Veredito Cinéfilo #13 | Os 50 Melhores Filmes Com Temática LGBT

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Realizado para acompanhar o lançamento de Me Chame Pelo Seu Nome (2017) no Brasil, este 13º Veredito Cinéfilo do Plano Crítico elenca os 50 Melhores Filmes com Temática LGBTQI+ do cinema a partir da votação de Luiz von Kant, Ritter de Uniforme, Roberto Flamingos, Daniel Dallas, Rafael Hedwig e os convidados Guilherme Santiago e Lucas Thulin. E como toda lista, mesmo com os critérios técnicos considerados por cada um dos votantes, existe, obviamente, o fator pessoal. Não há lista se não existe “escolha pessoal”, independente do caminho levado em consideração.

Por isso, não se espante ou veja o Armagedom no horizonte ao constatar que Bent, O Funeral das Rosas, Milk – A Voz da Igualdade, Flores Raras, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho e todos aqueles seus filmes queridos do coração não estejam em nossa lista. Eles simplesmente não foram votados por motivos que, se quiser, você pode perguntar nos comentários. Mas acontece. O mesmo vale para choro e ranger de dentes sobre a classificação de algumas obras “que deveriam estar na frente ou atrás de outras” mas não estão. Pois é. Isso também acontece. E depois, nenhuma lista é definitiva. Quem sabe no lançamento de Não Me Chame Por Nome Nenhum 9: A Missão a gente não faça um outro Veredito com os 150 melhores filmes com esta temática?

A principal regra aqui foi a de indicar obras que trabalhassem, como motor central ou de maior importância para o protagonista no roteiro, temáticas relacionadas a todos os grupos dentro da extensão da sigla sobre diversidade sexual e de gêneros. Caberiam, portanto, obras com temáticas lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, transgênero, intersexo, queer e outras tantas variações. Na edição final, tirei apenas dois filmes indicados, os excelentes Cidade dos Sonhos (2001) e Um Dia de Cão (1975). A opção pela retirada foi por entender que estes filmes utilizam a temática apenas como uma informação adicional para os personagens, não como tema central e nem de importância dramática definitiva para para o andamento do roteiro, uma vez que o foco aí não é a sexualidade e nem as questões de gênero.

A classificação dos longas na lista seguiu os seguintes critérios: posição do filme nas listas individuais (cada pessoa poderia indicar no mínimo cinco e no máximo quinze filmes) e número de votos no todo, somando-se os pontos de cada indicação para gerar a classificação dos 50 melhores.

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50º Lugar: Amor por Direito

Freeheld (EUA, 2015) — Direção: Peter Sollett
Voto: Daniel Tristão

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Diagnosticada com uma doença terminal, uma policial luta para que sua parceira receba os benefícios de sua pensão após a sua morte, mas as autoridades não querem reconhecer a união homoafetiva.

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49º Lugar: Queda Livre

Freier Fall (Alemanha, 2013) — Direção: Stephan Lacant
Voto: Lucas Thulin

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Lucas Thulin: Assistir a esse filme é como estar naqueles momentos em que coisas muito importantes acontecem na sua vida e você não sabe direito como dar atenção a tudo, ainda mais quando você é o centro de todas essas mudanças. Sem contar que além do desejo e da sexualidade, tem um drama moral e afetivo envolvido que torna tudo mais interessante em Queda Livre.

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48º Lugar: Triângulo Feminino

The Killing of Sister George (EUA, 1968) — Direção: Robert Aldrich
Voto: Lucas Thulin

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Lucas Thulin: Adoro a pegada psicológica muito forte desse filme, algo que Aldrich costumava dar às suas personagens femininas de mais destaque. O trauma do relacionamento entre mulheres nos anos 60, as filmagens em locação em uma famosa boate lésbica de Londres, a metalinguagem, o final marcante… impossível ficar indiferente a este The Killing of Sister George.

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47º Lugar: O Segredo de Brokeback Mountain

Brokeback Mountain (EUA, 2005) — Direção: Ang Lee
Voto: Rafael Oliveira

Leonardo Campos: Ang Lee já havia flertado com a homossexualidade no interessante Banquete de Casamento, lançado em 1994. Em Tempestade de Gelo, de 1997, apresentou críticas ácidas ao núcleo familiar. Desta forma, o seu filme sobre Ennis Del Mar e Jack Twist parece refletir as ressonâncias culturais do cineasta com a movimentação intelectual sobre a temática entre os 10 anos de lançamento da comédia gay de 1994 e a adaptação do conto Brokeback Mountain, em 2004. As produções dialogam entre si e, por sua vez, completam-se.

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46º Lugar: Meninos Não Choram

Boys Don’t Cry (EUA, 1999) — Direção: Kimberly Peirce
Voto: Luiz Santiago

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Luiz Santiago: Baseado na história real de Brandon Teena, este filme deu o Oscar a Hilary Swank e aborda a questão da transexualidade, mostrando a juventude de Brandon, sua tentativa de se encaixar na sociedade, seus erros, relacionamentos e cruel assassinato. Uma história triste, porém real e que segue se repetindo hoje com milhares de transexuais, não só nos Estados Unidos, mas no mundo todo.

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45º Lugar: Laerte-se

Brasil, 2017 — Direção: Lygia Barbosa, Eliane Brum
Voto: Roberto Honorato

Roberto Honorato: Laerte é um tesouro nacional, um dos maiores quadrinistas do país e uma personalidade inteligente, e estrela este documentário sobre um momento decisivo em sua vida: a mudança de sexo. Aqui a sua carreira nos quadrinhos é apenas pano de fundo, o foco é na vida pessoal, nas memórias, nas neuras e nos questionamentos desta figura que acaba se tornando um objeto de estudo maravilhoso e levantando um debate que muita gente ainda não teve coragem de participar.

