Veredito Cinéfilo #16 | Os 20 Melhores Filmes de 2019

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  • ATENÇÃO: As despedidas, votos finais e fofuras de encerramento do ano deixaremos para fazer no tradicional Editorial Plano Crítico, dia 31/12, como de costume.

E cá estamos mais uma vez para a lista de melhores do ano segundo… nós mesmos! 😎

As regras para a indicação na lista mantiveram-se tal qual a dos anos anteriores: apenas longas que estrearam nos cinemas brasileiros em entre janeiro e dezembro de 2019. Nada de filmes lançados apenas em home video, vistos apenas em Festivais, Mostras, etc. Contam como elegíveis, porém, os filmes lançados na Netflix brasileira em 2019, assim como na Amazon Prime e outros serviços disponíveis aqui no Brasil.

Participaram da composição desta lista as versões de melhores do ano enviadas por Ritter FanFernando AnnunziataMichel Gutwilen, além da minha própria.

ADVERTÊNCIA: Se você ficou muito triste porque o seu filme favorito do ano não está na lista, considere primeiro se ele se encaixa nas regras expostas acima, mas independente de qualquer coisa, peço que use e abuse do espaço de comentários nessa postagem para você mesmo criar a sua versão! Não adianta chorar, espernear, xingar ou dizer que “parei de ler quando…” porque a nossa lista não mostra exatamente o que você queria que ela mostrasse — e na colocação que você sempre sonhou. Entre também na brincadeira, componha seu TOP 20 e aí, na #pas dos fotogramas a 24 quadros por segundo, vamos falar sobre nossas escolhas, sobre concordâncias e discordâncias diante delas, sobre as produções do ano, sobre o cinema nesse encerramento de década. Bora?

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20. Sinônimos

Posteriormente, Nadav também parece perceber isso conforme o desenvolvimento da trama. A partir de um ponto específico, a história deixa de ser sobre a total negação de um homem para ser sua própria afirmação. Neste sentido, uma cena divisora de águas (o trocadilho não é intencional) é quando Yoav assume até um certo messianismo em uma situação minimalista. Como Moisés, ele libera as catracas do consulado israelense para salvar aquele povo sofrido de uma chuva forte. A partir daí, os já deturpados valores da Revolução Francesa são definitivamente rejeitados, bem como a caridade burguesa, que parece mais preocupada em se apropriar de seus relatos pessoais. No fim, Yoav deve fazer a travessia pelo deserto sozinho para se encontrar.

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19. A Vida Invisível

Como a música para piano que exige silêncio em muitos momentos da obra — o último dele não totalmente aproveitado pelo diretor para ligar alguns pontos, vale dizer –, o espectador encontra aqui tempo para pensar, para acompanhar o sofrimento e a luta diária dessas mulheres comuns forçadas a viver invisíveis ou afastadas umas das outras. Para o momento em que chega aos cinemas (2019), especialmente no Brasil, o filme tem um significado imenso e triste, porque os valores que garantem a vida invisível para muitas mulheres recebem hoje louvor e grande exposição pelo país afora. O pesar e a raiva aqui gerados por esta situação alcança um patamar maior, de luta, tanto de homens quanto das mulheres, para tornar visível todas as vidas. E para que ninguém mais seja privado de se conectar, amar e viver ao lado de quem ama.    

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18. Ford vs Ferrari

Ford vs Ferrari é uma fidelíssima ficcionalização da famosa guerra automobilística transcontinental dos anos 60 que sabe equilibrar a tensão das corridas com o eterno drama humano da perseguição de seus objetivos, custe o que custar. Impossível sair indiferente de uma história tão bem contada como essa.

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17. Vox Lux: O Preço da Fama

Vox Lux é um grito de atenção, um pedido de socorro, uma tentativa de fazer o mundo girar um pouquinho mais devagar. E, curiosamente, para pedir mais calma, Brady Corbet usa um ritmo alucinante, que nos faz ficar de coração pulsante ao final, mas talvez não da maneira que imaginávamos.

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16. Toy Story 4

Toy Story 4 é mais um triunfo da Pixar e a prova cabal de que fazer continuações não precisa ser apenas o apertar de um botão para gerar mais do mesmo para um público que absorverá o conteúdo de qualquer jeito. Se é para o infinito e além que Toy Story caminha, então que venham mais capítulos assim.

