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Crítica | Mad Men – 5ª Temporada

por Ritter Fan
707 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 5,0

ATENÇÃO: O texto a seguir contem inevitáveis spoilers das temporadas anteriores, mas não da quinta temporada. Boa leitura!

Depois de longuíssimos 17 meses de hiato gerado por discussões monetárias que poderiam afetar sua continuidade, Mad Men voltou às telinhas para sua quinta temporada em 25 de março de 2012.  O bom disso tudo é que a AMC já autorizou, também, mais duas temporadas.

Da última vez que vimos o genial e mulherengo publicitário Don Draper (Jon Hamm), ele havia se casado com sua bela secretária Megan (Jessica Paré) depois de uma temporada inteira deprimido com seu divórcio de Betty (January Jones). A ideia que fica é que ele vai dar a volta por cima e focar sua atenção na ainda frágil agência que montou com seus sócios, Sterling Cooper Draper Price (SCDP).

No entanto, o que vemos é um Don Draper completamente mudado, apaixonado mesmo pelo que talvez possa ser classificado como seu “novo brinquedinho”. Fica para a imaginação e para o excelente último minuto do último episódio, saber se seu casamento com Megan resistirá por muito tempo. Mas a verdade é que a paixão toda demonstrada pelo casal acaba afastando Don ainda mais do trabalho. Ele só pensa em viver nas nuvens com sua esposa e larga a agência de lado. Megan, por sua vez, apesar de manter-se trabalhando lá, como parte dos “criativos”, deseja, secretamente, seguir sua carreira de atriz.

Peggy Olsen (Elisabeth Moss) quer porque quer agradar Don e deslanchar em sua carreira. No entanto, ela não recebe, de seu chefe, o feedback que precisa e começa a ficar desanimada. Joan Harris (Christina Hendricks), por sua vez, tem problemas pessoais para enfrentar mas, como sempre, veste a camisa da agência a todo momento.

Pete Campbell (Vincent Kartheiser) solidifica-se como o grande rainmaker da agência, fazendo de tudo – mesmo – para conseguir clientes novos. Mas sua personalidade extremamente ambiciosa o coloca em rota de colisão com vários de seus sócios, especialmente Roger Sterling (John Slattery) e, em uma sensacional cena mais para frente na temporada, Lane Pryce (Jared Harris).  O próprio Roger, por sua vez, mantém seus hábitos boêmios e continua deixando a agência em terceiro plano. Para ele, whisky e mulheres vêm na frente.

Mais do que os dramas pessoais, o que chama mesmo a atenção na quinta temporada é a estrutura proposta pelo criador Matthew Weiner. As quatro temporadas anteriores tinham, pelo menos em linhas gerais, um tema central que era desenvolvido ao longo dos vários episódios com menos ou mais destaque. É a estrutura clássica de séries dessa natureza. No entanto, na nova temporada, a impressão que deu é que Weiner resolver sacrificar eventual temática una para focar em episódios soltos, cada um com seu tema.

No começo, devo confessar que achei estranho o desenrolar – ou melhor, a falta do desenrolar – de uma trama central, mas, a cada episódio novo, ficava mais evidente o brilhantismo da equipe de escritores, algo que já havia sido sobejamente demonstrado no material que veio antes. A estrutura de “um tema/um episódio” por vez permitiu um alto grau de flexibilidade aos roteiristas, que não precisavam ficar presos às amarras de uma “história principal”. É claro que estamos falando de Mad Men e, portanto, tudo que tornou a série o que ela é está lá, intacto. Há uma base central, mas ela é mais distante, menos invasiva ou dirigista.

Com isso, talvez mais do que nas demais temporadas, há uma profusão de episódios memoráveis. Os primeiros dois capítulos, lançados simultaneamente, deixam entrever as várias temáticas menores que, mais tarde, seriam desenvolvidas na série. A tensão entre Pete e Roger fica evidente logo de início, assim como o quanto Don e Megan se gostam. Mas também fica claro que Megan tem um estilo muito diferente de seu marido, conforme demonstra a já antológica cena em que ela, na festa surpresa de Don, dança e canta Zou Bisou Bisou.

