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Crítica | Sherlock – 1ª Temporada

por Luiz Santiago
752 views (a partir de agosto de 2020)

Nas Táticas Elementares de A Arte da Guerra, Sun Tzu afirma que “toda luta é baseada em algum truque.”. Na literatura policial, essa afirmação se encaixa como uma luva no cotidiano dos detetives, profissionais que todo o tempo estão em luta declarada contra um grupo ou um único assassino. Sherlock Holmes é com certeza um dos detetives mais conhecidos da literatura policial, que desde a sua criação em 1887, encanta leitores pelo mundo inteiro com o seu método de dedução e sua lógica dedutiva, “truques” pessoais usados na luta contra o crime.

Adaptadas para o cinema e para a televisão inúmeras vezes, as obras do médico e escritor Sir Arthur Conan Doyle apresentam um grande potencial e apelo junto ao público, o que podemos comprovar nas mais recentes versões cinematográficas dirigidas por Guy Ritchie (2009 e 2011). Em 2010, a BBC apostou na popularidade das histórias detetivescas e produziu Sherlock, uma série baseada nas obras de Conan Doyle, mas com uma diferença: ambientada nos dias de hoje. A estrutura da série é de filmes (episódios) com 1h30min. de duração, o que facilita a adaptação da história e evita conclusões apressadas.

Protagonizada pelos excelentes Benedict Cumberbatch (Sherlock Holmes) e Martin Freeman (Dr. John Watson), a série alcançou um nível de excelência invejável, e alta aceitação do público, algo mais impressionante se levarmos em conta que não lidamos com uma história nova, desconhecida e pouco popular; mais ainda, conta-se aqui com o alto risco de uma descaracterização da personagem original, porque a história foi adaptada para o século XXI. Mas os temores se mostram infundados após assistirmos ao primeiro episódio, Um Estudo em Rosa (adaptado de Um Estudo em Vermelho, na obra original). Ver a Baker Street no século XXI e Sherlock Holmes usando GPS, computador e celular é um impulso a mais para gostar de série.

Os figurinos, a fotografia e a montagem são os melhores setores técnicos dessa primeira temporada. Em relação à montagem, algumas inspiradas fusões e transições de cena dão à série sua característica inovadora e dinâmica. As lentes que captam Londres em plano geral são levemente distorcidas nas extremidades, dispondo na memória do espectador o tabuleiro de uma cidade enevoada e misteriosa. Nesse contexto, a maravilhosa interpretação de Sherlock Holmes como um sociopata funcional e o seu exato oposto na pessoa de John Watson, fecham o ciclo de elementos necessários para um bom show.

Algo curioso sobre a personagem de Holmes é a sua total (e aparente) ausência de libido. Em alma, poderíamos compará-lo ao Sheldon Cooper de The Big Bang Theory, cuja racionalidade suplanta as emoções. Outro fato curioso são as leves indicações de que algumas pessoas em torno do famoso detetive suspeitam que ele seja gay. Desde o episódio piloto (que seria refilmado e alongado no episódio um), há aqui e ali uma insinuação sobre a “parceria” entre Sherlock e Watson, embora os produtores da série já tenham afirmado mais de uma vez em entrevistas que “se Sherlock for gay, e quem sabe se ele é, ele não gosta de John“. No último episódio, Watson faz piada com essa opinião comum sobre o amigo, opinião essa que Holmes não nega nem afirma – aliás, não é do tipo dele dar atenção às convenções sociais, boatos ou discussão de sexualidade, logo, essa postura é perfeitamente explicável pela composição dramática e psicológica da personagem.

Sherlock é uma série de alta qualidade, bem adaptada e transportada para os nossos dias. Com um ótimo elenco e equipe técnica, não é de se espantar que a reação do público tenha sido muito positiva, e que o seu renovo tenha sido imediato – embora a segunda temporada tenha vindo ao ar apenas esse ano (2012), dado conflitos de agenda com os atores. A série entra para a lista das melhores produções já realizadas sobre o mais incrível dos detetives da literatura policial.

