Crítica | O Fio das Missangas, de Mia Couto

“A missanga, todas a veem. Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas. Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo.” – Mia Couto, no conto O Fio das Missangas

Mia Couto, galardoado em 2013 com o Prêmio Camões, afirmou em seu discurso de agradecimento que mais importante que celebrar uma obra é pensar no que ainda há por se fazer.  O moçambicano, nascido na cidade de Beira em 5 de julho de 1955, certamente ainda tem muito a realizar em sua carreira de escritor, mas a honrosa distinção a ele feita atesta que sua obra já é bastante admirada tanto em meios acadêmicos quanto pelo público em geral. Assumidamente um poeta em prosa, Mia Couto destaca-se tanto por sua poesia vicejante já nos primeiros anos, como em Raiz de Orvalho, como por sua prosa engenhosa, cujo apogeu, para muitos, se encontra no celebrado romance Terra Sonâmbula, eleito um dos 100 melhores romances escritos na África durante o século XX.

Mas faço uma confissão – minha admiração maior é mesmo pelo Mia Couto contista. Trazendo algo da poesia cerebral de João Cabral de Melo Neto e bebendo declaradamente da fonte de Guimarães Rosa, com sua prosa marcada por forte oralidade e por inventivos neologismos, Mia Couto constrói seu próprio estilo de prosador. Sua prosa tem a riqueza de suas referências, mas é também moderna, ágil e muito mais enxuta. Possivelmente, é exatamente esse o motivo de tamanho sucesso de público e de crítica. O escritor moçambicano já foi publicado em mais de 22 países (incluindo o Brasil, onde é muito apreciado) e traduzido para diversos idiomas. Quanto aos contos, ele fez sua estreia no gênero em meados da década de 1980 com o ótimo Vozes Anoitecidas. Trata-se de uma bela reunião de contos, com destaque para A Fogueira, O dia em que explodiu Mabata-Bata e A História dos Aparecidos. Ainda assim, é preciso pontuar a irregularidade relativa desse primeiro livro de contos do mais destacado escritor africano da atualidade. Seus cinco lançamentos seguintes como contista demonstraram seu amadurecimento e o domínio que adquiriu sobre seu próprio estilo.

O Fio das Missangas, de 2004, é sua última reunião de contos e, provavelmente, a mais leve e menos pretensiosa. Seus textos são curtos e versam sobre o universo feminino de modo habilidoso e certeiro. O trabalho de ourivesaria da palavra que Mia Couto sabe tão bem realizar está todo lá, sem economias nem facilitações, mas, dessa vez, ele encontrou “tempo para ser breve”, lembrando as palavras de outro de seus ídolos – o padre Antônio Vieira. Os 29 contos de O Fio das Missangas destilam talento e sensibilidade sem nenhuma prolixidade. Quase todos eles são povoados por personagens femininas em luto, saudosas de amores passados, outros jamais concretizados, mas também por mulheres vítimas de abandono e violência doméstica. Tudo isso cabe no largo escopo da obra, que se debruça lindamente sobre o feminino, demonstrando intimidade incontestável com ele. Mas as mulheres de Mia Couto nunca são meras vítimas. Seu choro e seu canto e são sempre ativos. Resolutos.

Considero As Três Irmãs e O Homem Cadente, os dois primeiros contos do livro, apenas como preâmbulos de O Fio das Missangas. É Mia Couto se aquecendo para contos para muito mais inspirados que virão a seguir. O livro não demora a engrenar e o primeiro texto de grande beleza surge poucas páginas depois – o conto Inundação, típica prosa miacoutiana, em que o rio é metáfora para o tempo e os peixes e as aves o são para as lembranças guardadas desde a infância. Notável a beleza na construção dos personagens, que encerram um sentimento tão recôndito quanto perpétuo, isto é, o amor que fere continuamente por sua falta, como o curso ininterrupto de um rio. Mia Couto esculpe metáforas do começo ao fim, imiscuindo a fantasia na realidade como partes indivisíveis da experiência de seus protagonistas.

O autor segue costurando outros contos por meio das metáforas. Elas surgem vertiginosas em A Despedideira, um relato de amor perdido absolutamente envolvente, acessando o mais profundo sentimento do coração de uma mulher eternamente apaixonada e que rememora a despedida de seu homem como único vestígio do amor vivido. Em Os Olhos dos Mortos, aparece o tema da violência doméstica e Mia apresenta aquele que, para mim, é o conto mais duro e melancólico de O Fio das Missangas. Se em A Saia Almarrotada, existe uma grande abertura à interpretação e o moçambicano acaba exigindo de seu interlocutor uma releitura, para capturar seus possíveis significados, em Os Olhos dos Mortos, Mia Couto é bem claro quanto ao tom de tragédia que vai construindo. O desfecho do conto é surpreendente, especialmente por ser tão imagético. A última frase surge como um golpe inesperado, que o leitor acusa como se fosse um dos próprios personagens da história.

A Infinita Fiadeira funciona como um interlúdio, no qual o autor encontra espaço para refletir sobre a situação da arte na contemporaneidade e para responder ao antigo questionamento sobre a função do artista no mundo. Tudo, é claro, flui ao sabor das metáforas e, nesse caso, com certo tom fabular muitíssimo bem trabalhado. Em O Peixe e o Homem, Mia Couto parte de um trecho do famoso Sermão de Santo Antônio aos Peixes, do Padre Antônio Vieira, para recriar o diálogo, agora em sentido inverso, entre os homens e os seres aquáticos. Os Machos Lacrimosos apresenta uma lindíssima desconstrução do masculino enquanto estereótipo de força, empedernido e impassível. O escritor devolve aos homens o direito ao choro como voz humana primeva, afinal, não é com o choro que falamos pela primeira vez ao mundo? Em O Menino que Escrevia Versos, Mia Couto recorre à singeleza da linguagem de um menino para retornar ao tema da arte e seu papel de engrandecer a vida dos homens.

O último conto de O Fio das MissangasPeixe para Eulália – arremata a reunião de contos com mais uma personagem feminina no centro de uma história sobre a aproximação entre a realidade e a fantasia. Em um vilarejo, os devaneios de Sinhorito só encontram eco nos sonhos de Eulália. Uma doença surge na mulher devido à seca prolongada que assolava a pequena cidade e eis que a solução de todo o infortúnio surge em uma apoteótica conclusão, em que o desvario de Sinhorito converte a realidade em pura fantasia. O conto traz consigo uma grande reflexão sobre o que é ser saudável em um mundo marcado pela insipidez de uma realidade pura, amputada dos delírios de Sinhorito e de Eulália. Não será preciso ser louco para ser também sadio? Eis a pergunta que Mia Couto nos deixa por meio de uma chuva que marcaria para sempre a história do vilarejo. O vilarejo de Senhorito e sua loucura para sempre lembrada.

Assim Mia Couto conclui seu último livro de contos – encadeando belíssimos textos como um rosário, ou, em suas próprias palavras, como contas de uma missanga. Um título que considero obrigatório dentro da produção do escritor moçambicano.

O Fio das Missangas (Moçambique, 2004)
Autor: Mia Couto
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 152

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.