Luiz Santiago: Laerte-se (2017) é o primeiro documentário brasileiro produzido pela Netflix e acompanha a cartunista e chargista paulistana Laerte Coutinho, criadora de icônicos personagens como o super-herói Overman; o onipotente Deus; os Piratas do Tietê; o modernoso e trágico Hugo Baracchini; a menininha Suriá e o crossdresser Muriel/Hugo. Aos 58 anos de idade (em 2009), Laerte assumiu sua sua transgeneridade, ou algo perto disso, já que ela afirma estar “sob um guarda-chuva que inclui a travesti, o crossdresser, a drag queen, o drag king” e que se sente feliz com isso; em um processo reflexivo que vinha sendo “cozinhado” — inclusive com uma série de dicas e talvez sublimações nada sutis em suas tirinhas — desde 2004.

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44º Lugar: Orações Para Bobby

Prayers for Bobby (EUA, 2009) — Direção: Russell Mulcahy
Voto: Lucas Thulin

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Lucas Thulin: Eu nunca passei por problemas familiares relacionados à minha sexualidade. Meus pais não são religiosos e a maioria da minha família também não. Nunca tive problema nem de piadinhas nem de perguntas grotescas desde que comecei a levar namorados para festas de família, quando tinha 17 anos. Mas vocês não tem noção de como esse filme mexeu comigo. De como pisoteou a minha alma. E de como me fez chorar por muitos minutos, sem parar. Sério, gente, eu tive uma crise muito forte de choro quando o filme terminou.

Porque embora nunca tivesse vivido nada parecido em família, eu fui percebendo meus amigos gays, filhos de pais católicos e evangélicos, perderem paulatinamente a vontade de tudo na vida. Isso quando não chegavam marcados na escola e todo mundo (inclusive os professores) sabiam por quê. Quando me tornei adulto, fui vendo esse problema em outra escala e infelizmente perdi dois amigos, também em casos de suicídio.

Me doeu profundamente imaginar que para algumas pessoas da nossa comunidade (e olha que a gente está falando da sexualidade, imaginem vocês em casos das nossas amigas e amigos que lutam mesmo com uma questão de gênero!) preferem a morte a ter que viver em um lar, que é o nosso último refúgio, onde são agredidos de todas as formas e forçados a uma série de coisas horríveis só porque não sentem desejo “pela pessoa certa”. Isso me deixa irado e novamente em lágrimas só de pensar. Só peço para quem ainda não viu este filme, que não o veja se está em um momento ruim. Sério. Ele é massacrante.

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43º Lugar: O Direito do Mais Forte é a Liberdade

Faustrecht der Freiheit (Alemanha Ocidental, 1975) — Direção: R.W. Fassbinder
Voto: Lucas Thulin, Guilherme Santiago

Luiz Santiago: A forma como o diretor trabalha a homossexualidade, a dependência amorosa e o egoísmo que dá a alguns personagens (especialmente Eugen) um caráter psicopata tornam os micro-universos mais ricos e complexos, fazendo de O Direito do Mais Forte é a Liberdade um interessante estudo de comportamento. Ou uma projeção desalentada do diretor para a sociedade de sua época.

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42º Lugar: Minha Vida em Cor-de-Rosa

Ma vie en rose (Bélgica, França Reino Unido, 1997) — Direção: Alain Berliner
Voto: Lucas Thulin

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Lucas Thulin: O que dizer dessa maravilha? Um filme sobre uma infância trans sem fazer arremedos sentimentais estranhos no roteiro ou no contraste com a sociedade. Uma abordagem realista e honesta do tema. Não precisa falar mais nada!

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41º Lugar: Pariah

EUA, 2011 — Direção: Dee Rees
Voto: Guilherme Santiago

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Guilherme Santiago: Ser adolescente e gay é um bônus de confusão que uma pessoa pode ter na vida. Porque adolescência já não é lá o período mais ajeitadinho da nossa existência. E quando a gente se descobre “diferente da maioria”, mesmo tendo um lar acolhedor para qualquer que seja a nossa expressão sexual, nunca é um processo fácil de descobrir-se e aceitar-se. E este filme captura muito bem esse momento na vida de uma adolescente negra do Brooklyn. Um filme delicado e crítico, com muito mais coisas para pensar do que possa parecer à primeira vista.

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40º Lugar: Delicada Atração

Beautiful Thing (Reino Unido, 1996) — Direção: Hettie Macdonald
Voto: Lucas Thulin, Guilherme Santiago

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Guilherme Santiago: Uma comédia romântica que parte de um lar disfuncional para um outro lar,  mais receptivo, caloroso. Uma história bonita (e um pouco triste também) de dois amigos que veem surgir o amor de algo que imaginavam antes ser apenas amizade.

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39º Lugar: Senhoritas em Uniforme

Mädchen in Uniform (Alemanha, 1931) — Direção: Leontine Sagan, Carl Froelich
Voto: Ritter Fan

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Ritter Fan: Um precursor dos filmes LGBT em plena Alemanha se preparando para abraçar o Nazismo. Pode não ser uma obra-prima, mas é certamente fundamental.

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38º Lugar: Priscilla, a Rainha do Deserto

The Adventures of Priscilla, The Queen of Desert (Austrália, 1994) — Direção: Stephan Elliott
Voto: Luiz Santiago

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Leonardo Campos: Priscilla, A Rainha do Deserto é um fenômeno. Poucos filmes conseguiram tratar de temas complexos através de camadas generosas de ironia, sem se deixar cair nas armadilhas da caricatura e da banalização.  Dirigido e escrito por Stephan Elliott, a ideia para o filme curiosamente surgiu durante uma viagem do cineasta ao Brasil, em 1989, especificamente no Rio de Janeiro, depois de assistir a um desfile repleto de transformistas.

