Crítica | Dreadstar: A Odisseia da Metamorfose

estrelas 5

Eu conheci o universo de Jim Starlin em Dreadstar apenas em 2012, após um presente recebido de meu mestre e também editor aqui do Plano Crítico, Ritter Fan. No Omnibus Vol. 1, publicado pela Dynamite, temos reunidas as edições de #1 a 12 da revista Dreadstar, publicação que narra a luta do Guerreiro das Estrelas e de seus amigos contra as forças da Instrumentalidade, uma facção cesaropapista, falocrata, violenta e fascista que domina uma boa parte do Universo e luta incessantemente para conseguir a posse do restante que ainda falta. Mas antes desse estágio das coisas, a Via Láctea ainda existia e a maior parte das personagens de Dreadstar sequer pensavam em existir. É este Universo “antes de tudo” que Jim Starlin nos mostra em A Odisseia da Metamorfose, o livro que dá origem a Dreadstar e lança as sementes para a sua luta em um futuro dali a milhões de anos.

Publicada originalmente na Epic Illustrated #1 a 9, a Odisseia acompanha, em sua maior parte, a preparação para o fim da Via Láctea. No Capítulo I da aventura, já temos presente a derrocada de um planeta de sábios seres humanoides semelhantes aos nossos faraós, o planeta Orsiros. Starlin toma a liberdade de estreitar semelhanças entre coisas por nós já conhecidas e o contexto cósmico de sua saga, a começar pelo nome do planeta, que tanto pode ser uma indicação à ilha grega de Syros ou ao deus Osíris, um dos mais antigos habitantes do panteão egípcio, o deus responsável pela vida no além.

Em seguida temos o protagonista da história, Aknaton. Como é possível ver na página ao lado, tanto a representação física quanto o próprio nome da personagem é de um faraó, um líder importante da 18ª Dinastia Egípcia, que foi responsável por diminuir o poder dos sacerdotes e dar ao rei uma importância maior. Mesmo não adentrando ao campo da descrença ou abandono do mundo divino, tanto o Aknaton da nossa história quando o da Odisseia da Metamorfose se dedicou para que a razão tivesse importância e fosse posta em prática.

De maneira bastante objetiva, o autor consegue criar em poucas páginas um grandioso cenário de destruição. Os misteriosos zygoteanos espalham o seu ódio e mortandade pelas galáxias, chegando a Orsiros, o planeta das ciências, riquezas naturais e maravilhas arquitetônicas. A épica batalha acontece, os zygoteanos são vencidos, mas obviamente, por pouco tempo. Sabendo da carnificina iminente, os orsirosianos criam então a Trombeta do Infinito, um instrumento capaz de pôr fim a todo o malefício causado pelos zygoteanos, mas a um custo tremendo: a destruição de toda a Via Láctea.

O leitor pode perceber que não há espaço para romances, heroísmos baratos e vilões de fáceis. Jim Starlin opta por um caminho bastante pesado e caótico, pontuado de morte e sofrimento. O primeiro volume de OdM é certamente uma das introduções mais densas e poderosas que eu já pude ler nos quadrinhos, porque cria desde o início uma atmosfera trágica, que por incrível que pareça, se torna pior a cada página.

Aknaton sai pelo universo e em quatro planetas diferentes realiza coisas que em um futuro próximo lhe daria a oportunidade de se encontrar com os quatro seres da Via Láctea capazes de dar início a uma nova civilização cósmica, contando com o que há de melhor em cada uma de suas espécies. É aí que temos a origem futura de Za, Vanth, Juliet (uma terráquea) e Whis’par.

O ritmo da história não é nada truncado e de maneira muito natural vemos essa viagem épica de Aknaton pelo Universo, preparando o terreno para o fim de tudo o que existe. Até o capítulo VI, viajamos de planeta em planeta resgatando pessoas escolhidas e lutando  contra as forças inimigas. A partir do livro VII (e o número não poderia ser mais simbólico) Vanth Dreadstar e Aknaton visitam o planeta Delluran a fim de tomar posse de um amuleto necessário para “destravar” as magias que protegem a poderosa e mortal Trombeta do Infinito. E então tem início a uma das mais legítimas crises de consciência da história.

Jim Starlin deixou bem claro em entrevistas que a base para suas narrativas são sempre metáforas, críticas, paródias ou releituras de algo que lhe acontece ou que ele teve a oportunidade de presenciar. No caso de A Odisseia da Metamorfose, ele disse ter trazido sua visão como ex-soldado da Guerra do Vietnã. A questão moral que põe em xeque a destruição da Galáxia ganha contornos bem mais complexos, já que além de Aknaton existem mais quatro espécies de vida na história, logo, seria necessário uma cumplicidade plena de todo o grupo para que o plano desse certo. Mas aí está o problema: como fazer tantas pessoas concordarem em destruir sua “casa” para barrar o avanço de uma raça que só chegaria ali no futuro? Os habitantes desse lugar não tinham direito de escolha? E se eles preferissem morrer lutando em vez de serem destruídos sumariamente? A lista de perguntas aumenta a cada página e mesmo a tocante conversa de Aknaton com Ra, no capítulo IX, nos deixa pesarosos quanto ao futuro da humanidade e a legitimidade de tudo isso. Destruir para salvar é possível?

Sim… por um tempo, a utopia brotou, mas o mal também floresce de nobres raízes. Assim era o destino de Zygotea.