Sherlock – 1ª Temporada (Reino Unido, 2010 -2011)
Criação: Steven Moffat, Mark Gatiss
Diretores: Coky Giedroyc, Paul McGuigan, Euros Lyn
Roteiristas: Mark Gatiss, Steve Thompson, Steven Moffat (baseado nos livros de Sir Arthur Conan Doyle)
Elenco: Benedict Cumberbatch, Martin Freeman, Una Stubbs, Rupert Graves, Jonathan Aris, Andrew Scott, Louise Brealey, Tanya Moodie, Zoe Telford, Gemma Chan, Vinette Robinson
Duração: 3 episódios – 90 minutos em média cada episódio + episódio extra de 55 minutos (Unaired Pilot)

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14 comentários

Original Rude Boy 4 de agosto de 2020 - 02:21

Caraca man, não acredito que só comecei a assistir essa preciosidade 8 anos depois. 🤦🏻‍♂️

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Luiz Santiago 4 de agosto de 2020 - 02:28

Tá gostando?

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Original Rude Boy 4 de agosto de 2020 - 02:33

Mano, estou achando sensacional. Tô no 2×3.

Não é dessa temporada 1 o que vou falar, mas o episódio 2×1 é um dos melhores de todas as séries que já assisti.

Tá no meu top 5 de eps.

Mas na crítica da 2 eu falo mais kkkk

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Luiz Santiago 4 de agosto de 2020 - 08:42

Quando eu vi eu fiquei embasbacado. Também adorei a série.

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Vitor Emanuel 18 de junho de 2019 - 19:43

Reza a lenda,de quem assiste essa série,tem muito bom gosto. Mas também sofre com os Hiatus. kkkkkkkk Creio eu,que essa seja minha temporada favorita. uma excelente adaptação dos livros pros tempos atuais.

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Luiz Santi🐂GADO 19 de junho de 2019 - 12:31

Sofrer com o hiato dessa série é a nossa sina! 😀

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Fernando Tuno 22 de maio de 2014 - 12:25

Sensacional essa série!!! Cumberbatch e Freeman se complementam perfeitamente!!!

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planocritico 22 de maio de 2014 - 17:58

Concordo com você, Fernando!

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Deto Alff 12 de janeiro de 2014 - 03:08

Boa noite!

Série ou obra de arte, vocês decidem.

Confesso que li primeiro (e estou em uma conversa incrivelmente construtiva com o nosso amigo Gui, o autor) as críticas dos dois episódios mais recentes (3×1 e 3×2) . Estou espantado com a qualidade e o, digamos, “foco” das críticas de vocês. Achei o site de vocês nem sei como, e virei fã, de cara.

Bem, nesse comentário pretendo expor meu ponto de vista primeiro sobre a primeira temporada, que é o assunto principal, e também a tua crítica, que já dando uma opinião, reforçou bastante o lado da série enquanto produto de arte, a realização feita por uma equipe de humanos para entreter e encantar muitos outros.

Um aparte sobre isso:

No fundo, no fundo, sabemos que a sociedade em que infelizmente nascemos é movida apenas a $$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$. CLARO que a série foi feita PRA FAZER DINHEIRO, mas isso é resultado do motor da sociedade, então não podemos culpar ninguém por fazer dessa p*t@ série do c@r4|30 um trabalho de filantropia.

Começando pela primeira temporada:

Minha irmãzinha Andrea Alff (que espero que em breve se junte a nós, convite já tem) a muito tempo me comentou sobre a série, que era com o Benedict “ai, como ele é lindo como o Martin é gostoso como eu fico doida com o Sherlock e ai, meu deus, que que eu faço da minha vida!” Cumberbacht e eu nunca dei muita moral, nem pesquisava nada a respeito e quando via alguma chamada em um site nem clicava.Em parte por falta de tempo e em muito porque ela, minha irmã, já havia me comentado que era ambientada no nosso século.

Sim, eu já tinha sofrido o suficiente com o estupro que Ritchie fez nos dois filmes do Sherlock “Homem de Ferro” Holmes, (minha opinião, sei de muitos que gostaram muito, respeito a opinião mas infelizmente dizer que aquilo faz jus à obra é bullshit), então achava que iria mais uma vez ver uma adaptação porca dos livros que eu tanto gostei desde menino.

Aí um belo dia resolvi encarar, no intervalo entre as exibições originais da BBC da temporada 2 e a 3 baixei o episódio 1×1, “Study In Scarlet”.