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15. Amor Até as Cinzas

Amor até as Cinzas nos oferece um olhar nostálgico, mas apreciativo de rincões de um país que mudou muito em muito pouco tempo, usando uma peculiar jornada romântica como pano de fundo. Ou talvez vice-versa. Seja como for, Jia Zhangke mais uma vez triunfa.

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14. Entre Facas e Segredos

Mesclando os clássicos enredos de “Quem Matou?” com os clássicos ingredientes da filmografia de Rian Johnson (planos muito bonitos e alguns bem diferentões, o que é sempre ótimo de se ver; composição fotográfica quase teatral e direção de arte impecáveis, especialmente em interiores) e um mistério que está o tempo inteiro trazendo revelações bombásticas, Entre Facas e Segredos é um suspense muito divertido, mas que para alguns espectadores pode diminuir bastante a euforia no terceiro ato. Eu não tive assim tanto problema no desfecho, mas a mudança de tom e ritmo do filme são grandes ali, o que para mim continua fazendo parte desse Universo, só que em um momento bem diferente para todos os personagens. Eu gostaria que o jovem Mark Gatiss Jaeden Martell não fosse escanteado aqui, pois seu personagem é o que mais destoa em termos de aproveitamento no filme e não por falta de importância (até a bisa K Callan tem melhor aproveitamento que o garoto), algo que é um pecado incômodo num filme desse porte, mas também não é nada que impeça o aproveitamento real da história. Prepare-se para uma jornada detetivesca interessante. Certamente um dos melhores e mais divertidos filmes de 2019.

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13. Bacurau

Em meio a retomada de uma herança tipicamente brasileira e a urgência de ameaças externas que promovem mais e mais mistérios no decorrer do primeiro ato, Bacurau cresce, mesmo pequena, em vista da sua resistência, executada da maneira como a cidade fora ensinada. Dos americanos, Mendonça e Dornelles só querem mesmo o John Carpenter e o cinema do país – como aqueles discos voadores de filmes antigos -, e para os assimilar a um novo cinema, puramente deles, em características, em gêneros, em sentimento, em personagens e em raiva, muita raiva. O cerco, por sua vez, é uma repaginação de um dos primeiros clássicos do cineastas – relembrado também na morte de um menino. Porém, a execução segue um raciocínio que é brasileiro, um legado que é severino, uma dor que é do sertão. Enquanto o artista americano se entreteria mais – como o seu povo bem conhece – com a violência  – , o brutal gera impacto neste longa pela secura dos cortes. Existe a catarse e ninguém se diverte com ela, mas se engrandece, pois é parte de um museu que o povo não tem vergonha de apresentar, porém, forasteiro algum se importa em conhecer. Acácio (Thomas Aquino) não quer ser Pacote, mas precisa ser Pacote. Já Carpenter nem mesmo é mais Carpenter, entretanto, João Carpinteiro – como aponta o nome da escola. Esse cinema brasileiro, por isso, mais do que nunca, não é para gringo ver, aplaudir e premiar. É cinema para gringo temer.

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12. Coringa

Depois de ser visto quase o tempo inteiro em meio às sombras, de costas, atrás de objetos ou barreiras, Arthur Fleck acaba desaparecendo. Em seu lugar surge o palhaço do crime, a quem a câmera de Todd Phillips captura de maneira livre e não só em closes: ele é inserido em grandes quadros, num espaço centralizado e, pelo menos uma vez, num plano engrandecedor de baixo para cima (contra-plongée), mostrando a diferença entre o indivíduo que vimos no início e o vilão que vemos no final. É um filme perturbador, diferente das adaptações de quadrinhos a que estamos acostumados, mas que tem tudo a ver com o que o Coringa é e representa. Um estudo de personagem e de seu ambiente que faz todo o sentido ter nascido em tempos como os nossos. Um retrato medonho sobre a crueldade em seu nível mais básico e sobre como a loucura pode estar em qualquer lugar, especialmente nos risos desesperados, exibidos a qualquer custo. É um lado extremo e aterrador da vida, mas é a vida. Então que entrem os palhaços.