O episódio quatro, Mystery Date, consegue ser eletrizante quando notamos que Don está sendo perseguido por alguém do seu passado. A sequência em que ele “lida” com o problema é de literalmente tirar o fôlego de tão bem editada e atuada por todos os envolvidos. Na trama paralela, vemos Joan tomar uma decisão que ecoaria mais para frente. Signal 30, o quinto episódio, trata da insegurança de Pete que, agora, mora no subúrbio de Nova Iorque e deseja, mais do que qualquer outra coisa, voltar para a cidade. A forma como ele e a esposa Trudy (Alison Brie) fazem uma festa, lembrando a festa surpresa de Don no primeiro episódio é de criar desconforto em qualquer um.

Seria possível falar de cada um dos magníficos episódios dessa atípica temporada mas os comentários ficariam extensos demais. No entanto, não há como deixar de comentar o que talvez seja o melhor capítulo de toda a série até agora: The Other Woman (o 11º). Pete consegue uma reunião para possivelmente trazer a conta da montadora de carros Jaguar, mas, para que sua agência tenha uma chance efetiva, algo eticamente condenável tem que acontecer. Falar mais é estragar a surpresa para quem não viu. Basta dizer que, nesse episódio, que conta com uma inteligentíssima edição, as câmeras focam nas duas estrelas femininas da série: Joan e Peggy. E o melhor é que não são histórias convergentes mas sim paralelas, cada uma com seu destino, mas tão bem escritas e atuadas que são de cair o queixo.

E o episódio seguinte, Commissions and Fees, o verdadeiro clímax da temporada, envolvendo o único tema recorrente desse ano, vê Lane Pryce (o incrível Jared Harris) na conclusão de uma saia justa em que se mete anteriormente. Há uma repetição de uma situação vista na primeira temporada em relação a Don que é de cortar o coração. O paralelismo dos roteiristas, com a capacidade de desencavar antigos tesouros da ainda jovem série, é realmente impressionante. E, como já virou praxe em Mad Men, a série acaba em uma espécie de denouément, com o episódio The Phantom, que consegue ao mesmo tempo amarrar os acontecimentos até aqui de maneira eficiente e abrir possibilidades muito intrigantes para o futuro.

Os fãs da série repararão que quase não mencionei Betty Draper. E há uma razão para isso. A atriz, January Jones, conseguiu desentender-se com a produção e seu papel foi reduzido ao mínimo possível. Ela está na temporada fisicamente em apenas dois ou três episódios, mas sua presença, por meio dos filhos do casal, é sentida fortemente. Para escapar da necessidade de mostrá-la, os roteiristas acharam uma saída, digamos, peculiar, envolvendo o uso de forte maquiagem na atriz. Não foi a melhor solução sob o aspecto visual já que as alterações físicas não convencem, mas a trama funciona bem, por ser orgânica ao desenvolvimento do personagem. Além disso, como o foco é mesmo a vida de Don, a ausência de Betty da estória é facilmente tolerada.

Mad Men, apesar da quarta temporada um pouco mais fraca (mas só um pouco), retorna triunfante no quinto ano, definitivamente solidificando-se como uma das melhores séries dramáticas da atualidade, realmente obrigatória para qualquer um que goste de roteiros sólidos e atuações inesquecíveis. 

Mad Men – 5ª Temporada (Estados Unidos, 2012)
Criador:
Matthew Weiner
Direção: vários
Roteiro: vários
Elenco: Jon Hamm, Elisabeth Moss, Vincent Kartheiser, January Jones, Christina Hendricks, Aaron Staton, Rich Sommer, John Slattery, Kiernan Shipka, Robert Morse, Michael Gladis, Jared Harris, Alison Brie, Christopher Stanley, Jessica Paré, Peyton List
Duração: 611 min. (13 episódios)