TIve que baixar todos os outros e ver em sequência porque me viciei desde o momento em que o zíper do saco de cadáveres abre e ouço aquela pergunta:

____________

-How fresh? _

____________

Ainda é difícil de acreditar que é tão bom. O fato de ser ambientada hoje não prejudica em nada. Ali está Sherlock Holmes. Sim, ele se comporta como Sherlock Holmes. Este é Watson. Estranho, sem bigode, mas ei… estamos no século XXI, lembra? Não seria tão comum, verossímil. Mas sim, ele fala como Watson, age como Watson, se comporta como Watson. Olha só: 221b, Baker Street! Mistress Hudson! É a casa, é a senhoria E governanta! Ah, a Mrs. Hudson de hoje não é mais governanta, só senhoria! Claro, governantas eram comuns até os tenros idos do século passado… apesar de a atual sempre aparecer com uns bolinhos e chá…

Situações saídas da mente de Doyle direto para o papel, publicadas nos folhetins londrinos do final do século XIX e começo do XX, se materializam na tela. A apresentação um para o outro, mediada pelo amigo em comum entre os dois (li uma crítica sobre os filmes em algum site que diz algo como “não importa como eles se conheceram, nem porque Holmes age assim. Holmes é Holmes e pronto”. Típico comentário de quem nunca leu uma linha do original). O relógio de bolso do irmão do Watson se transforma no smartphone da irmã de Watson. O assassino, cocheiro, que matou por vingança, se transforma no taxista que mata patrocinado por Moriarty (este último, a mais louca e genial adaptação de um personagem que já vi! Andrew Scott é pra mim, o melhor vilão das telinhas e telonas desde Scar (Jeremy Irons) de “O Rei Leão”, e lá se vão dezenove anos!)

Muitos diálogos criados por Doyle quase inteiros parecem estar sendo lidos pelos atores. A questão do sistema solar, 90% igual aos livros. Enfim, não tem como listar todas as referências e jogadas geniais e brilhantes da equipe criativa e executiva da série. As atuações são um espetáculo, chover no molhado é falar da dupla principal e dos demais. Até Lestrade, com sua “cara de rato”, lembra um pouco o original.

Situações do original de Doyle muitas vezes são invertidas (o Rache, que no original foi suposto ser “Rachel” e na verdade era “vingança” em alemão, é o melhor exemplo) sem perder a qualidade, sendo importante para a história e causando uma surpresa admirada para quem leu o original. Outras situações são causadas pelo zumzumzum dos leitores do original – quem nunca pensou que era suspeita essa amizade tão intensa entre os colegas do 221b? Hoje em dia se fala mais abertamente, então aproveitaram o gancho para situações de humor sobre a sexualidade deles. Entre outras adaptações geniais que a série apresenta.

Em nada essa série deve para os fãs da literatura de Doyle, como eu. Em nada deve a quem começa a se interessar pelo detetive da Baker. Quem leu primeiro e viu depois se diverte tanto quanto quem faz o inverso. Divertida, emocionante, intensa, talvez a melhor série que apareceu nos últimos tempos.

Agora, sobre a sua crítica: muito bem colocados os pontos que escreveste. Como já estou me alongando, vou direto ao ponto: fotografia e montagem. Mostrastes bem, com tuas palavras, a importância desses dois fatores serem realizados por uma equipe competente. Somente filmes com uma fotografia bem pensada, bem testada, bem realizada, tanto em enquadramento quanto em efeitos, quanto em paleta e movimentação, atuando em conjunto com uma montagem criativa e fluída, é que são filmes que tem o primeiro quesito em ser um filme que deixa de ser um esforço em produzir alguma coisa e passa a ser obra de arte “que se faz por música”, e se “assiste por música”. Escrevi, na minha página no Facebook, após assistir com muita coragem um bom trecho da terceira parte de “O Tempo E O Vento”, como microssérie, que achei que: este filme, que virou série na Globo como uma espécie de “versão do diretor”, lançada no cinquentenário da publicação da Epopéia Máxima do meu povo, os gaúchos, merecia algo melhor. Mas bem melhor. Algo do porte de Sherlock. Porque não? A história não é boa, é excelente. Se alguma equipe da BBC quiser vir ao Brasil, recrutar bons atores e se encarregarem, os ingleses, da montagem e fotografia, seria um filme pra ganhar Oscar na categoria principal. Mas…

O que quero dizer é que apesar de ser evidente, bateste numa tecla que eu bato já com a testa a anos, e que parece que no Brasil não se dá a menor importância. Filme bom tem que ter montagem e fotografia como a base para o fenômeno que nos intriga sempre que assistimos a um filme INTEIRO que nos envolve e um que violentamente nos repele: a manipulação da quarta dimensão.