Ao flertar com temas como pedofilia, homoafetividade, violência física e simbólica, este inesquecível filme traz à baila questões contemporâneas referente ao universo dos homossexuais e artistas da performance, alvo de preconceito e estigmas sociais. Galgado na possibilidade de ser subversivo, a narrativa trata da resistência aos modos vigentes, numa ode aos elementos estéticos da alegria, em contraposição ao ressentimento.

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37º Lugar: Azul é a Cor Mais Quente

La vie d’Adèle (França, Bélgica, Espanha, 2013) — Direção: Abdellatif Kechiche
Voto: Daniel Tristão

Ritter Fan: Azul é a Cor Mais Quente é muito mais profundo do que “aquele filme com cena de sexo lésbico” ou do que “aquele filme da mulher de cabelo azul”. Ele mergulha em um oceano de descobertas e da vida que poucas vezes vemos de maneira tão eficaz na tela grande, tornando a experiência um grande prazer.

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36º Lugar: A Garota Dinamarquesa

The Danish Girl (EUA, 2015) — Direção: Tom Hooper
Voto: Daniel Tristão

Lucas Nacimento: A Garota Dinamarquesa representa uma história poderosa e que merece ser redescoberta e conhecido por todos, ainda que o longa de Tom Hooper tivesse o potencial para explorar ainda mais elementos sobre o nebuloso passado da transexualidade. Uma bela obra, mas o grande trunfo está em seu impecável elenco.

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35º Lugar: Ligadas Pelo Desejo

Bound (EUA, 1996) — Direção: Lana e Lily Wachowski (na época, “Wachowski Brothers”)
Voto: Rafael Oliveira

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Mulher do chefão da Máfia, cansada de ser espancada por ele, se envolve com uma ex-presidiária com quem troca juras de amor. Mas para conseguirem a liberdade, precisam armar um plano para matar o bandido e fugir com todo o seu dinheiro.

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34º Lugar: Orgulho e Esperança

Pride (Reino Unido, França, 2014) — Direção: Matthew Warchus
Voto: Guilherme Santiago

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Guilherme Santiago: Inicialmente eu tinha escolhido Milk – A Voz da Igualdade no lugar deste, mas depois pensei melhor em como as histórias são construídas e concluí que este incrível filme britânico de 2014 merecia sim a indicação. Indico fortemente para quem gosta de um pouco de História do movimento LGBT.

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33º Lugar: Meu Passado me Condena

Victim (Reino Unido, 1961) — Direção: Basil Dearden
Voto: Lucas Thulin

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Lucas Thulin: Um filme poderoso, com Dirk Bogarde no elenco. Ele vive um advogado que arrisca tudo (casamento, amigos, carreira), após o suicídio de seu amante, para confrontar pessoas que chantageavam homossexuais. Essas pessoas diziam que “contariam tudo para a polícia”, pois na época, a homossexualidade era crime na Inglaterra. Uma crônica social e de luta pela dignidade que nos faz sentir muita raiva durante a maior parte do filme.

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32º Lugar: Teorema

Itália, 1968 — Direção: Pier Paolo Pasolini
Voto: Luiz Santiago

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Luiz Santiago: Totoal espetáculo de desconstruções, derrubada de máscaras e exposição de rombos enormes no meio do puritanismo e vida sob regras de uma “família tradicional”. A trama se passa em Milão e mostra a revolução completa de uma família rica, depois de receber um visitante cheio de mistério, charme e libido, vivido por Terence Stamp. Em sua estadia na casa, ele seduz a empregada, o filho, a mãe, a filha e o pai. E as mudanças não acontecem apenas no corpo e no toque dos que estão na casa, mas também na mente e no espírito. Uma crítica poderosa aos “não me toque” e aos que a tudo condenam, como se fossem santos livres de erros e desejos.

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31º Lugar: Amigas de Colégio

Fucking Åmål (Suécia, 1998) — Direção: Lukas Moodysson
Voto: Guilherme Santiago

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Guilherme Santiago: Mais outro filme que eu indico sobre a descoberta da sexualidade. Neste, as meninas estão em idade escolar e passam por todos os percalços que adolescentes nesta fase passam: paixão não correspondida, gostar de alguém e não saber como dizer para a pessoa, achar-se estranho de tudo e todos e, por fim, ter a sorte de conquistar alguém. Mas aqui, trata-se de um “amor secreto” que fará com que as garotas amadureçam bastante.

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30º Lugar: Orlando

Reino Unido, 1992 — Direção: Sally Potter
Voto: Guilherme Santiago, Lucas Thulin

Fernando Campos: Poucos longas abordam com tanta sensibilidade temas como androginia, homossexualidade e bissexualidade, algo complementado pela atuação impecável de Tilda Swinton, construindo um personagem cheio de nuances. Durante sua trajetória, Orlando nasce homem e descobre-se mulher e Tilda perfeitamente apresenta um homem sensível e gentil na primeira metade, para tornar-se uma mulher decidida e feliz consigo mesma na parte final, em uma das grandes interpretações da carreira da atriz, reconhecida justamente por papéis que possibilitam essa ambiguidade.

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29º Lugar: Je, Tu, Il, Elle

França, Bélgica, 1974 — Direção: Chantal Akerman
Voto: Ritter Fan

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Ritter Fan: Provavelmente um dos primeiros filmes a abordar o amor lésbico de forma mais explícita, o filme é de uma beleza estética embasbacante ao mesmo tempo que não se desvia em lidar com assunto que, na década de 70, ainda carregava uma considerável carga de tabu.