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18 comentários

Comediante 10 de junho de 2020 - 15:50

Não sei se é porque não aceitei o fato ou simplesmente porque não gostei mesmo, porém a saída “triunfal” de Lane não me desceu bem… Não que eu ache que o personagem jamais faria algo assim (apesar que em pesadelos eu vejo Roger fazendo algo assim) já que a saída em si é -fatalmente- bem plausível, mas como isso ocorreu… me estranha até agora. Eu sei que o próprio Don disse a Megan que o motivo não importa, mesmo assim eu acho que o Mr. Pryce no ápice do desespero (algo que é até difícil de distinguir, pois ele parece sempre estar lá) não roubaria dinheiro da agência ou pior, falsificar a assinatura do Don. Ah e mais pior que pior anterior, após ser desmascarado por Don ter a cara de pau de ficar negando mesmo sabendo que a casa caiu.. Não que isso seja um problema, afinal acho essa temporada muito boa, entretanto a ausência dele será muito sentida com esse gosto amargo.

Agora acho que eu tenho um certo problema.. Não consigo ter qualquer empatia pelo Pete e também não gosto muito da Peggy. Inclusive o Pete me lembra um personagem de uma série que você gostou muito.. uma tal de Lost. Enfim, ele me lembra o Ben Linus, um cara que poderia ter um spin off só dele sofrendo por 15 temporadas, mas nada faria eu gostar dele ou ter o mínimo de compaixão, apenas me deliciaria com seu sofrimento… Com a Peggy não é tanto assim, porém vejo que a maioria dos fãs gostam demais dela, talvez mais que o próprio Don o que além de ser heresia, deveria ser crime. Talvez isso mude com as próximas temporadas, mas acho difícil isso acontecer repentinamente em duas temporadas.

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planocritico 10 de junho de 2020 - 19:04

Sobre o Lane, seu relato é interessante e ele me leva a crer que você não gostou, pois aceitar acho que aceitou, pois sua racionalização para os eventos me pareceu precisa e bem estruturada. É aquilo: gostar vai de momento e carrega um momento de fatores inexplicáveis embutidos e faz absoluta parte do processo.

Agora, sobre o Pete, eu estou com você. Nunca tive empatia por ele. Mesmo com ele “melhorando” nas temporadas posteriores, continuei meio de implicância com o sujeito, talvez pela origem dele e seu tratamento de Peggy lá atrás.

Por outro lado, eu gosto muito da Peggy. Ela é mais um arquétipo do que um personagem propriamente dito, representando a emancipação feminina. Apesar de ter detestado a forma como a gravidez dela foi revelada na 1ª temporada, depois que esse soluço do roteiro desaparece, acho seu desenvolvimento incrível. Mas não gosto dela mais que o Don não.

Abs,
Ritter.

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Gisella 6 de maio de 2019 - 10:38

Olá, estou assistindo a série só agora, e acabei de terminar a 5ª temporada! Só uma observação, a January Jones estava grávida de 8 meses quando as filmagens da 5ª temp. começaram, por isso ela apareceu pouco e “gordinha”. Adoro as suas críticas, abs

Responder
planocritico 6 de maio de 2019 - 18:43

Sim, ela estava grávida. Mas o que não gostei foi que ela estava com uma maquiagem corporal estranha que a tornou não muito naturalmente gordinha.

E obrigado pelo elogio!

Abs,
Ritter.

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José Barbosa 12 de novembro de 2017 - 22:35

Estou vendo MUITO após a série já ter acabado, mas a despeito de ter um temperamento ruim, não vi notícias de briga da January Jones com a produção. Creio que a menor aparição de Betty nesta temporada tenha a ver com o fato de ficar grávida. Mas, se brigou, explicaria porque no caso dela o figurino ficou péssimo, ridículo, contrastando com a típica qualidade da série.

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planocritico 13 de novembro de 2017 - 21:08

Ficou realmente bem ruim. Sorte que ela apareceu pouco!

Abs,
Ritter.

Responder
Gabriel Pereira 25 de julho de 2016 - 22:55

E aí Ritter ? Crítica maravilhosa, só um detalhe o ep The Other Woman é o 10ª e não o 11ª. Sobre essa temporada…de arrepiar Mad Men tem um lugar especial nas minhas listas de filmes/séries, estou espalhando para cada cando para assistirem, essa temporada foi de surpresas cada ep uma revelação ou acontecimento incrível, e não tem como discordar o 11ª foi o melhor, para mim o mais pesado da série, fique realmente triste, adoro o ator Jared Harris e o seu final foi de cortar o coração, sobre o Don, quando acho que ele vai tomar um jeito na vida, ele volta atrás, acho que pra ele tomar um jeito é sendo descoberto mesmo, mas isso é para as próximas temporadas e eu já estou louco para começar. Abraços e parabéns mais uma vez.

