Crítica | Episodes – 1ª Temporada

estrelas 3,5

Os criadores e roteiristas da série Episodes, David Crane (Friends e Joey) e Jeffrey Klarik (Dream On e The Class) já são conhecidos do público e já trabalharam juntos em outras ocasiões. A comédia inteligente e espirituosa marca a obra televisiva dos dois produtores, e a primeira temporada de Episodes (2011) mostra bem esse lado do humor irônico e satírico tão presente nos programas assinados por eles. Episodes é uma coprodução do Reino Unido e dos Estados Unidos, e marca a volta de Matt LeBlanc para a TV depois de um bom tempo afastado (desde o final da série Joey, em 2006). A trama do show gira em torno do casal Sean e Beverly, roteiristas e criadores de uma sitcom britânica chamada Lyman’s Boys. Em pelo menos duas temporadas seguidas eles se mostram os queridinhos do BAFTA (o Oscar Britânico) de Melhor Série, e esse sucesso atrai a atenção de um Executivo de Hollywood, que os convence a ir para Los Angeles produzir a versão americana da série. Além de uma sequência de obstáculos culturais, Sean e Beverly terão que lidar com a interferência do setor executivo no programa, modificando toda a ideia original, diminuindo o valor da série e piorando o seu casamento.

Nos primeiros capítulos, a série nos delicia com uma ótima abordagem metalinguística e críticas à produção de episódios pilotos para a TV. Não é segredo para ninguém que todos os executivos possuem um poder imenso sobre as séries, fazendo com que roteiros e ideias originais sejam jogados fora em prol do aplauso do público comum e de uma audiência satisfatória. A convivência entre um estúdio que quer ganhar dinheiro e artistas que pretendem fazer um produto de qualidade quase sempre é caótica e destrutiva, algo que o início de Episodes nos mostra muito bem.

Na reta final da temporada, a série perde o seu caráter metalinguístico para o pior e mais clichê dos dramas familiares seriais: a briga de casal. Somos obrigados a ver cair por terra uma trama rica e inteligente como a criação de uma sitcom, a preparação e escolha de atores, as mudanças das personagens originais, o descaso do Produtor Executivo, a luta de Sean e Beverly com a equipe de produção, e a constante briga com os atores protagonistas, de onde se destaca o canastrão Matt LeBlanc, que interpreta ele mesmo na série; para nos depararmos com uma intriga farsesca típica das séries com menos cérebro. A linha de bastidores abre espaço para uma constante divergência de opinião entre marido e mulher. Episodes começa muito bem e termina mal.

O casal protagonista é interpretado por uma maravilhosa dupla de atores britânicos, Stephen Mangan e Tamsin Greig. A construção do casal apaixonado que trabalha com TV foge ao clichê do gênero e consegue uma força tão grande, que mesmo na fraqueza dos últimos episódios, jamais desaparece, embora cenas como a briga entre Mangan e LeBlanc formem o setor dos “momentos ridículos a serem desprezados”. O chamado “humor britânico”, muito bem escrito e contextualizado pelos roteiristas, tem na interpretação do casal londrino um alto nível de qualidade, e eles certamente são o destaque do elenco. Matt LeBlanc conseguiu levar, injustamente, o Globo de Ouro de Melhor Ator em Série de Comédia ou Musical pelo seu “auto-papel” na série. Para mim, o Joey, de Friends, duas vezes indicado ao mesmo prêmio, merecia muitíssimo mais. O elenco de apoio é bem caricato, mas consegue entreter, com exceção, talvez, de John Pankow, que interpreta o Produtor Executivo Merc Lapidus.

James Griffiths dirige os sete episódios da temporada, e faz um bom trabalho. Alternando de maneira satisfatória os ambientes internos e externos, passeando com a câmera pelo set e apostando numa planificação o mais plural possível, o diretor e o editor Rob Kitzmann conseguem passar uma ótima construção formal da série, com um bom ritmo e uma pitada de inovação. O tema musical de Mark Thomas é simplesmente apaixonante, e dá um ar de novidade ao produto.

Episodes peca pelo desvio do foco central no momento em que o espectador se acostuma e entende a trama metalinguística. O final da série desperta o mínimo possível de interesse, e este só existe pela conquista e identificação realizada logo no início. A história nos bastidores de um programa de TV termina por se transformar numa briga entre roteiristas que agora possuem um Piloto aprovado e sabe-se lá quantas temporadas pela frente. É certo, no entanto, que se o rumo da série na segunda temporada for o da trama familiar, não lhe restará muito tempo de vida. Produtos híbridos demais não agradam, e a mudança brusca de algo muitíssimo inteligente para um novelão mexicano com verniz cult não é uma boa isca para nenhum tipo de público. Paira no ar uma coleção de medos, e esperamos que nenhum deles se concretize na segunda temporada de Episodes.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.