Toda década possui as suas peculiaridades e com os anos 1980 não teria sido diferente. Em A Cidade dos Anos 1980: Um Documentário, narrativa esteticamente simples, mas com proposta informativa interessante, conhecemos um pouco mais do contexto cultural por onde Patrick Bateman, o protagonista alucinado de Psicopata Americano, atravessou ao longo de suas peripécias no clássico moderno da literatura, transformado em filme nos anos 2000, tendo Christian Bale como o intérprete do infame yuppie que é uma versão caleidoscópica de todos os elementos que compõem a imagem e o comportamento de Donald Trump. Ao longo de 31 minutos, acompanhamos depoimentos de produtores culturais, escritores, da roteirista do filme inspirado no livro de Bret Easton Ellis, de colunistas culturais da época, dentre outros indivíduos que vivenciaram ou estudam a cultura nova-iorquina do período. Didática, logo em sua abertura, a produção traça um panorama da década em questão, mesclando entrevistados e imagens de arquivo, apontando a cidade como uma Meca, onde os imóveis começaram a passar por um processo de valorização vertiginoso, os clubes de sexo ganhavam cada vez mais clientes, em especial, os executivos de Wall Street, os principais clientes, além do hedonismo e do consumismo que demarcaram um momento histórico de explosão da cultura do restaurante, afinal, sair e se mostrar socialmente era um requisito básico de demonstração de poder.
Lançado em 2005, o documentário evidencia, como já mencionado, o contexto histórico por onde Patrick Bateman atravessa em seu cotidiano macabro, que podemos contemplar ao longo das volumosas páginas do livro publicado em 1991. Tendo Material Girl, de Madonna, como uma canção que definiu o comportamento da época, a produção reflete todos esses pontos mencionados em consonância com as ideias do livro de Ellis e, consequentemente, do filme. Interessante o destaque que o documentário dá aos costumes da época. Ir ao restaurante em Nova York nos anos 1980, como exposto, era mais do que simples atividade gastronômica. Funcionava como um verdadeiro ritual de demonstração de poder e presença social. Este período, marcado por grandes transformações culturais, políticas e econômicas, trouxe uma nova dinâmica nas relações sociais, onde os restaurantes se tornaram palcos de interações que transcendiam o ato de comer. Patrick Bateman deixa isso delineado no romance.
Durante essa década, Nova York pulsava com o espírito do capitalismo, da ambição e da ostentação. A economia estava em franca ascensão, e a cidade se consolidava como um dos centros financeiros mais importantes do mundo. A sociedade respirava as propostas capitalistas da Era Reagan e nesse contexto, os espaços gastronômicos se tornaram símbolos de status, onde pessoas influentes e bem-sucedidas se reuniam. Patrick Bateman, ao longo de muitos capítulos do livro, apresenta gozo psicanalítico ao dividir espaços com poderosos, dentre eles, Donald Trump e outros próximos de sua redoma de poder e ostentação. Comer fora era uma forma de se afirmar nesse novo cenário, onde a presença em um restaurante badalado era uma declaração de identidade e poder. Assim, os restaurantes da época eram mais do que apenas locais para degustar pratos requintados, pois funcionavam como arenas sociais. Frequentadores dessas casas noturnas não apenas partilhavam refeições, mas também trocavam ideias e consolidavam relacionamentos comerciais e pessoais. Em um ambiente onde o sucesso financeiro era frequentemente medido pelo tipo de restaurante frequentado, escolher o local certo se tornava uma questão estratégica na construção da imagem pública.