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11. Meu Nome é Dolemite

Dolemite foi um dos símbolos da comunidade negra no cinema, e mesmo que suas obras não sejam politicamente corretas, foi um dos poucos corajoso o suficiente para falar sobre temas como racismo, brutalidade policial e as condições dos subúrbios negligenciados pelo governo (“Dolemite para Presidente” nas paredes). Não à toa que o New York Times considerou o filme original de Dolemite, lançado em 1975, o “Cidadão Kane da blaxploitation“. E é difícil discordar quando lembramos que Rudy Ray Moore foi responsável por contratar um elenco negro e sem experiência, além de ajudar a financiar seu longa do próprio bolso. Irreverente, com certeza, mas sem sombra de dúvida, relevante e merece ser celebrado.

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10. Ad Astra

No mundo imaginário que Gray apresenta – com co-autoria no roteiro de Ethan Gross -, os seres humanos já colonizaram a Lua e até Marte, desbravando, pois, territórios nunca antes explorados. Mesmo assim, como cenas pontuais descrevem – vide a mera existência de piratas -, apesar da conquista de novos mundos, a humanidade, em simultâneo, permanece perdida – uma marciana, por exemplo, comenta sobre nunca ter conhecido a Terra. Por pouco tempo, consequentemente, Roy McBride estará em território terráqueo, já que sua jornada encontra-se no Espaço. O resgate, contudo, é da conexão do homem com a Terra, com o próprio homem, porque, do ponto de vista de Gray, o ser soa cada vez mais distante das suas raízes, do contrário ansiando grandezas vazias. Ora, a missão do protagonista é justamente impedir um apocalipse. Logo, por meio da conjugação do maior escopo narrativo do seu projeto com o menor, pretende-se uma reconciliação no cinema de Gray que busca a nossa reconciliação com nós mesmos. O seu longa-metragem, assim sendo, nos leva aos astros, mas para nos incentivar a viver e amar por aqui, nesse milagroso planeta azul.

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9. Assunto de Família

Assunto de Família constrói, desconstrói e depois constrói novamente o conceito da família e, com imagens evocativas de um lirismo emocionante, nos faz a pergunta: o que é mesmo uma família? Mas, apesar de posar a pergunta e deixá-la flutuando ao longo da narrativa, apenas flertando com textos expositivos ao final, Koreeda felizmente nos deixa sem resposta. Aliás, sem resposta não. Ele nos deixa com a munição necessária para chegarmos às nossas próprias conclusões, mas provavelmente não sem que estejamos dispostos a sacrificar convenções.

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8. O Homem que Matou Dom Quixote

O espectador precisa entender que não se trata de um filme comum. Estamos falando de Terry Gilliam, certo? A proposital loucura e a liberdade criativa do diretor seguem em alta e nos traz não uma adaptação fiel do famoso livro de Miguel de Cervantes, mas uma leitura que, sem dúvida nenhuma, captura a alma do livro. Algumas “corridas para a liberdade da mente“, no miolo da fita, até poderiam ser facilmente cortadas da edição, mas esta é uma observação zelosa demais frente à organicidade, o que não atrapalha o andamento do filme, embora tire algumas lascas de seu brilho. Se alguém algum dia perguntar “por quê” filmar Dom Quixote e “por quê” logo em uma Era onde novos representantes da loucura e da fantasia são tão mais atrativos para o grande público, que seja mostrado esse filme como justificativa. A jornada de um homem que quanto mais louco e que quanto mais sofre, mais gostamos dele. A jornada de um sonhador. Alguém com quem dividimos, ao menos por um momento, a forma infantil e criativa de olhar o mundo. O olhar nada comum de Terry Gilliam para aquele que envelhece, aquele que imagina, aquele que cria. Já a racionalidade que não permite a viagem para este mundo é a entidade incapaz de incorporar o fantástico em sua persona. A verdadeira identidade do homem que matou Dom Quixote.

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7. Dor e Glória

Apesar dos problemas pontuais, Pedro Almodóvar mostra maturidade em Dor e Glória, assim como a conclusão do arco de Salvador. Esteticamente, o diretor constrói uma obra costumeiramente cativante, mas o destaque aqui está no roteiro tematicamente rico, trabalhando aspectos pessoais e gerais com igual profundidade, abordando a velhice com respeito e otimismo. Definitivamente, o tempo fez bem para Almodóvar.

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6. Cafarnaum

Denso e cheio de situações que nos fazem pensar na vida de milhares de crianças ao redor do mundo, Cafarnaum é uma obra sobre realidades trágicas que podem mudar quando a situação desses indivíduos é reconhecida e eles encontram a oportunidade para combatê-las, começando com o reconhecimento de si mesmos como cidadãos. A este ponto chegamos: além da miséria social, pessoas não são tratadas como pessoas. Por quê? Porque lhes faltam um papel permissivo que as oficialize como tais. E a isso chamamos de civilização… O horror.

