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Crítica | A Herdade

por Iann Jeliel
375 views (a partir de agosto de 2020)
A Herdade

Pré-indicado português ao título de “Melhor Filme Internacional” no último Oscar, A Herdade é um épico “biográfico” de época, que passeará sobre os contextos políticos e sociais de Portugal em um recorte de 40 anos de sua história – mais especificamente, entre 1946 e 1991. No enredo, João Fernandes é um latifundiário, herdeiro de um dos maiores terrenos da Europa, que precisa se adaptar ao longo da Revolução dos Cravos, a fim de manter hierarquicamente o terreno para o futuro de sua família.

Trata-se de um estudo de personagem tradicional, embora queime as etapas estruturais de “origem” ou ascensão, se concentrando em maior foco sobre o período “ascendido” até o início do “declínio”. Estruturação diferente à parte, o filme segue seu protagonista e o estuda sobre diferentes perspectivas. Desde o lado enrijecido pela paternidade ríspida – a primeira cena do filme -, até o o lado idelogicamente imparcial, mas honrado. João é um personagem bastante complexo e a interpretação de Albano Jerónimo corresponde a essa complexidade em todas as etapas possíveis. É muito interessante a forma como o ator lida com cada ambiguidade do personagem.

Ele busca não se meter em política, não se incomoda com o apoio da ditadura e tão pouco com o espírito revolucionário de seus serventes, tratando-os com uma lealdade equivalente; ao mesmo tempo que dentro de casa abusa do filho e é infiel à esposa. É interessante acompanhar todas as camadas desse personagem ao longo das quase 3 horas de duração, que nunca chegam a ficar exatamente cansativas, por conta de um ótimo timing na condução do diretor Tiago Guedes. O cineasta tem muito recurso técnico e sabe como utilizá-los nos momentos certos em prol da narrativa. Apesar do tom episódico e por vezes, até novelesco, Guedes sabe como contar uma história através da mise en scène, que faz muito mais do que apenas criar um senso geográfico coeso, como ajuda a narrar imageticamente cada etapa de desenvolvimento dos personagens.

É um filme bem formal, com enquadramentos calculados, planos longos, extremamente sutis para saírem orgânicos e preenchido por vários momentos de silencio, bem posicionados para que haja uma absorção sentimental do que está aparecendo em tela. Nos dois primeiros atos, esse formalismo soa até claudicante, dando a impressão de que o filme, apesar de épico, foge de grandes conflitos. Cito como exemplo a revolução apenas narrada pelo rádio de alguns dos trabalhadores da propriedade, ao invés de alguma forma testemunhada por aqueles personagens. No terceiro ato, essas escolhas distanciadas ganham mais sentido, porque as dramaticidades anteriores se conglomeram para dar dimensão às consequências das escolhas ambíguas do protagonista até aquele momento, daí, finalmente, o filme adere ao seu principal conflito.

Quando este surge, todo o restante melhora muito, porque deixa de ser mero acontecimento na vida do personagem e passa a ser uma etapa fundamental para entendê-lo. Fora que é quase um filme novo, com um novo protagonista introduzido, no caso, o filho de João, que é desenvolvido cirurgicamente para o momento que irá questionar o próprio pai no ápice de uma crise de casamento, poder e clima de luto. Destaco a cena do jantar, com um show de atuações, tanto de Albano, quanto de João Pedro Mamade – intérprete do Miguel –, quanto de Sandra Faleiro, um tanto contida durante o filme todo pelo histórico de passividade da personagem em relação ao marido, mas que no instante certo, ganha o seu momento, em que um olhar, consegue comunicar uma vida de sentimentos aprendidos pela obrigação de acreditar num legado que ficará ultrapassado.

O filme ganha até um caráter mais poético, aquela revolução não mostrada na prática, demonstra que aquele ambiente parou no tempo, onde a reação chegou tarde demais, sobrando ao protagonista a melancolia de perdas emocionais encerrando dolorosamente um ciclo que foi doloroso desde muito antes. Um digno fechamento de uma obra saudavelmente ambiciosa.

A Herdade (The Domain | Portugal-França, 2019)
Direção: Tiago Guedes
Roteiro: Tiago Guedes, Rui Cardoso Martins
Elenco: Albano Jerónimo, Sandra Faleiro, Miguel Borges, João Pedro Mamede, Rodrigo Tomás, Beatriz Brás, Diogo Dória, Ana Bustorff, Victoria Guerra
Duração: 169 minutos

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