Crítica | A Noiva Cadáver

Mesmo já tendo empregado de perto sua visão em duas animações ao estilo stop-motion — uma delas sendo a icônica O Estranho Mundo de Jack, que tornou-se emblemática do estilo próprio do artista — foi apenas em A Noiva Cadáver que Tim Burton foi além das atribuições de produtor e passou a ocupar a cadeira diretorial de uma obra do gênero. Baseado em um conto popular russo, o filme resgata alguns dos lugares-comuns favoritos do diretor, arranjando-os de forma original e fluida o suficiente para garantir uma experiência encantadora.

É comum que se questione o intento de Burton em sua apropriação das temáticas e da estética típicas do horror. Se mediante uma primeira observação o flerte com o terror pode ser tomado como dado, é fato que a forma como o diretor faz uso deste estilo próprio frequentemente frustra expectativas. Seu enfoque autoral — e, não por menos, o campo em que ele mais costuma obter sucesso — é justamente o uso da temática gótica/halloweenesca como roupagem ou forma, mais do que no âmbito do conteúdo. Nos casos em que seus estilismos invadem o roteiro e atravancam a narrativa, incorre-se no risco de um resultado abaixo do potencial para a produção em questão, o que é acompanhado pelas declarações (na minha opinião, injustas) a respeito da monotonia ou mesmo “preguiça” da produção de Burton.

A Noiva Cadáver é um dos casos em que esse equilíbrio desejado se faz presente, colocando sua imagética inventiva a serviço de uma narrativa com tonalidades bem definidas. A trama é simples e fabulesca, não perdendo tempo em situar o espectador em uma versão anêmica e enevoada de uma pequena vila vitoriana, durante trâmites finais de um casamento arranjado entre Victor Van Dort (Johnny Depp) e Victoria Everglot (Emily Watson). Ele, filho de uma família noveau riche de vendedores de peixe, carecendo da aprovação e status da nobreza; ela, filha de uma família aristocrática decadente em busca do lastro financeiro para sustentar seu estilo de vida esnobe.

Se o casamento não pareceria tão vantajoso aos noivos quanto aos seus caricatos pais, o encontro entre os dois dá pistas de um romance com potencial. Porém, mediante a incapacidade do sempre atrapalhado e tímido Victor em se lembrar dos complicados votos de casamento da cultura local, uma série de eventos passa a ligar o destino do jovem casal ao de outro casamento arranjado do passado, este com final definitivamente infeliz.

A aparição da titular noiva cadáver, Emily (Helena Bonham Carter), introduz um contraste visual bastante interessante: contra o cinza dessaturado e deprimentemente enevoado do mundo dos vivos, o colorido leve e o clima absurdamente festivo do mundo dos mortos. Os temas prosaicos das famílias Van Dort e Everglot são mais carregados de morte do que a tragédia efetivamente fúnebre de Emily, narrada em forma de canção pelo esqueleto Bonejangles (Danny Elfman) e sua trupe de músicos ósseos.

Essa abordagem lúdica do contraste entre a morbidade dos vivos e a vivacidade dos mortos é explorada de forma simples e fluída ao longo da animação, e acaba se revelando seu grande tesouro. Assim como acontece nas fábulas, não nos debruçamos aqui sobre as temáticas de forma mais detida do que por vias indiretas: a ideia é mais acompanhar a jornada de Victor e Emily do que oferecer qualquer comentário mais amplo. Nesses termos, a produção acaba sendo herdeira de O Estranho Mundo de Jack, trabalhando o contraste visual e temático entre dois mundos e a jornada pessoal do protagonista, porém lançando mão de uma ênfase maior na caracterização dos personagens e do romance.

Nesse sentido, a única limitação do filme se encontra nos desenvolvimentos da trama propriamente ditos, em especial no desfecho final, onde os acontecimentos acabam se dando sem muito agenciamento por parte dos protagonistas. Barkis Bittern (Richard E. Grant) é um vilão vitoriano típico, e não parece ser intentado pelo roteiro como nada além disso. Porém, a ausência de um posicionamento mais ativo por parte dos protagonistas acaba por causar a falta de uma pontuação mais conclusiva para a trama central da história: para nos mantermos na nossa comparação com O Estranho Mundo de Jack, falta a Victor e Emily o momento equivalente do reerguimento de Jack após ser abatido em seu trenó.

No entanto, A Noiva Cadáver é um filme que vive para além dos acontecimentos de sua trama. Um espetáculo visual que traz uma técnica de stop-motion tão refinada que por vezes parece cruzar o limite entre os efeitos práticos e a animação digital, bem alinhada com sua frente musical e tonalidades temáticas, resultando em uma animação memorável. A abordagem lúdica da dualidade vida e morte encanta, entretém e consegue garantir, sob as formas charmosas, um conteúdo à altura dos melhores momentos de Burton.

A Noiva Cadáver (Corpse Bride) – EUA, 2005
Direção: Tim Burton, Mike Johnson
Roteiro: Tim Burton, Carlos Grangel, John August, Caroline Thompson, Pamela Pettler
Elenco: Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Emily Watson, Tracey Ullman, Paul Whitehouse, Joanna Lumley, Albert Finney, Richard E. Grant, Christopher Lee, Michael Gough, Jane Horrocks, Enn Reitel, Deep Roy, Danny Elfman, Stephen Ballantyne, Lisa Kay
Duração: 77 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.