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28º Lugar: Garotos de Programa

My Own Private Idaho (EUA, 1991) — Direção: Gus Van Sant
Voto: Luiz Santiago, Ritter Fan

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Ritter Fan: River Phoenix e Keanu Reeves em um tocante filme sobre amadurecimento, amizade e amor, sob as delicadas lentes de Gus van Sant. Um imperdível e provocativo road movie com todos os predicados de um clássico.

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27º Lugar: Paris is Burning

EUA, 1990 — Direção: Jennie Livingston
Voto: Lucas Thulin, Guilherme Santiago

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Guilherme Santiago: Um incrível documentário sobre a cena das Drag Queens em Nova York, nos anos 80. Parece um longo, histórico e analítico episódio de RuPaul, com toda a animação, figurinos, danças, música, gírias e relatos de quem vive na noite e a vira de ponta cabeça ainda hoje… Imperdível!

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26º Lugar: Pink Flamingos

EUA, 1972 — Direção: John Waters
Voto: Roberto Honorato

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Roberto Honorato: Essa é minha colocação polêmica na lista. O diretor John Waters traz um filme sujo e escatológico, mas com um comentário social tão bom que você não consegue desviar o olhar. A protagonista do filme, Divine, interpretada por Babs Johnson (dica fora da lista: assista ao documentário Eu Sou Divine, me agradeça depois), acabou se tornando uma figura representativa da comunidade performática das drag queens, influenciando celebridades como RuPaul, que vive convidando Waters em seu famoso programa Drag Race. É um marco da contracultura.

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25º Lugar: Canção de Amor

Un chant d’amour (França, 1950) — Direção: Jean Genet
Voto: Guilherme Santiago

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Guilherme Santiago: A solidão só pode ser boa quando você quer ficar só e isso não é fruto de alguma alteração mais grave de comportamento psicológico ou sentimental. Mas quando você não quer ficar sozinho e, mesmo assim, se vê nessa situação, a única sensação que parece dominar tudo ao seu redor é o desespero. E é justamente essa sensação que o espectador tem nesse filme. Uma solidão que dói. Uma vontade imensa de contato humano entre dois presidiários. E o diretor Jean Genet faz com que tudo seja visitado pela libido, pela vontade não só de outra pessoa, de ouvir, de ver, mas também de sentir e dar prazer. De conviver.

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24º Lugar: Um Estranho no Lago

L’inconnu du lac (França, 2013) — Direção: Alain Guiraudie
Voto: Rafael Oliveira

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Luiz Santiago: O princípio do diretor e roteirista de O Estranho no Lago, Alain Guiraudie, é explorar o fascínio humano pelo insólito (nesse caso, especialmente o fascínio masculino), a exposição de um lado da pulsão homossexual há muito superado, mas que ainda hoje encontra representantes por aí, e, principalmente, a revisão de um gênero através dos ingredientes cinematográficos mais simples possíveis, só que executados com primazia — o que realmente faz de O Estranho no Lago um grande filme.

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23º Lugar: Tatuagem

Brasil, 2013 — Direção: Hilton Lacerda
Voto: Rafael Oliveira

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Luiz Santiago: Escrevendo e dirigindo Tatuagem, Hilton Lacerda buscou inspiração no Grupo de Teatro Vivencial (cujo espaço de apresentação, uma espécie de café-teatro chamado Vivencial Diversiones, foi construído à margem do mangue, em uma favela no limite de Recife e Olinda) e ambientou sua história em pleno período de decadência da Ditadura Militar, entre os anos de 1978 e 1979. Clécio Wanderley (Irandhir Santos) lidera uma trupe de teatro anarquista na periferia da capital. Arlindo “Fininha” Araújo (Jesuíta Barbosa) é um soldado de 18 anos cuja família mora no interior. Esses dois mundos são opostos, misturados, justificados e recriados pelo cineasta, todos carregando as dificuldades máximas apontadas pelo filme (problema de comunicação e exagero do estado apolíneo ou dionisíaco) e vontade de ser feliz, normalmente perseguindo uma palavra que é mais poesia do que práxis: liberdade.

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22º Lugar: Filadélfia

Philadelphia (EUA, 1993) — Direção: Jonathan Demme
Voto: Daniel Tristão, Roberto Honorato

Roberto Honorato: Uma das melhores atuações de Tom Hanks em um filme que poderia se beneficiar bastante de uma direção mais delicada e paciente, mas é um retrato de uma realidade bastante comum de uma das épocas mais sombrias para a comunidade gay: o crescimento do medo através da ignorância durante a epidemia de AIDS.

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21º Lugar: The Rocky Horror Picture Show

EUA, 1975 — Direção: Jim Sharman
Voto: Roberto Honorato

Roberto Honorato: Ninguém imaginava que um filme que mistura gêneros como musical, ficção científica, comédia pastelão e terror teria um resultado tão eficiente. Um casal perdido no meio do nada durante uma tempestade terrível encontra conforto em uma mansão assustadora e cheia de figuras peculiares, mas era o único lugar onde poderiam dar um telefonema. O que isso tem a ver com o tema? O protagonista, Dr. Frank-N-Furter, é um cientista louco obcecado pela forma mais pura de prazer, tanto que pretende criar o homem perfeito no seu laboratório (para motivos, bem, puramente acadêmicos…). Interpretado brilhantemente por Tim Curry, Frank é um crossdresser e sua mensagem de amor próprio e liberdade acabou influenciando bastante a comunidade LGBTQ e o filme se tornou um clássico cult para os cinéfilos. “Não sonhe, seja!”

