Crítica | Boca de Ouro no Teatro do SESI (2012)

O recifense Nelson Rodrigues é certamente um dos nomes mais lembrados do nosso jornalismo e da nossa literatura. Com o título de “anjo pornográfico”, Rodrigues entrou para o gosto popular com seus romances, contos, crônicas e peças que retratavam de maneira muito crua e sem meandros, o dia a dia do subúrbio e da elite carioca.

Neste ano de 2012, comemora-se o centenário de seu nascimento. Para a marcante data, tivemos e ainda temos diversas exposições e também encenações de peças do autor aqui em São Paulo, sendo uma delas, Boca de Ouro (1959), que encerrou hoje (24/11) a sua temporada no Teatro do SESI, na Avenida Paulista.

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Uma Tragédia Carioca

_Mas escuta: Eu estava no quarto com uma mulher e, nisso, chega o marido com a polícia. Em conclusão, arrombaram a porta. A mulher, nuazinha, negou até o fim. Sabe que o marido ficou na dúvida, o comissário ficou na dúvida e até eu fiquei na dúvida? Meu anjo, da próxima vez, nega, o golpe é negar!

Boca de Ouro ganha uma ótima montagem sob direção de Marco Antonio Braz e cenografia de J C Serroni. A tragédia que narra a história do recalcado malandro Boca de Ouro é posta no palco em toda a sua força e multiplicidade de visões. Assim como em Vestido de Noiva, temos uma sequência de fatos que aparecem a partir da visão de terceiros, e nesse caso, de Guigui, a amante do falecido Boca. A cada cena e através dos atos centrais, percebemos as muitas versões para a mesma história cedida por Guigui ao jornal O Sol, e  a dúvida se instala no coração do espectador sobre qual delas é a versão verdadeira, exatamente como numa fala do protagonista, que uso como epígrafe deste texto.

Sob apelidos estranhos como Drácula de Madureira ou Rasputin Suburbano, este homem que mandou arrancar-lhe todos os perfeitos dentes para colocar uma dentadura de ouro é na verdade a personificação da baixa estima. Nascido e abandonado em um banheiro de gafieira, numa pia de bica, o garoto cresceu e conseguiu grana, mas a mentalidade inferior permaneceu, transfigurando os seus valores para a posse de tudo o que o cercava e denegrindo-lhe a moral.

Como coadjuvantes, personagens marginais e no mínimo insólitos perpassam o palco e a vida de Boca de Ouro: as madames, a mulher mística da dieta que a fazia esquecer das cosias e ver os pulsos transparentes, o casal no limite entre  amor e o ódio, as esposas oprimidas, os maridos corneados e suas explosões sentimentais, os membros caricatos da imprensa sensacionalista. Num caldeirão de fracassados e tipos comuns, Boca de Ouromostra uma história trágica rodeada de possíveis culpados. Fica ao público a tarefa de escolher os seus.

Com um elenco bastante afinado e uma montagem interessantemente simbólica, Boca de Ouro tem um único momento falho, que é a deixa para a memória do Boca, ao término do espetáculo. Embora festivo e bem rodriguiano (“o Brasil é um feriado“), o fio solto que poderia ser facilmente amarrado pelo diretor, deixou mais que o natural ponto de interrogação pretendido por Rodrigues. Mas nada disso é capaz de minimizar a qualidade da montagem de Braz e da cenografia de Serroni, que insere elementos de reprodução cinematográfica e adequação simples dos cenários à história central.

Misturando os possíveis sentimentos de Guigui, em seu relato sempre muito conveniente, o diretor conseguiu guiar uma parte do drama sanguinário para uma comédia nervosa e bastante oportuna. O resultado é simplesmente delicioso, como o noticiário de rádio que dava com muita categoria e doses teatrais de importância a notícia que chocaria toda a cidade do Rio de Janeiro: “Boca de Ouro foi assassinado e teve todos os seus dentes roubados. É ou não é um paradoxo, Caveirinha?“.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.