Crítica | Homem-Aranha & Deadpool: Amor de Irmão Tá Valendo Mais

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__ Se você não parar de se contorcer eu vou acabar “desembainhando a minha Katana” bem no meio dos seus ovos aracnídeos. E por “Katana” eu quero dizer…

__ Qual é o seu problema?!?!?!

Existem coisas nos quadrinhos que funcionam pela excelência com que o roteiro trabalha os personagens e o contexto em que eles interagem. Também existem situações onde tudo parece ser tão louco, tão bizarro e tão “forçado” (em um bom sentido de narração cheia de impossibilidades) que a coisa acaba funcionando pelo exotismo. Esta, na maioria das vezes, é a realidade dos roteiros em que Deadpool está envolvido. Mas existe um momento bastante especial para ele. E isto se dá toda vez que o Mercenário Tagarela é colocado ao lado de heróis com um pouquinho a mais de juízo que ele, o que pode gerar situações absolutamente incríveis, como as de sua parceria com o Gavião Arqueiro ou histórias muito boas, como as de sua parceria com o Capitão América (na época, um vovô). No caso da união com uma “velha paixão” (todo mundo sabe que o Deadpool tem um antigo e imenso crush no Homem-Aranha), era de se esperar um acúmulo de todas essas caraterísticas recorrentes nas HQs do personagem. E sim, existe essa aglutinação de elementos aqui. Mas o roteiro de Joe Kelly ignorou todo tipo de coesão possível, escrevendo uma trama que começa muito bem, mas cai, vítima de sua própria megalomania.

Homem-Aranha e Deadpool juntos são muito engraçados, pelos mais diversos motivos. A relação heroica, fraterna e também sexual (por parte de Deadpool) deixa tudo muito divertido de se ler, e não é diferente no início desse arco Amor de Irmão Tá Valendo Mais (2016), que estreia o título Spider-Man/Deadpool. O formato de narração para a história, como sempre, traz bagunças cronológicas, mistura de realidades, tempos, espaços, personagens e quebras de quarta parede, tudo isso contribuindo para nos arrancar boas risadas e nos fazer esperar por uma investigação impossível.

Roteiros anteriores de série do Tagarela já mostraram que é perfeitamente possível seguir por este caminho envolto em violência, sem ter que acrescentar uma miríade de personagens, basicamente a troco de nada. Este é o grande problema dessa aventura. Tem gente demais, criaturas demais e não é preciso ter um olhar crítico a respeito de construção narrativa para entender que isso atrapalha o andamento da história, visto que essas várias camadas não se fecham bem, nem ganham o devido espaço no arco. O resultado? Falta coisa de um lado e sobra coisa do outro.

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Deadpool criou o meme “queria tá assim com o menino que eu gosto“.

A primeira e melhor revista de todo o serial começa com uma luta da dupla dinâmica diante de “Dormammu”, onde se destacam os melhores diálogos de Joe Kelly, as melhores provocações e marcação do tom para a saga. Nessa edição, encontramos de tudo, coisas que vão de violência a clichês e brincadeiras com as muitas manias dos quadrinhos, assim como particularidades e blocos destinados a cada personagem. A ideia de um “perigo nas sombras” pode confundir o leitor, mas nesse momento, é apenas uma confusão ligada à curiosidade. Mais para frente, infelizmente, esse tal perigo ganhará forma e estará na lista de coisas que jamais deveriam ter acontecido à história.

À medida que as edições avançam, o plano que estava funcionando muito bem, em um nível pessoal (Aranha-Deadpool), com uma tentativa de aproximação do Mercenário com o Amigão da Vizinhança, vira um embolado épico que envolve visitas a dimensões infernais/dos mortos/oníricas e uma profusão de vilões, mocinhos tornados vilões e explicações cansativas, inclusive fugindo daquilo que uma revista do Deadpool deveria ter. A nossa sorte é que a arte de Ed McGuinness e a sempre notável finalização de Mark Morales (com John Livesay apenas na edição #8) mantêm a ação funcionando em seu caráter violento, espalhando sangue e vísceras ou outros fluídos pelas páginas. Revista do Deadpool que não tem sujeira e diversos quadros asquerosos não é uma revista do Deadpool. Mas acompanhando toda essa boa composição artística, temos um roteiro que só garante uma parte daquilo que deveria ter em uma boa história.

O excesso de personagens e a trama central progressivamente truncada e jogada como resolução corrida para o penúltimo e último número são a verdadeira pedra no sapato do volume. Evidente que ainda é possível se divertir  e rir com gosto. No todo, a história consegue se manter levemente acima da média, mas se pegarmos apenas o tipo de promessa que a abertura do arco nos trouxe e compararmos com o restante da obra, com certeza vai haver frustração. Quem dera a loucura inicial tivesse sido mantida.

Homem-Aranha & Deadpool: Amor de Irmão Tá Valendo Mais (Spider-Man/Deadpool Vol.1 #1 a 5 e 8: Isn’t It Bromantic?) — EUA, 2016
No Brasil: Homem-Aranha & Deadpool n°1 (Panini, 2017)
Roteiro: Joe Kelly
Arte: Ed McGuinness
Arte-final: Mark Morales (com John Livesay apenas na edição #8)
Cores: Jason Keith
Letras: Joe Sabino
Capas: Ed McGuinness, Mark Morales, Marte Gracia, Jason Keith
Editoria: Jordan D. White, Nick Lowe, Devin Lewis
144 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.