Luiz Santiago: Desafiando convenções sociais e da sétima arte, The Rocky Horror Picture Show não teme em falar de sexo — na mais livre visão que se possa ter–; de ridicularizar os casamentos feitos como obrigação de uma etapa para a vida e não como um projeto pessoal, vide a estranha relação entre Janet e Brad; de mostrar que o terror, o musical e a ficção científica podem misturar-se e resultar em uma criação divertida, com canções de rock, baladas e brincadeiras históricas (os noivos ouvem o discurso de renúncia do presidente Nixon enquanto dirigem até a casa do Dr. Scott) que fazem o público dançar, torcer e temer pelo que vem a seguir.

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20º Lugar: Minha Adorável Lavanderia

My Beautiful Laundrette (EUA, 1985) — Direção: Stephen Frears
Voto: Luiz Santiago

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Luiz Santiago: Editado de maneira a parecer uma crônica de duas vidas — como se víssemos o que acontece com Omar e Johnny por câmeras diferentes, filmadas e iluminadas de maneira levemente diferentes — Minha Adorável Lavanderia é um filme sobre personagens jovens em fase de amadurecimento e tomada de responsabilidades em diversas áreas.

Eles estão parcialmente escondidos do mundo (embora lidem muito bem com suas questões pessoais, seja com a sexualidade ou com a vida profissional), procuram ignorar ou fingir que não se importam com as adversidades, e enfrentam um conflito de gerações, ora mais forte que eles, ora disposto a ceder, através da esperança, para que assumam o controle dos negócios. A reta final do filme nos indica isso, no cenário cultural, familiar e social, mas não deixa de colocar essas mesmas coisas com uma dose extra de desalento, afinal, o futuro, para a geração jovem dos anos 80, era ao mesmo tempo um mistério e uma porta aberta para tudo. Hoje, olhando para trás, é fácil ver para onde o leque imaginado e real de opções levou aquela geração.

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19º Lugar: Madame Satã

Brasil, 2002 — Direção: Karim Aïnouz
Voto: Rafael Oliveira

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O filme retrata a vida de uma referência na cultura marginal e urbana brasileira, o célebre transformista João Francisco dos Santos — malandro, artista, presidiário, pai adotivo de sete filhos, negro, pobre, homossexual — conhecido como “Madame Satã” e frequentador do bairro boêmio da Lapa, no Rio de Janeiro. A obra mostra seu círculo de amigos antes de se transformar no mito Madame Satã, lendário personagem da boemia carioca.

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18º Lugar: Hedwig – Rock, Amor e Traição

Hedwig and the Angry Inch (EUA, 2001) — Direção: John Cameron Mitchell
Voto: Roberto Honorato, Rafael Oliveira

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Roberto Honorato: Um filme pouco apreciado que merecia ser tão cultuado quanto alguns dessa lista. Adaptado da peça de mesmo nome, aqui seguimos Hedwig, um jovem trans que procura sucesso com sua música. Tudo parece ótimo quando ele se apaixona e decide ter uma vida com Luther, mas para isso precisa passar por uma cirurgia para mudança de sexo. É um filme cheio de boa música, personagens carismáticos e uma história cativante.

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17º Lugar: C.R.A.Z.Y – Loucos de Amor

C.R.A.Z.Y (Canadá, 2005) — Direção: Jean-Marc Vallé
Voto: Luiz Santiago

Fernando Campos: C.R.A.Z.Y – Loucos de Amor é competente em realizar aquilo que se propõe, mas poderia ter sido mais corajoso, por exemplo, o filme em nenhum momento apresenta Zac explicitamente beijando um homem, apenas sugere isso, mas se a intenção era combater a homofobia, talvez, fosse necessário mostrar ao público como um beijo entre pessoas do mesmo sexo é algo natural.

Além disso, o final vai para uma linha que insinua uma ligação espiritual entre o protagonista e sua mãe, algo muito piegas e que não combina com o que já havia sido construído. Mas, apesar disso, o longa denuncia a maldade da homofobia e como isso cega os preconceituosos. Lembrando que, enquanto Gervais não se incomodava com Raymond por brigar, beber e se drogar, achando essas atitudes de um “homem”, comentando até que Zac estava “se comportando bem” após sair de uma briga, ele deixa de ser carinhoso e manda seu filho embora apenas por ser gay. No fim da projeção, as consequências dos atos de cada um mostra com qual filho o pai deveria ter se preocupado e que as verdadeiras atitudes anormais que um ser humano pode ter é o preconceito e intolerância.

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16º Lugar: Clube de Compras Dallas

Dallas Buyer Club (EUA, 2013) — Direção: Craig Borten, Melissa Wallack
Voto: Daniel Tristão

Rafael Oliveira: Apesar da excepcionalidade indispensável do trabalho destes dois atores (sem o qual o longa poderia, facilmente, ter se tornado pouco destacável), Clube de Compras Dallas ainda carrega seus méritos próprios. Embora Jean-Marc Vallée jamais se desprenda do tom de filme-denúncia da obra (o que lhe traz certa redundância) e o roteiro apresente certas repetições que acabam por ressaltar tal redundância, o diretor obtêm êxito ao trazer um certo tom de leveza e humor ácido para sua narrativa, evitando assim o melodrama que, tantas vezes, acaba por atingir produções semelhantes, trazendo assim um bem-vindo contraponto a realidade cruel daqueles que se encontravam contaminados pelo vírus HIV.

E apesar de se estender para além do que precisava, o roteiro também é eficiente na construção/desconstrução da personalidade de Ron Woodroof, transformando-o numa figura extremamente complexa e, surpreendentemente, de fácil conexão com o espectador. Afinal de contas, nós somos ou já fomos alguém como Woodroof, uma pessoa de julgamentos precipitados sobre sua própria realidade e sobre as pessoas que fazem parte dela.

