Crítica | A Droga da Obediência (Os Karas #1), de Pedro Bandeira

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Pedro Bandeira explicou, no posfácio de uma das versões de A Droga da Obediência, que a ideia para o livro veio em uma de suas crises de Cefaleia de Horton. Disse ele em seu relato: “fiquei pensando como era injusto aquele sofrimento: a injeção que fazia cessar imediatamente as crises deixara de ser fabricada pelo laboratório farmacêutico! E ali estava eu, sofrendo e chorando, porque alguém lá da tal indústria, por interesses comerciais ou de qualquer outra ordem que fosse, determinara que eu sofresse e chorasse! Fiquei pensando, então, que há várias maneiras de se exercer o poder: um laboratório que é capaz de controlar a duração e a intensidade das dores humanas é mais poderoso do que um exército!“. Assim nasceu a ideia para a Pain Control, a indústria por trás da Droga da Obediência.

A história tem toda a atmosfera de aventuras infanto-juvenis, cheia de muita ação, algumas boas reviravoltas (especialmente a última) e interessantes relações entre os adolescentes envolvidos na história, os integrantes do grupo Os Karas, batizados com esse nome por serem “o avesso dos coroas e o contrário dos caretas“. O grupo de investigadores tem uma apresentação muito engenhosa por parte do autor, com uma convocação através da letra K escrita na mão do líder do grupo, Miguel. Ele convoca Magrí (a atleta), Calú (o ator) e Crânio (o gênio) para a reunião onde a problemática do livro será apresentada. Ali, Miguel levanta suspeitas sobre o desaparecimento de alunos de diversos colégios particulares de São Paulo e, durante a conversa, Os Karas são surpreendidos pela chegada de um garoto mais novo, o corajoso e resiliente Chumbinho, que consegue se forçar a ingressar no time através de uma detalhada investigação pessoal.

Lançado no finalzinho da ditadura militar, num tempo sem as tecnologias de conexão e vigilância que hoje temos, a obra pode ser também um convite para o leitor mapear os problemas permanentes que encontramos numa metrópole como São Paulo, e como na esfera pessoal isso pode ser resolvido de maneira inicialmente mais rápida se as pessoas envolvidas têm dinheiro. O livro é essencialmente uma ágil história policial com jovens de classe alta em seu núcleo, e esse grupo se vê, talvez pela primeira vez, diante de problemas sociais, éticos e morais que marcariam para sempre as suas vidas. Pedro Bandeira não faz apenas uma jornada de investigação de uma droga poderosa. Ele se aprofunda de verdade nas implicações que isso pode ter para qualquer pessoa, criticando abertamente todos aqueles que obedecem cegamente, aqueles que não questionam ordens e aqueles que, por terem algum tipo de vantagem diante de outros indivíduos (seja ela intelectual, física, monetária, oficial, bélica) se acham realmente no direito de a todos dominar, segregar, forçar.

A corrupção dentro da polícia, a censura de informações pelo próprio diretor do Colégio onde os Karas estudam (uma censura disfarçada por um discurso de “estamos querendo fazer o bem para todos“) e a violência urbana nas mais diversas formas completam o quadro de realidade na batalha entre os adolescentes e o Dr. Q.I., um inimigo à altura do gênio dos Karas. Quando li o livro na adolescência eu não tive problemas com a megalomania de “domínio do mundo” que o enredo escancara antes mesmo de um bom contexto para isso. A própria estrutura da Pain Control não sugere nada mais que um alcance local da empresa, de modo que as manias de cientista louco do Dr. Q.I., somadas a um bom número de exposições didáticas que a narrativa nos traz envolvendo as suas ideias tornaram-se um problema para mim nessa releitura adulta. No final, o autor dá uma rápida explicação para a ambição planetária do vilão, falando dos acionistas internacionais e tudo, mas aí já é tarde demais.

O que não muda em A Droga da Obediência é a relevância de sua lição de moral — algumas leituras mais didáticas ou mesmo escolares podem até tirar um tempinho para falar do uso de drogas, como matéria bruta mesmo — e a importância que tem um grupo leal de amigos em nossa vida. Uma lição que vale para todas as idades e que pela maneira divertida e ágil com que é exposta na obra, explica o motivo deste livro continuar em alta e impressionando novas gerações de leitores pelo Brasil inteiro.

A Droga da Obediência (Os Karas #1) — Brasil, 1984
Autor: Pedro Bandeira
Editora original: Editora Moderna
140 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.