Além da exclusividade do espaço, os hábitos alimentares também refletiam uma tentativa de se manter relevante em um mundo em constante mudança. Patrick Bateman constantemente pede para a sua secretária, no livro e também no filme, para confirmar reservas nos mais badalados espaços. A cultura do “ver e ser visto” ganhava força, onde a escolha de pratos, de vinhos ou de sobremesas se tornava uma declaração de estilo de vida. Os hábitos alimentares de então frequentemente indicavam classe social, cultura e até mesmo aspirações futuras. Os jantares eram mais longos, repletos de conversas que podiam selar acordos e parcerias, onde a ostentação na escolha de alimentos refletia poder financeiro, mas também um tipo de sofisticação e erudição. Em linhas gerais, a cena gastronômica nova-iorquina dos anos 1980 representava um microcosmo da sociedade. Em Psicopata Americano, estar nos restaurantes elitizados funcionava como a representação cabal do sucesso. Esses restaurantes eram espaços onde a classe, o poder e a identidade eram constantemente reafirmados, com os modos de agir e se comportar seguindo um script não oficial que ditava as regras de como se estabelecer no cenário social.
A experiência de ir a um restaurante, portanto, era muito mais rica e complexa do que um simples ato de refeição, mas sim uma performance social que ecoava os valores e ambições de uma era em constante transformação. Tais comportamentos costuravam no tecido social, o modo de vida yuppie. A Cidade dos Anos 1980: Um Documentário nos mostra que a década em questão nos Estados Unidos foi marcada por significativas transformações sociais, políticas e econômicas, com o surgimento de um novo grupo social conhecido como yuppies, uma abreviação para “young urban professionals” (jovens profissionais urbanos). Esse fenômeno cultural se desenvolveu em um contexto dominado pelo hedonismo e consumismo, que refletiam não apenas uma nova ética profissional, mas também um estilo de vida que priorizava o prazer imediato e a busca por status material. O hedonismo, conceito central na mentalidade yuppie, centrou-se na busca do prazer como o maior bem.
Essa busca era traduzida em comportamentos cotidianos, onde o sucesso financeiro, o status social e o consumo conspícuo tornaram-se sinônimos de felicidade e realização pessoal. Influenciados pela retórica do presidente Ronald Reagan, que promoveu uma economia de mercado, os yuppies viam o dinheiro não apenas como um meio de sobrevivência, mas como uma forma de expressão pessoal. O ideal de vida yuppie elevava o consumo a um imperativo moral, onde gastar era um sinal claro de sucesso. Esse consumismo foi evidenciado na cultura popular da época, com as marcas de luxo e os produtos de alta qualidade se tornando símbolos de status. Os yuppies eram conhecidos por seu apreço por roupas caras, carros de luxo e tecnologias emergentes, como os primeiros computadores pessoais. Revistas como Forbes e Vanity Fair começaram a retratar os yuppies como ícones da ambição e do sucesso, fortalecendo ainda mais a imagem desse estilo de vida. No entanto, essa ostentação despertou críticas, levando muitos a ver o grupo como superficial e materialista.
Além disso, o estilo de vida dos yuppies estava profundamente enraizado na cultura do “fast living”, que enfatizava não apenas o prazer imediato, mas também o dinamismo e a competitividade. Os yuppies frequentemente trabalhavam longas horas, impulsionados por uma ética de trabalho que exaltava a dedicação e o sacrifício pessoal. Contudo, essa busca incessante por sucesso e status frequentemente resultava em um descontentamento latente, com muitos indivíduos se sentindo vazios, apesar das conquistas materiais. É importante ressaltar que essa geração também foi influenciada por movimentos sociais e culturais mais amplos. O ativismo político e a consciência social começaram a emergir como reações às práticas de consumo excessivo e ao individualismo exacerbado. Fatores como a crise da AIDS, o aumento do ativismo ambiental e os movimentos pelos direitos civis começaram a provocar reflexões sobre o sentido e o propósito da vida para os yuppies. Mas, enquanto Patrick Bateman atravessou os capítulos do polêmico livro que nos apresentou a sua mente fincada em atrocidades, o estilo de vida dos yuppies ainda estava em seu mais alto nível.
No geral, um documentário pouco atrativo esteticamente, mas rico em análise antropológica.
A Cidade dos Anos 1980 (American Psycho) — Estados Unidos, 2000
Direção: Eric Sacks
Roteiro: Eric Sacks
Elenco: Mike Ryan, Miguel Musto, Mike Ryan, Guinevere Turner, Gavin Smith
Duração: 31 min