Crítica | A Casa Amaldiçoada (1999)

Em A Poética do Espaço, G. Bachelard explana que a casa é por excelência, o espaço da intimidade, “locais que estão em nós tanto quanto estamos nelas”, pois “nos faz aprender a morar em nós mesmos”. Vejamos o que interpreta o teórico e poeta francês, vinculado ao campo da filosofia da ciência. Em seu ponto de vista, a casa enquanto espaço habitado nos remete ao conceito de origem, ao demonstrar o enraizamento do homem diante da criação de um espaço de pertencimento. Em suma, ao longo da sua trajetória, a casa é o ambiente responsável por afastar contingências, tornando o ser humano protegido das tempestades do céu e da vida, além de impedir que seja uma entidade dispersa.

Diante do exposto, antes de ser “jogado no mundo, o homem é colocado no berço da casa”. A afirmação, no entanto, é coerente quando nos referimos ao caótico, gélido, em suma, “gótico espaço” habitacional descrito ao longo das páginas do romance A Assombração da Casa da Colina, ponto de partida para o roteiro de A Casa Amaldiçoada? É o que saberemos ao refletir sobre o filme dirigido por Jan de Bont, cineasta que teve como guia o roteiro de David Self, dramaturgo que tal como os realizadores de Desafio do Além, também se inspirou no livro da escritora Shirley Jackson, para trazer, em 1999, um olhar “atualizado” para as narrativas de “casas assombradas”.

No filme, um grupo de pessoas selecionadas para a realização de um experimento sobre a insônia, marcado para acontecer na mansão Hill House, sequer imagina a mudança radical em suas vidas diante dos segredos que emergem deste local isolado, conhecido por ter segredos e um misterioso passado. O estudo, na verdade, revela-se outro, pois ao passo que a narrativa avança, os personagens descobrem que a proposta é estudar as variáveis que estão relacionadas ao medo.

Assim, para a condução da experiência, o grupo consta dos insones Nell (Lili Taylor), Theo (Catherine Zeta-Jones), Luke (Owen Wilson) e David Marrow (Liam Neeson), o responsável pela pesquisa em questão. Nell, a “Eleanor” da vez, sente que há uma estranha ligação com a casa adornada por elementos góticos e sombrios, além de reconhecer que na história dos habitantes anteriores há imprecisões que precisam ser reveladas para o bem de todos. A sensação de alerta é constante e o perigo demonstra-se cada vez mais proeminente.

Diferente da adaptação comandada por Robert Wise, a versão de 1999 deixa de lado toda a sutileza dos elementos sugestivos e psicológicos para adentrar pelo campo do espetáculo visual, com efeitos visuais que tornam mais sofisticadas as cenas com paredes trêmulas, estátuas em movimentos e portas que além de ranger, comportam-se como elementos vivos e algozes. Isso deveria ser bom, mas na verdade atrapalha ainda mais o roteiro estéril de David Self, erguido por uma estrutura narrativa pouco emocionante, fragilizada por personagens que não colaboram para o estabelecimento da catarse.

A direção de fotografia, assinada por Karl Walter Linderlaub, capta os espaços com eficiência, ambientes visualmente sofisticados graças ao trabalho de Eugenio Zanetti no design de produção. A sua equipe, em especial, os cenários de Cindy Carr, entregam um trabalho elegante para ser contemplado pelo espectador, somado à sempre competente condução musical de Jerry Goldsmith, mas justaposto, todos os setores que erguem visualmente a narrativa não conseguem dar conta de humanizar o enredo, tampouco aprofundar psicologicamente os personagens e suas necessidades dramáticas.

De volta às considerações de Gaston Bachelard, toda “casa carrega as marcas do lugar de origem ao qual tivemos que renunciar ao sair de casa, e, nesse sentido, ela é um lugar paradoxal onde se revela o contato com a origem, mas também a perda da origem”. Nesta análise dialética, a casa se revela como um ambiente “de desejo, mas também de luto, do mesmo, mas também do heterogêneo”. Em A Casa Amaldiçoada, o ambiente dissocia os personagens de qualquer sensação de conforto e acolhimento, mantendo-se apenas de um lado desta interpretação dialética: a dor, o luto, o sofrimento e a escuridão são as palavras-chave que definem a ameaçadora construção arquitetônica, habitada por estranhas presenças sobrenaturais dispostas a deixar os que insistem em adentrá-la com as suas vidas ameaçadas.

A Casa Amaldiçoada — (The Hauting) Estados Unidos, 1999.
Direção: Jan de Bont
Roteiro: David Self
Elenco:  Alix Koromzay, Bruce Dern, Catherine Zeta-Jones, Liam Neeson, Lili Taylor, Marian Seldes, Owen Wilson, Todd Field, Virginia Madsen
Duração: 112 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.