Responder
planocritico 26 de julho de 2016 - 15:42

Ops, erro meu, foi mal!

Que bom que gostou da crítica! Sabe qual é o problema mais grave de se chegar ao final da 5ª temporada? É saber que só há mais duas pela frente! Dá uma tristeza…

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 26 de julho de 2016 - 15:42

Ops, erro meu, foi mal!

Que bom que gostou da crítica! Sabe qual é o problema mais grave de se chegar ao final da 5ª temporada? É saber que só há mais duas pela frente! Dá uma tristeza…

Abs,
Ritter.

Responder
Gabriel Pereira 25 de julho de 2016 - 22:55

E aí Ritter ? Crítica maravilhosa, só um detalhe o ep The Other Woman é o 10ª e não o 11ª. Sobre essa temporada…de arrepiar Mad Men tem um lugar especial nas minhas listas de filmes/séries, estou espalhando para cada cando para assistirem, essa temporada foi de surpresas cada ep uma revelação ou acontecimento incrível, e não tem como discordar o 11ª foi o melhor, para mim o mais pesado da série, fique realmente triste, adoro o ator Jared Harris e o seu final foi de cortar o coração, sobre o Don, quando acho que ele vai tomar um jeito na vida, ele volta atrás, acho que pra ele tomar um jeito é sendo descoberto mesmo, mas isso é para as próximas temporadas e eu já estou louco para começar. Abraços e parabéns mais uma vez.

Responder
Filipe Isaías 20 de agosto de 2015 - 22:39

–SPOILERS–

Eu vou parar de fazer elogios a Mad Men por quê já virou pleonasmo rsrsrs. O Lane Pryce (e o Jared Harris, com maestria) foi, pra mim, o grande destaque dessa temporada, desde aquela luta estranhíssima com o Pete (tava torcendo pro Lane, aliás) até os momentos mais tensos no penúltimo episódio e aquela situação que deixou ele com a corda no pescoço. Excelente crítica, como sempre.

PS: Essa cena do Zou Bisou Bisou deixou muita gente (isso inclui a mim) com inveja do Don.

Abs.

Responder
planocritico 21 de agosto de 2015 - 12:48

@filipeisaias:disqus, você não está começando a sentir uma espécie de misto de tristeza e alegria agora que só faltam duas temporadas para você acabar?

E Zou Bisou Bisou foi fantástico!

Abs,
Ritter.

Responder
Filipe Isaías 21 de agosto de 2015 - 13:52

Eu sou do tipo de pessoa que vê o copo meio cheio, então tento não pensar nisso. É, eu tô sentindo sim, mas não se esqueça: “nostalgia literalmente significa a dor de uma ferida antiga'”.

Abs.

Responder
planocritico 21 de agosto de 2015 - 15:19

Confesso que fiquei bem triste quando a segunda metade da última temporada começou a ir ao ar…

Mas sempre teremos a série para rever!

Abs,
Ritter.

Responder
Fátima Melo 5 de maio de 2015 - 13:58

Adorei a 5° temporada ! Momento de paz e felicidade de Don com Megan.

Responder
planocritico 6 de maio de 2015 - 04:47

Sim, é verdade, @ftimamelo:disqus! Mas continue vendo!

Abs,
Ritter.

Responder
maria lucia pinheiro 13 de outubro de 2012 - 10:10

Amo tudo sobre o cinema, seu blog me completou na minha ansiedade de encontrar alguém que tivesse o dom de escrever o que eu queria ler e sobre o que eu gosto. Parabéns por voce existir.

Responder
Ritter Fan 13 de outubro de 2012 - 13:50

Obrigado Maria Lucia. Fico feliz que tenha gostado de nosso site. Trata-se de um esforço conjunto de vários editores. Espero que continue nos acompanhando. Abraço, Ritter.

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