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Crítica | 24 Horas na Vida de um Palhaço

Um ciclo de tristezas e alegrias.

por Luiz Santiago
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Jean-Pierre Melville (nascido Jean-Pierre Grumbach) escolheu o seu nome artístico ainda durante a 2ª Guerra Mundial, quando lutava (integrando a Resistência Francesa) contras os nazistas. Sua paixão pelo cinema veio desde a infância e toda a sua adolescência e parte da juventude foi de profundo mergulho cinéfilo, com visitas diárias aos cinemas. Uma frase bastante famosa que é atribuída ao diretor dá conta dessa grandiosa paixão e entrega: “Normalmente eu assisto 5 filmes por dia. Menos que 5 e eu começo a ter sintomas de abstinência“.

Produzido de forma independente, o primeiro filme de Melville foi este curta-metragem, intitulado 24 Horas na Vida de um Palhaço, lançado em 1946. Nele, o diretor também faz as honras de narrador e nos dá a conhecer cenas da vida dos palhaços Maïss e Beby. Na abertura e no encerramento, posa uma figura masculina em contraluz — nos melhores moldes de cinema noir que o diretor admirava muitíssimo e que traria para a sua filmografia — olhando para o relógio e indicando um “outro lado” da cidade, distante da diversão inocente do circo.

Não temos aqui uma verdadeira indicação de que estamos diante de um documentário ou de um mocumentário (o filme é originalmente classificado como o primeiro gênero citado), e essa dualidade traz algo charmoso para o curta. O compartilhamento das memórias de Beby pontua o filme com uma tristeza que, ironicamente, está sempre em pauta quando falamos de filmes sobre palhaços. O reforço dessa sensação vem quando as 24h estão se completando e temos a sensação de uma repetição opressiva dos dias para o protagonista e para seu amigo.

Descortina-se a vida de um homem com uma profissão que é “entreter o público“. Sob muitos aspectos, assemelha-se ao ofício do diretor, sempre criando, sempre apresentando alguma coisa para quem está “do outro lado“. O protagonista está cercado de referências de sua profissão e compartilha conosco fotografias de amigos que já morreram, momentos felizes do passado, em outras atividades no circo que parece cada vez mais abandonado… Esse tipo de filme normalmente me deixa bastante melancólico e, quando dirigido por um cineasta do porte de Melville e com esse bonito trabalho fotográfico, a sensação se torna ainda mais intensa. Um começo muito interessante — e muito humano! — de um Mestre do cinema francês. O chamado “pai espiritual” da Nouvelle Vague.

24 Horas na Vida de um Palhaço (24 heures de la vie d’un clown) — França, 1946
Direção: Jean-Pierre Melville
Roteiro: Jean-Pierre Melville
Elenco: Jean-Pierre Melville, Louis Maïss, Beby
Duração: 17 min.

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