Todo bom e grande vilão merece uma boa história. Em A Odisseia da Metamorfose, a dificuldade em fazer surgir uma trama capaz de dar conta de uma raça inteira é vencida por Starlin no capítulo X da série, Réquiem. Nele, temos narrada a triste história de Zygotea, que passa de um planeta incrível e muito parecido com a Terra (pelo menos em recursos e algumas realizações científicas e governamentais) para um lugar desolado por seus próprios habitantes, pessoas que durante séculos conseguiram explorar tudo o que o planeta poderia oferecer até que a penúria absoluta chegasse.

Na 12ª edição de Dreadstar, também presenciamos uma volta ao passado, uma mostra do que aconteceu antes de o Lorde Papal se tornar o ser abjeto que é em toda história, e essa visita a um outro tempo é recheada de emoção, dor e vontade de vingança. Aqui em Odisseia da Metamorfose, a visão do que um dia foi Zygotea nos faz lembrar do que um dia foi Orsiros e a própria Terra, planetas já destruídos a essa altura da narrativa. E claro, é possível enxergar além das páginas dos quadrinhos e ver uma importante semelhança com a nossa própria civilização. Jim Starlin cita coisas tão comuns em nossos tempos, como vícios, esgotamento de recursos naturais, desregrada exploração da natureza, segregações, desrespeito a crenças pessoais, ascensão de líderes ou grupos governamentais fasci-belicistas, impunidade, despolitização da população comum…

A conjunção desses fatores aliados ao passar do tempo e o desenvolvimento ininterrupto fez com que os zygoteanos se tornassem uma raça de exterminadores cruéis. É aquela história de querer apagar qualquer semelhança que o outro tem com aquilo que eu fui um dia. Mas, como o próprio autor diz, o ato de agir assim já é uma lembrança… É de se imaginar a amargura e a tristeza do povo zygoteano, por isso não espanta (embora não seja jamais uma justificativa) que a atividade sublimadora desses guerreiros fosse o extermínio, como uma forma de vingança velada pelo que não tinham mais, uma reação violenta por puro recalque.

Dos capítulos XI ao XIII, temos os preparativos finais para o toque da Trombeta do Infinito. Após a análise pessoal e a visão dos vilões, é como se não houvesse muito mais o que fazer a respeito e os protagonistas entram em uma espécie de resignação apática, caminhando de maneira quase robótica para dar cabo de um serviço que deveria ser feito. Seria essa a atitude comum de um grupo de pessoas destinadas a matar uma galáxia inteira? E então, na atmosfera do planeta Sonho Findo, o esperado acontece. As metamorfoses, a nova ordem, as sementes do futuro são plantadas.

O bem venceu?

O último capítulo da Odisseia é chama-se Consequências, e nele temos a quase pessimista visão de Jim Starlin para todo “grande dever em prol de um grande número de pessoas“, delineando o lado utilitarista da narrativa. Muito mais do que nos livros anteriores, a arte ganha uma cor mais fria e sombria e o roteiro ganha ares de “o que fizemos?”. Sabemos exatamente o que acontece depois desse holocausto e percebemos que o exemplo disso não serviu para as gerações futuras, que acabaram repetindo o mesmo erro, como se a auto-destruição da matéria viva fosse uma ordem muda da própria existência.

Nesse ponto, é legítimo trazermos a já confessa inspiração do autor na Guerra do Vietnã, mas também em outros massacres e holocaustos humanos ocorridos em nossa era e que por mais terríveis que tenham sido, parecem não ter ensinado nada ao homem, além de ajudá-lo a conviver com o horror. Essa banalização do mal e o questionamento da civilização juntam-se a uma duvidosa promessa de futuro. O que vale a pena fazer daqui para frente?

Junto com outras sagas filosóficas, políticas e sociais nos quadrinhos como A Trilogia Nikopol O Incal, só pra citar duas que me vêm imediatamente à mente, A Odisseia da Metamorfose é um retrato curioso e profundo da nossa existência na Terra, não como indivíduos isolados, mas como seres sociais. Sem sombra de dúvidas, uma atemporal obra-prima dos quadrinhos.

A arte de Jim Starlin dá o suporte necessário para a narrativa. Até o 4º livro em preto e branco e daí para frente em belíssimo colorido, os desenhos fazem jus ao caráter épico do que está sendo narrado. Não apenas as caracterizações humanoides e alienígenas mas a diagramação das páginas e efeitos sublimes de arte por quadro, como as do capítulo IX (Absolvição), são um verdadeiro enlevo artístico e é num desses momentos que nos orgulhamos em ser leitores de histórias em quadrinhos.

A Odisseia da Metamorfose é uma obra além do seu tempo e se torna, a cada ano, mais real e viva. Jim Starlin é o tipo de criador que podemos chamar de gênio, não só pela excelência em seu trabalho, mas pela capacidade de fazê-lo se enquadrar em mais de uma realidade.

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Nada voltará a ser como antes. Restaram apenas o vazio, as memórias, a dor e a culpa. As noites que estão por vir guardam uma promessa de pesadelos e horror… e as chances de absolvição parecem remotas. Pois os pecados do passado viverão para sempre dentro do coração, e os condenados devem caminhar sempre sozinhos.

Sempre sozinhos.

Dreadstar: A Odisseia da Metamorfose (Metamorphosis Odyssey) — EUA, 1980 – 1981
Publicação original: Epic Illustrated #1 a 9
Publicação no Brasil: Editora Devir
Roteiro: Jim Starling
Arte: Jim Starling
128 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.