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15º Lugar: Transamérica

Transamerica (EUA, 2005) — Direção: Duncan Tucker
Voto: Rafael Oliveira

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Luiz Santiago: É como assistir a um longo processo de metamorfose. O corpo que não é definitivo, os meios para mudá-lo, o mundo externo que não entende ou não quer entender essas transformações, os amores, os relacionamentos familiares, os compromissos e… a pessoa. O indivíduo que está ali procurando exercer a sua verdadeira parte. É um filme revelador e que traz uma excelente atuação de Felicity Huffman.

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14º Lugar: Monster – Desejo Assassino

Monster (Alemanha, EUA, 2003) — Direção: Patty Jenkins
Voto: Daniel Tristão

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A infância de Aileen Wuornos foi marcada por abuso sexual e uso de drogas. Na adolescência, ela passou a se prostituir para sobreviver. Quando se mudou para a Flórida, conheceu Selby Wall, com que viveu um romance intenso. Certa noite, Aileen foi agredida por um cliente e acabou matando o indivíduo. Este crime deu início a uma série de mortes, fazendo com que ela ficasse conhecida como a primeira assassina em série dos Estados Unidos.

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13º Lugar: Eu Matei Minha Mãe

J’ai tué ma mère (Canadá, 2009) — Direção: Xavier Dolan
Voto: Rafael Oliveira

Luiz Santiago: Eu Matei Minha Mãe é a história de Hubert (Xavier Dolan) e Chantale (Anne Dorval), mãe e filho que possuem uma tempestuosa relação de amor e ódio que ganha e perde peso no decorrer do filme. O roteiro tem uma característica episódica (cujas melhores partes estão no início e no final) e explora os altos e baixos da relação entre a dupla, colocando nas entrelinhas o relacionamento amoroso de Hubert com Antonin (François Arnaud); o destaque um pouco nebuloso para a professora de francês de Hubert (interpretada por Suzanne Clément, uma das atrizes favoritas de Dolan) e a amiga da mãe, que aparece como uma quebra quase tragicômica em dado ponto da fita.

Enquanto raio-X de um relacionamento materno, o filme funciona quase à perfeição. Embora haja exageros melodramáticos (e falo isso no melhor sentido que o melodrama cinematográfico pode suscitar), esse ponto da obra é denso, ousado e marcado por uma verossimilhança impressionante se considerarmos o estilo de direção de Dolan. Cenas como as conversas de Hubert e sua mãe dentro do carro, a “despedida” dos dois no dia em que o jovem vai para o colégio interno e a excelente sequência em que ele, sob efeito de drogas, ele conversa com ela são exemplos de como há muitos elementos realistas na composição do texto e de como esses elementos são bem organizados no todo.

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12º Lugar: Mal dos Trópicos

Sud Pralad (Tailândia, França, Alemanha, Itália, 2004) — Direção: Apichatpong Weerasethakul
Voto: Luiz Santiago

mal do trópicos

Luiz Santiago: O amor transforma. Essa afirmação ilustra muito bem a segunda parte da fita, o momento em que o romance entre os dois rapazes é elevado a tão alto grau de transformação, que não se basta pela carne, pelo toque, pela tara. Seguindo uma lenda nativa, o diretor nos guia por mundo em transformação, e nessa segunda parte do filme as mudanças ocorrem através de uma busca gerada pelo afeto.

A entrada de Keng no coração da floresta é ao mesmo tempo a busca por alguém que se perdeu e um mergulho em seu próprio interior, em seu inconsciente, em sua alma selvagem. A busca pelo outro torna-se no reconhecimento de si mesmo, de suas várias versões, de seus instintos, medos, lembranças. Quanto mais adentra a esse espaço desconhecido, mais “animal” (ou mais “humano”?) ele se torna, a ponto de entender os grunhidos de um macaco, sentir-se no corpo de um animal em agonia (ou seria ele mesmo?), e enfrentar o seu maior medo que ao mesmo tempo é o seu maior desejo. Os animais, que antes só preenchiam o espaço em que vivia a personagem, agora são seus “companheiros de espécie”, estão, como ele, ameaçados por um perigo possível ou prestes a fazer parte de um plano maior, de uma passagem para outro tipo de vida.

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11º Lugar: De Repente, Califórnia

Shelter (EUA, 2007) — Direção: Jonah Markowitz
Voto: Rafael Oliveira

De Repente, Califórnia

Luiz Santiago: Shelter é um filme que entretém e encanta pela beleza de sua composição. Trabalha com um novo elemento familiar sem ressentir-se ou querer adaptar-se às “organizações comuns”. Ele expõe e entrelaça as relações de trabalho e compromisso, renúncia e escolha, respeito e amor. O título em inglês dá uma noção bem clara do ponto para onde tudo converge e qual é o sentido do filme. No fim das contas, um abrigo (amplie essa palavra) é o que se pede, e é isso que paira no ar, após a tela se escurecer na última cena de De Repente, Califórnia.

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10º Lugar: Tangerine

EUA, 2015 — Direção: Sean Baker
Voto: Rafael Oliveira

Lucas Borba: Abordar minorias, seja na realidade, na ficção ou no meio campo entre ambas, acarreta um problema: como apresentar algo ou alguém que poucos conhecem de fato? Sim, porque independente do quanto se possa conhecer algo ou alguém, é fácil viver de estereótipos, de rumores, de uma imagem que nos é vendida acerca do outro e que, no final das contas, só é reflexo do seu isolamento, da sua carência de representatividade social. Essa preocupação, a exemplo do saudoso cinema de John Waters, parece evidente em Tangerine, não apenas no texto, mas em toda a narrativa comandada por Sean Baker.