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5. História de um Casamento

O que os dois fazem aqui pode ser facilmente considerado a atuação de suas carreiras, entregando tanto com pouca expressão, exaltando seus pontos positivos e negativos em um trabalho mais contido que fica ainda mais impressionante considerando como o filme se aproveitou de cada segundo dos atores em sequências sem corte envolvendo apenas longos monólogos. Sensível até no meio de toda a burocracia, Histórias de um Casamento é facilmente um dos melhores, se não o melhor trabalho de Noah Baumbach, arriscando explorar um dos episódios mais delicados de qualquer relacionamento, sem deixar de lado a importância do afeto e da empatia quando lidamos de assuntos como esse.

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4. A Favorita

A Favorita é um filme sobre ambição e sobre o que alguém pode fazer para conseguir o que quer. O tema não é novo em dramas históricos, mas aqui ganha um excelente e cômico tempero ligado à sexualidade da rainha e suas protegidas, além de nos fazer acompanhar um governo tipicamente manipulado, tendo na maior voz do país uma frágil (de saúde e emoções) e enciumada figura para quem o poder era um brinquedo difícil. Lanthimos acertou em cheio no seu modo agressivo e um tanto cruel de filmar histórias sobre laços entre pessoas de comportamento difícil. Um modo que combina bem com o tema de A Favorita, onde o maior destaque de todos, por trás da pompa, riqueza e problemas do Reino, é a miséria e a profunda necessidade de cada um dos indivíduos. A boa e velha condição humana, no fim de tudo.

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3. Era Uma Vez em… Hollywood

Reescrever a História, na ficção, é uma tarefa árdua, porque o que você vai entregar no lugar não pode bater o martelo apenas pela mudança de um grande ato. E o Tarantino faz a mudança abrindo possibilidades e juntando todas as pontas de uma forma que a gente toma fôlego e acorda, como se um conto de fadas realmente tivesse acabado, fazendo valer o título de duas formas: pelo que ele conta (conteúdo nostálgico, marcando uma era) e também pelo estilo de contar essa história (forma épica), piscando para o Sergio Leone… É um filme maduro demais, com alguns tropeços no caminho que não dá para ignorar, mas com um baita resultado final.

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2. Parasita

De Parasita eu só não gosto do final. O distanciamento do olhar impiedoso do diretor para algo um pouco mais didático e de braços abertos para o verdadeiro tema do conflito do filme trai parcialmente as consequências que o texto reserva para esses personagens. De certa forma, há uma dupla via de interpretação para o que nós vemos no final. Ainda assim, a permissão desse “sonho/desejo” ou de um real “olhar para o futuro“, nessas cenas, interrompem uma jornada quase cínica de pertencimento e não-pertencimento a certas camadas sociais, frustrando um pouco certos caminhos do roteiro. O filme, no entanto, se mantém em altíssimo patamar. Uma imensa surpresa de Bong Joon Ho, que desafia um pouco a si mesmo e problematiza social e emocionalmente o status quo no mais amplo aspecto possível: afinal, quem, nos arranjos de nossa sociedade, é o parasita de quem?

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1. O Irlandês

Na reflexão sobre a vida, sobre o fim de uma Era, sobre a velhice e o contraste da essência calejada de um indivíduo com os novos tempos em torno dele (notem que, nesta mesma safra, Era Uma Vez em… Hollywood e Dor e Glória fazem exatamente a mesma reflexão, em tempos e abordagens distintas) temos por fim a divulgação de uma lenda contrastada com o medo final de seu narrador… e o filme sobre esse dilema, mostrando os últimos momentos de alguém com um passado grandioso. Este é O Homem Que Matou o Facínora da nossa Era, com uma revisão de carreira no crepúsculo de uma década, na mudança do público e do jeito de se produzir, exibir, entender e discutir a Sétima Arte. O Irlandês é um filme histórico feito sob medida para quem realmente ama CINEMA. A obra que concentra a essência do trabalho de Martin Scorsese e apresenta uma linha de abordagem que será melhor compreendida, fortalecida e relevante à medida que o tempo passar. Em outras palavras, eis aqui um clássico.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.