Sim, porque um filme que nos envolve parece passar muito rápido. Pode ser 3 horas de filme, se você assiste e se envolve, parece que só passou 15 minutos do início ao fim. E um filme que é cheio de “trancos” de passagens de cena, de situações que não ajudam a trama a evoluir PARA O ESPECTADOR, ou que evolui aos “pulos”, onde mesmo conhecendo muitas vezes a história, parece que o diretor não está te contando tudo o que aconteceu de importante para que alguns fatos fiquem bem claros, é um filme maçante, sem sentido e que dá a impressão de ter sido feito para que possam dizer, “taí, fizemos um filme sobre X”.

Isso é montagem. Montagem é a “voz”, as “frases”, os “depoimentos” de quem está te narrando a história. Fotografia é a capacidade de o contador dessa história te fazer ver como tudo aconteceu, em que circunstâncias, o que era necessário ser visto e notado e de que forma isso se apresenta para quem “ouve” a história contada. E o contador da história, nesse sentido, é o diretor.

Portanto concordo com o parâmetro que usastes para classificar a produção. Fotografia impecável. Montagem impecável. Junte tudo isso ao que falei sobre personagens, atores e tudo o mais e chegamos ao que falei no início: série ou obra de arte, vocês decidem.

E acima de tudo, uma bela homenagem a Conan Doyle, Sherlock Holmes e John Watson. Vida longa ao trio.

Abraços e vamos criticando!

Deto.

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Luiz Santiago 17 de janeiro de 2014 - 04:04

Olá, Deto. Em primeiro lugar, obrigado pelos elogios e pelo comentário bastante interessante em termos de mitologia da personagem e sua adaptação. Isso é excelente.

A minha relação com a série foi mais ou menos como a sua, no início. Primeiro, a negação para ver e depois, o espanto pela qualidade. Essa temporada se mostrou, já à época, algo inovador até em termos de TV, porque não eram todos os programas que dentro de uma estrutura vinda da literatura aplicava de maneira tão orgânica e bem feita, elementos do nosso século.

Essa boa relação de qualidade fica também evidente – ainda mais na segunda temporada e também na terceira – com o rigor da equipe técnica e dos roteiristas, muito embora em tenha minhas reservas em relação ao final da 3ª Temporada…

Responder
Deto Alff 21 de janeiro de 2014 - 20:00

Fala Santi!

Então meu querido, eu tentei assistir um episódio de “Elementary” e não aguentei cinco minutos. Doyle deve se revirar no túmulo. Pelo menos descobri que em matéria de estupro sherlockiano existe coisa pior que os dois Sherlock Holmes do Guy Ritchie (o primeiro nem tanto, mas o segundo, por favor!). Enfim, o Sherlock da BBC é o verdadeiro Sherlock, apesar da ambientação nos dias atuais. Dá gosto de ver.

Abraços e vamos criticando!

Responder
planocritico 21 de janeiro de 2014 - 20:44

Nooooossa, “Elementary” é ruim demais! Eu ainda tive coragem de ver o Piloto e o segundo episódio, mas quase tive um treco. Como você disse, o Doyle estava se revirando no túmulo!
abs
Luiz

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Deto Alff 5 de fevereiro de 2014 - 01:37

Como dizia (diz) o imortal (com duplo sentido) Lestat de Lioncourt:

– Ah, Loui, Loui…

(Lestat de Lioncourt. All Rights Reserved to Howard Allen O’brien)

Loui, meu caro, para Elementary ficar ruim demais, precisa melhorar MUITO. Mas MUITO mesmo. Elementary faz o Sherlock Holmes do Ritchie (“menina veneno/o mundo é pequeno demais pra nós dois…”) ser a melhor adaptação de uma obra de literatura desde o perfeito Clube da Luta (1999, Dir. David Fincher, Rot. Jim Uhls, Est. Regency/20th Century Fox, Orig. Chuck Palahniuk, com Edward Norton, Brad Pitt e Helena Bonham Carter), o que, é óbvio, contraria todas as leis da física, química, matemática, biologia, educação sexual, aula de artes, e até o intervalo da merenda onde os mais espertinhos ficavam espiando debaixo das saias das meninas e os mais tapados caminhavam pelo corredor com as costas grudadas na parede para evitar levar mais um cuecão, o que, é óbvio, era uma atitude inútil, haja vista que sempre levavam mais um e outro e outro.

Acho que consegui expor minha opinião sobre Elementary de forma concisa e absoluta.

Um grande abraço do amigo dos pampas, e vamos criticando que é o que nos resta!

Heloysa Rocha 1 de maio de 2017 - 01:47

Sherlock, nessa série, é o House MD dos crimes, por isso a série é tão boa e todo mundo gosta. É essa identificação com o House que me fez gostar do Sherlock.

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