Crítica | Vicious – 1ª Temporada

estrelas 4,5Vicious é daquelas séries que depois de assistir ao primeiro episódio você não consegue mais parar de ver. A comédia acompanha o cotidiano de um casal homossexual na terceira idade, interpretados por ninguém menos que os gigantes Ian McKellen (Freddie) e Derek Jacobi (Stuart).

Logo de cara, percebemos que a série não se trata de uma caricatura chata de um casal gay old school. O que temos, na verdade, é uma convivência divertidíssima entre os dois, que depois de 48 anos juntos e muitas brigas e histórias para contar, não se furtam em dirigir-se apelidos e críticas severas. As brigas são parte do dia a dia de Freddie e Stuart e algo bastante comum para seus amigos mais próximos, que acham estranho quando “está tudo bem” entre eles.

Mas não só de briga vive uma relação. Percebemos que as personagens se amam e dão provas disso diversas vezes ao longos dos 6 episódios dessa 1ª temporada. Por se tratar de homens orgulhosos (Stuart nem tanto) e de uma maneira bastante incisiva ao defenderem seus pontos de vista, os embates são sempre muito engraçados e trazem à tona piadas internas que possuem um bom peso dramático, como a antipatia de Freddie para com a mãe de Stuart, o fato de Stuart ainda não ter contado à mãe que é gay, o cachorro-múmia que eles criam, as paqueras do passado, as várias referências à carreira fracassada de Freddie e as muitas referências a Doctor Who.

O casal vive em uma casa na região dos teatros londrinos, mas raramente saem. Podemos ver uma indicação sutil do produtor à reclusão dos casais gays no que diz respeito às suas vidas pessoais, como se fosse algo a ser guardado a sete chaves, mantido em segredo e no escuro. O próprio apartamento de Freddie e Stuart é um exemplo disso: apesar de ter uma grande janela na sala, há uma cortina escura mantida sempre fechada, deixando o ambiente com uma aparência aconchegante, mas claustrofóbica, como se estivessem se escondendo do mundo.

Mas a rotina de brigas de amor do casal é abalada com a chegada de Ash (Iwan Rheon, de Misfits), o novo vizinho, que de pronto se torna amigo de Freddie e Stuart. Mimado e paquerado por Violet (Frances de la Tour, a Madame Maxime de Harry Potter), amiga do casal protagonista, Ash é um novo ponto cômico e uma quebra dramática à já interessante história apresentada. É a partir desse elemento que temos a ligação entre diferentes gerações, o que culmina em uma noite de balada, onde vemos McKellen e Jacobi dançando ao som de Ke$ha  numa das mais impagáveis cenas da temporada.

O elenco ainda é composto por Marcia Warren (Penelope) e Philip Voss (Mason), ambos atores veteranos da TV britânica. Todos fazem um trabalho maravilhoso, o que pode ser visto em grande estilo no Episódio 6, o término da temporada com a reunião de todo o elenco e uma verdadeira chave de ouro para o primeiro ano do projeto.

McKellen e Jacobi disseram que apostaram bastante na série e fizeram de tudo para estar nela, tanto por ser uma comédia (ambos se dizem cansados de “papéis sérios”) quanto por retratar uma realidade ainda estranha para uma boa parte da população. E isso é interessante vindo de dois atores abertamente gays e que já se manifestaram diversas vezes sobre as condições entre os vários lados possíveis da pulsão sexual humana em nossa sociedade.

Pesa sobre a série o pequeno tempo de duração dos episódios, o que faz com que não haja um largo desenvolvimento psicológico das personagens, mas o roteiro é tão bem escrito que essa necessidade é suprida a contento ao longo das cenas e capítulos, conforme vemos as ações, problemas e reações de cada um.

Vicious é uma comédia deliciosa sobre personagens cativantes, um bom exemplo de que mesmo com um formato nada acelerado ou rebuscada produção é possível ter um show de qualidade e com muito humor, um ótimo um retrato de um velho casal briguento e apaixonado em um mundo de efemeridades e preconceitos.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.