericônico diante do novo personagem que o assume. Hurley sempre teve esse pé na comédia, e o fato de virar um grande líder por essa situação meio absurda é supercondizente com o personagem (detalhe sensacional quando ele fica esperando os poderes aparecerem, é muito bom). Aí você pode reclamar da escolha, mas essa já estava implementada, no mínimo, desde a quarta temporada, quando essa relação do personagem com o sobrenatural começa a ser explorada, e cada conversa sua com os mortos o deixa mais autoconfiante a ponto de ir se tornando um terceiro elemento de liderança meio involuntário, aparentemente, mas que estava previsto desde a existência de sua habilidade e pelo seu humanismo.

É só lembrar que em Across the Sea o homem de preto era o verdadeiro destinado a ser o substituto, e uma de suas características era falar com os mortos, assim como Hurley, e assim como Walt, que futuramente – no episódio epílogo da série, que você pode assistir logo abaixo – tornar-se-ia o sucessor de Hurley como o novo Jacob. “Mas e quanto ao Miles?” Ele não exatamente falava com os mortos em comunicação recíproca, ele os entendia somente. Não é como Hurley que trocava diálogos com os mortos, incluindo aí o Jacob do início da temporada, depois de morto, por isso só ele o via. “Mas como há aquela cena em que Jack, Kate e Sawyer falam com Jacob também?” É um momento em que Jacob quebra um pouco suas regras, inclinando Jack a ser o escolhido provisório, o que naturalmente levaria Jack à morte após cumprir essa provisoriedade feita sob medida para acabar com a ameaça da fumaça. Com essa jogada, Jacob finalmente daria a Ben a oportunidade que sempre quis, não como um líder, mas já suficiente como um segundo nome para ajudar Hurley a criar novas regras de defesa da ilha, incluindo aí levar Desmond desacordado para casa depois de ter cumprido seu papel, ou ir até os membros remanescentes da Dharma e falar que eles não precisavam mais mandar suprimentos para a ilha.

“Do que está falando?” Lembram daquelas comidas que caíam na ilha de vez em quando? Eram outros membros da Dharma ainda mandando suprimentos fora da ilha para a iniciativa, mesmo ela tendo acabado há tanto tempo. O epílogo explica isso, dentre outras pontas que não ficaram tão claras lá atrás, sendo essa a única a que a série realmente nunca deu tantas ferramentas para intuirmos sozinhos. Enfim, o mais legal é que nem tudo é entregue ou mesmo destinado somente a explicar coisas, o mais legal desse curta de 11 minutos é saborear o trabalho em equipe de Hurley e Ben. Aquela cena do final em que os dois trocam palavras antes da igreja, com Ben reconhecendo seu lugar, é simplesmente o fechamento perfeito de redenção de um grande vilão.
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See You In Another Life, Brother!

“Você é real?” – Jack Shepard

“Sim, sou real. Você é real. Tudo que aconteceu com você é real. Todas aquelas pessoas na igreja, são reais também.” – Christian Shepard

“Estão todas mortas?” – Jack Shepard

“Todos morrem um dia, filho. Alguns deles antes de você, alguns muito depois de você.” – Christian Shepard

Mas por que todos estão aqui agora? – Jack Shepard

A parte mais importante da sua vida foi o tempo que passou com essas pessoas. É por isso que todos vocês estão aqui. – Christian Shepard

Em Namaste, lá na quinta temporada, o avião Ajira pousava na ilha da estação Hydra porque ele seria usado novamente. Os personagens que haviam caído naquela ilha, despedaçados como o avião, precisavam ao fim sair de lá consertados, bem como o avião, não o mesmo, mas um novo. De novo, apenas seis, para fechar coerentemente o ciclo dividido na terceira temporada. O Ajira Six se forma com Kate, Sawyer, Claire, Lapidus, Richard e Miles. Cada um com uma nova chance que precisava ser dada, antes, na vida real, seja Claire indo ser a mãe que precisava, Richard podendo finalmente viver uma vida longe de ordens maiores (com cabelo branco e tudo), Kate e Sawyer, sobreviventes, mas que não precisariam mais fugir de seus passados, ou Lapidus finalmente sendo o piloto que deveria ter sido desde o início. A mágica desse momento, entrelaçada a Jack engatinhando para sua morte sobre os bambuzais onde tudo começou, enquanto eles decolavam e víamos na igreja todos reunidos, traz uma sensação indescritível.

No cinema, há uma parcela muito pequena de grandes filmes que nos trazem uma sensação parecida, um sentimento de transcendência sobre o poder da imagem e som em conjunto que nos levam a viajar para outras dimensões de nossos sentimentos. Tratando-se de séries, é mais raro ainda. Até hoje, afirmo com convicção que só Lost utilizou o poder da fragmentação narrativa sobre vários e vários capítulos com a intenção de dimensionar sua narrativa em uma convergência sobrenatural de envolvimento imagético, e não apenas um grande fechamento de história. Reassistindo à série com a intenção de fazer os textos, pegando cada detalhe e ainda mais aberto ao que sua forma tinha a proporcionar, rever essa sequência só me confirmou o quanto Lost e esse final estão à frente de qualquer explicação racional, até mesmo criticamente falando como obra artística.

E se discutimos a TV cada vez mais próxima do cinema, logo, cada vez mais próxima de um movimento artístico, Lost não pode de forma alguma ser taxado da forma que é, muito menos pelo seu final que simplesmente entregou tudo que ela sempre foi, uma série cinematográfica, mas ainda uma série de TV, episódica, não totalmente planejada, mas plenamente segura do que queria fazer e fez através de um método conciso, corajosamente dizendo ao seu público “Don’t tell me what I can’t do” e o desafiando a ser um espectador mais inteligente, porque a TV poderia ser mais inteligente ainda sendo popular, só que cada vez mais artística. Este é o legado que a série merece, não só por ser uma das pioneiras do movimento, mas por até hoje e sempre ser uma das melhores!

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E aí, caros marmanjos, convencidos pelo menos a dar uma segunda chance? Ou conseguem ter contra-argumentos não automáticos? Agradeço profundamente a todos que reservaram um tempo para ler este TCC sobre Lost (todos os textos), e lembrem-se: a linguagem adotada aqui pode parecer arrogante pelo caráter “polêmico” do quadro, mas em nenhuma hipótese reflete uma verdade absoluta, afinal, o que seria da arte se todo mundo tivesse a mesma visão, não é mesmo? Comentem aí suas opiniões sobre o final de Lost ou falem quando darão uma nova chance a esta obra-prima!

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