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9º Lugar: Felizes Juntos

Chun gwong cha sit (Hong Kong, Japão, Coreia do Sul, 1997) — Direção: Wong Kar-Wai
Voto: Luiz Santiago, Guilherme Santiago

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Luiz Santiago: Kar-Wai é um verdadeiro mestre em gerar sentimentos no espectador. Em trazer emoções e amores à flor da pele, sempre olhando para os relacionamentos amorosos em várias de suas nuances, dificuldades e impossibilidades. Em Felizes Juntos, temos um casal que se ama, mas que não consegue ficar junto. A fotografia e trilha sonora do filme são soberbas e as locações em Buenos Aires, na Terra do Fogo e nas Cataratas do Iguaçu são de tirar o fôlego. Um dos filmes que melhor retrata os nós do amor e a dificuldade de se encaixar em uma terra que tudo prometia, mas pouco deu.

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8º Lugar: Moonlight – Sob a Luz do Luar

Moonlight (EUA, 2016) — Direção: Barry Jenkins
Voto: Daniel Tristão, Roberto Honorato, Lucas Thulin

Roberto Honorato: A jornada de Chiron, um jovem negro que lida com a descoberta de sua sexualidade em um ambiente hostil, é minha escolha na categoria “descoberta pessoal” desta lista. Eu poderia colocar outros aqui como o brasileiro Hoje eu Quero Voltar Sozinho, ou o delicado Carol, até mesmo o famoso Brokeback Mountain, mas acho que a história desse personagem Moonlight tem algo especial. Nas mãos de outro diretor, poderia ter sido mais uma obra indulgente e sem emoção, apenas um olhar vazio sobre o tema. Felizmente, Jenkis entrega um filme poderoso e um estudo de personagem que ultrapassa a película e em momento algum deixa de ser provocante.

Ritter Fan:O esmero artístico com Moonlight ajuda a obra a chegar a um belíssimo e raro status de poesia realista em movimento que não se fia em abordagens transcendentais ou fotografia contemplativa para alcançar seu objetivo. Há um cuidado do experiente diretor de fotografia James Laxton (Yoga Hosers) em manter o filme com os dois pés no chão, ao mesmo tempo evocando um ar que resvala na atmosfera documental e mergulhando em cores hipnóticas e de certa forma fantasmagóricas ao lidar com as tomadas noturnas, notadamente as que são banhadas pela luz do luar do título e que carrega tanto simbolismo.

O mesmo vale ser dito para a contribuição de Nicholas Britell (A Grande Aposta) com sua trilha sonora de veia clássica absolutamente envolvente, tomada de cordas belíssimas que são eficientemente sincronizadas à projeção por Jenkins de forma que ela apenas sublinhe, mas não determine sentimentos. O resultado final é, sem medo de errar, uma das mais belas trilhas de 2016.

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7º Lugar: Heartstone

Hjartasteinn (Islândia, Dinamarca, 2016) — Direção: Guðmundur Arnar Guðmundsson
Voto: Luiz Santiago, Guilherme Santiago

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Luiz Santiago: Heartstone é um filme sobre experiências, sobre amizade verdadeira, sobre a arte de conviver, de ter empatia, de amar e ser correspondido, sem que isso tenha obrigatoriamente um lado sexual arraigado. A discussão é plural, visita sob os vários aspectos das relações humanas, da sexualidade, da fraternidade, e discute como o ambiente enxerga e rejeita qualquer coisa que lembre uma diferença em relação ao padrão, mostrando as consequências disso para quem precisa lidar com sentimentos que não consegue assumir.

Raras vezes no cinema próximo à safra deste filme (2016), a temática foi abordada com tanta delicadeza, dualismo de forças, metáforas e poesia. O fechamento do ciclo, na cena final, resume o destino de um dos personagens e de milhões de indivíduos na mesma situação em todo o mundo. Capturados, amaldiçoados e rejeitados, são jogados ao mar e percebem que continuam vivos e que ainda há muito espaço e possibilidades para explorar. Mesmo marcado, o peixe-pedra nada para o desconhecido, talvez para um lugar ou tempo em que sua “esquisitice” seja apenas mais uma dentre tantas existentes de sua superclasse, inclusive entre os belos peixes considerados “normais”. Só mesmo um coração de pedra para lidar com isso repetidamente, por tanto tempo.

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6º Lugar: As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant

Die bitteren Tränen der Petra von Kant (Alemanha Ocidental, 1972) — Direção: R.W. Fassbinder
Voto: Luiz Santiago

Luiz Santiago: Contando com um elenco de altíssima qualidade que faz um trabalho cênico para se aplaudir de pé — destaque absoluto para Margit Carstensen no papel principal – Fassbinder realiza em As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant um filme sobre desejo, poder e amor no seio da elite (ele abordaria o mesmo tema em outro espaço social no longa O Direito do Mais Forte é a Liberdade, em 1975), onde alguma coisa urgente e negativa sempre parece que está para acontecer no espaço barroco e aparentemente calmo que é a casa da personagem-título.

Essa urgência nos é apresentada pelo aborrecimento e possivelmente premeditação da tragédia vinda através do datilografar constante de Marlene (que substitui os tambores messiânicos ouvidos em A Viagem de Niklashausen). A própria personagem serve como ponto final desta fase da vida de Petra, abandonando a máquina de escrever e a presença muda em cena, deixando a patroa que antes a dominava e que de repente resolveu deixar o poder sobre ela de lado, entregue à escuridão de suas lágrimas amargas. A busca por uma nova “senhora”, para todas as personagens do longa, começa quando a luz se apaga.

