Crítica | A Autoestrada do Sul, de Júlio Cortázar

Em tempo de caos e de confinamento inesperado, o conto A Autoestrada do Sul, do argentino Júlio Cortázar, torna-se provavelmente uma das leituras mais interessantes para se compreender um período como o atual. Não, o conto do escritor argentino não trata de epidemias causadas por vírus letais nem nada parecido. Mas a essência contida em situações de exceção como essa está toda lá. Na obra, um enorme congestionamento em uma autoestrada que liga Fontainebleau a Paris lança o caos sobre todos aqueles motoristas. Ali eles ficarão parados não apenas por horas, mas por muitos dias, enfrentando o frio, o calor, a fome, a sede e outras privações. Cortázar constrói um microcosmo bastante rico à análise do comportamento humano em situações onde a rotina, a ordem e a segurança não se fazem mais presentes.

Parece-me claro que o conto constrói uma clara dicotomia – metaforizada na oposição entre movimento e imobilidade. No início da obra, os motoristas que rumavam para Paris sequer pareciam ter vida, uma vez que ali eram apenas objetos em deslocamento alienado rumo à normalidade já conhecida. Assim que o congestionamento sem precedentes se inicia, percebemos uma fase de transição para um estado de paralisação em que cada um dos motoristas necessitará estabelecer relações uns com os outros, quer seja para comer ou beber, para demonstrar solidariedade em momentos críticos, para se defenderem da violência que ali também surge e até para dar fim ao corpo de um motorista suicida. Percebe-se claramente como a vida humana, sustada enquanto se moviam rapidamente pela rodovia, agora ressurge com todos os seus matizes. O próprio campo semântico é trocado: rodas, latarias e volantes dão lugar ao suor e à sujeira de corpos humanos que novamente se reconhecem como tal.

Um dado interessante na construção simbólica de Cortázar é o modo como os personagens são identificados. Tal como em Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago, nenhum deles tem nome próprio. Mas, diferentemente do que ocorre na obra do português, sente-se a real necessidade de nomeá-los. É dúbia a escolha de chamar cada motorista pela marca de seu carro. A leitura pode ser feita tanto no sentido de que aqueles homens e mulheres valiam exatamente o mesmo que seus automóveis, como no sentido de demonstrar que, bem ou mal, entre eles havia a necessidade real de aproximação (algo que, no fim das contas, humaniza-os). Há, de certo, uma grande diferença entre chamar um deles de “a motorista do Dauphine” ou simplesmente de “Dauphine”. Na primeira forma, reconhece-se apenas uma função. Na segunda, pode-se, enfim, enxergar uma pessoa ali, restituída de sua humanidade ainda que de modo tão torto.

Outro ponto basilar de A Autoestrada do Sul é o modo como ele trabalha a noção de tempo ao longo da narrativa. Em nenhum momento temos a noção exata de passagem de tempo. Não fica claro, nem na conclusão da obra, qual foi o tempo que os motoristas permaneceram naquele congestionamento. Mas, em vez de optar pela sensação de tédio ou enfado, Cortázar constrói muito mais uma sensação de confusão e de certa anarquia. A própria extensão dos parágrafos e dos períodos, eivados de referências aos personagens/seus carros, cria um ambiente textual que remete ao excesso de automóveis e de motoristas naquela situação tão ímpar. Portanto, no conto interessa menos o tempo transcorrido e muito mais a experiência vivida e esse é um ponto que deve nortear a leitura. Em A Autoestrada do Sul, o tempo é mais kairós do que chronos.

Por fim, a melancolia que o engenheiro do Peugeot 404 sente quando finalmente o engarrafamento se resolve é sentida também pelo leitor. Por mais caótica que tivesse sido a experiência para cada um dos personagens, tem-se claramente a sensação de termos lido a uma grande história. Talvez seja exatamente essa a chave da compreensão desse mal-estar no desfecho do conto – enquanto se dava o congestionamento, histórias aconteciam, conflitos vinham à tona e existências se chocavam de todos os modos possíveis. Ao retomarem o caminho, a vida enquanto experiência era novamente suspensa. E todos voltavam a ser apenas os mesmos objetos em deslocamento. Presos às suas máquinas de metal e luzes e rumo à mesma existência desinteressante e banal.

A Autoestrada do Sul (Todos os Fogos o Fogo/Todos los Fuegos el Fuego) — Argentina, 1966
Autor: Júlio Cortázar.
Editora: Civilização Brasileira
Tradução: Glória Rodrigues
Número de páginas: 33

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.