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5º Lugar: Final de Semana

Weekend (Reino Unido, 2011) — Direção: Andrew Haigh
Voto: Luiz Santiago, Rafael Oliveira

Luiz Santiago: Bem longe do bairrismo do “filme gay” comum, Final de Semana se firma bem na abordagem das relações homoafetivas e na rapidez funcional com que tratamos as pessoas. É como se o diretor chamasse a atenção para um mundo onde tudo é objeto de uso (sexual, comercial, fetichista, exibicionista) e propusesse uma pausa para olharmos uma possível janela que se abre. E como se não bastasse a inteligência do roteiro, percebemos que no meio desse complexo residencial escuro, no início de uma noite qualquer, uma janela aberta sob forte luz amarela denuncia a presença de vida e de esperança.

Mesmo que o conto de fadas não aconteça, algum conto há de acontecer e isso não está na indicação de um final feliz, mas na coragem de expor que um final de semana com alguém que se gosta pode ser o início de um ciclo, com portas abertas para qualquer possibilidade. Quem nunca depositou esperanças e fantasiou após um encontro casual, não vai entender. Mas fica a pergunta: existe alguém que nunca tenha feito isso?

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4º Lugar: Tudo Sobre Minha Mãe

Weekend (Reino Unido, 2011) — Direção: Pedro Almodóvar
Voto: Luiz Santiago, Daniel Tristão

Luiz Santiago: O carinho e delicadeza com que o diretor nos apresenta Lola (personagem muito bem interpretado por Toni Cantó), fora do estereótipo ou demonização que se esperaria para alguém que, muitíssimo bem definido por Manuela, é uma epidemia, dá o tom da reta final de Tudo Sobre Minha Mãe. O amor à vida e às pessoas, o perdão — não o esquecimento — o reencontro e a partida são parte da teia de qualquer relação humana, importando, ao final, o que se vive e os momentos partilhados com alguém. Poucas vezes um filme com este tom e com tamanha tragédia em cena teve um final com essa mensagem.

Mas vejam, não poderia ser de outra forma. Materno desde o título, o longa destaca o cuidado, o renovo, o tempo e a nova vida (literal ou simbólica) que tudo a todos mudam, uma gestação de amor complexo e instigante em película que rendeu a Almodóvar o prêmio de Melhor Diretor e do Júri Ecumênico (!) em Cannes, o Globo de Ouro de Filme Estrangeiro, o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e mais dezenas de outros prêmios em festivais ao redor do mundo. Não é para menos. Tudo Sobre Minha Mãe é um marco do cinema e a inscrição final de Almodóvar no panteão dos mestres. Um daqueles filmes necessários para validar qualquer “carteirinha de humanidade”…

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3º Lugar: Carol

EUA, 2015 — Direção: Todd Haynes
Voto: Rafael Oliveira, Daniel Tristão, Lucas Thulin

Lucas Nascimento:Algumas histórias simplesmente não poderiam ser contadas no século passado. Ainda é considerado um tabu, mas histórias de amor homossexual vão ganhando cada vez mais espaço no cinema contemporâneo, incluindo o americano. Lentamente as histórias do passado vão tornando-se populares, e o romance Carol é o novo longa do gênero, que o diretor Todd Haynes oferece em uma embalagem digna.

Adaptada do livro semi-autobiográfico The Price of Salt de Patricia Highsmith trama é ambientada no período do Natal de 1952, onde encontramos a jovem Therese Belivet (Rooney Mara), uma aspirante a fotógrafa que trabalha como atendente em uma loja de departamentos. No furor caótico do período de compras, conhece Carol Aird (Cate Blanchett), uma mãe rica e casada com o influente Harge (Kyle Chandler). Um romance escondido entre as duas rapidamente se inicia, ao mesmo tempo em que o marido as persegue.

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2º Lugar: Morte em Veneza

Morte a Venezia (Itália, França, EUA, 1971) — Direção: Luchino Visconti
Voto: Ritter Fan, Luiz Santiago, Guilherme Santiago, Lucas Thulin

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Ritter Fan: Querem saber qual seria o resultado da reuniao de Visconti na direção e roteiro de um filme baseado em romance de Thomas Mann, com o grande Dirk Bogarde no elenco e tendo a magnífica Veneza como pano de fundo? E, ainda por cima, contando uma história repleta de tabus e com uma forte mensagem sobre a vida e a morte? Então Morte em Veneza é essencial!

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1º Lugar: Direito de Amar

A Single Man (EUA, 2009) — Direção: Tom Ford
Voto: Rafael Oliveira, Ritter, Roberto Honorato, Luiz Santiago, Guilherme Santiago, Lucas Thulin

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Roberto Honorato: Antes de dirigir o thriller psicológico, Animais Noturnos, em 2016, Tom Ford estreou sua carreira atrás das câmeras com um drama delicado sobre um personagem que lida com a perda de seu parceiro de longa data. Estrelado por Colin Firth, o filme já mostra a dedicação de Ford para detalhes e a sutileza na direção, talvez algo que tenha trago de seu outro trabalho como um dos maiores estilistas da indústria da moda.

Ritter Fan: A estreia de Tom Ford no cinema é absolutamente hipnotizante, desde seu incomparável design de produção, passando por sua direção e pelo elenco afiado, além, claro, da delicadeza da abordagem da história.

Luiz Santiago: Direito de Amar é um filme sobre o amor à vida, a consciência da morte e sua aceitação. Dos belíssimos figurinos ao desfecho da história, vemos um homem atravessar uma separação trágica e com a qual não consegue lidar. A familiaridade do drama aproxima o espectador do protagonista, e então o prazer cinematográfico é completo no final, embora a felicidade e a vida façam-nos questionar, mais do que sorrir, após a última cena.

E aí, o que acharam da nossa lista? Comente as suas discordâncias e concordâncias! Fale sobre os filmes que você já viu, os que gostou e não gostou. Cite também os seus filmes favoritos dessa lista e, para também fazer parte do jogo, crie pelo menos o seu TOP 10 de melhores filmes com temática LGBT!

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.