Crítica | A Rede (1995)

Comunicação por cartas enviadas pelos correios e a ida aos restaurantes para jantar entre amigos eram práticas mais comuns na sociedade prévia ao advento da democratização da internet. Não que tais práticas estejam extintas, mas sabemos que diante do avanço da tecnologia, muitos hábitos de sociabilidade foram transformados, numa entrada sem saída para um terreno de múltiplas possibilidades de se comunicar e viver. Quando lançado em 1995, A Rede se estabeleceu como um filme premonitório, sem ampla consciência do que de fato iria se tornar comum e o que era exatamente ficcional no desenvolvimento de sua história. Na época, a internet e os computadores já eram parte da realidade doméstica de muitos lares ao redor do planeta, mas ainda não se estabelecia como unanimidade. A sociedade ainda precisou de mais algum tempo para aderir totalmente e antes da virada do milênio, as maravilhas da sociedade em rede mudavam comportamentos e estabeleciam outras estratégias para as pessoas realizarem as suas compras ou se comunicarem com familiares distantes.

Um mundo de maravilhas, não é mesmo? Mas, como tudo na vida, há os contrapontos diante de toda essa fantasia. A máquina e as suas conexões permitiam trabalhos estudantis mais sofisticados e a conversa com “aquele” parente que mora em outro continente, antes bastante limitada por conta do custo das ligações telefônicas. Houve também a possibilidade de comprar algo importado sem depender exclusivamente de um amigo viajante ou adentrar numa sala de bate-papo com o tema e o foco do interesse entre interlocutores que nem sempre conseguem estabelecer contato pessoalmente, numa dinâmica física cotidiana. Tudo muito promissor, e de fato ainda é, caso olhemos apenas para os lados positivos, mas a internet também trouxe uma série de problemas para o nosso exercício enquanto cidadão. É o terreno da falsificação, da cristalização de verdades contestáveis e dos perigos em torno de nossos dados pessoais, espalhados numa malha de insegurança e nenhuma privacidade.

Sob a direção de Irwin Winkler, cineasta que teve como direcionamento, o roteiro assinado pela dupla formada por Michael Ferris e John Brancato, A Rede nos apresenta Angela Bennet (Sandra Bullock), uma Analista de Sistemas que é referência em sua área. Ela trabalha em casa, ambiente que o design de produção de J. Dennis Washington faz questão de transformar num local tomado pelas máquinas e papeis que designam a sua função na Informática. Ela dorme e acorda diante do computador, sempre pede comida por telefone e seus vizinhos basicamente não a conhecem. As suas funções profissionais estão envoltas no rastreamento de vírus em sistema de segurança e eliminação de bugs em jogos virtuais. Certo dia, ela decide tirar férias, descansar da dinâmica de trabalho exaustiva, mas sem deixar de levar o notebook para a viagem.

Antes, no entanto, o seu amigo Dale (Ray Hickimann) lhe envia um disquete que ao ser operacionalizado na máquina, apresenta um pi no canto esquerdo da tela. Quando Angela pede acesso, um montante de imagens ao estilo do vídeo de O Chamado se apresenta diante do computador. É um conjunto de informações que eles prometem discutir na viagem que o programador nunca chega, pois um acidente de avião ceifa a sua vida. Por enquanto, ela só sabe que vai discutir no encontro o conteúdo do disquete que traz consigo uma série de problemas. Bennet o espera antes de embarcar e só descobrirá o paradeiro do “amigo” ao fazer uma ligação para o escritório. Nós sabemos. Angela sequer desconfia que se tornará a “mulher errada” desta história com traços do suspense ao melhor estilo Alfred Hitchcock, editada com um bom ritmo por Richard Halsey, tendo como acompanhamento, a eficiente trilha sonora de Mark Isham.

Antes de saber que é parte de um esquema criminoso amplo, Angela se permite conhecer Jack Devlin (Jeremy Northan), um homem sofisticado e muito atraente, interessado nas mesmas coisas que a jovem programadora. Ela se aproxima dela na praia, em Yucatan, no México, o destino escolhido para passar esses dias de relaxamento. Com um notebook semelhante ao de Bennet, ele puxa conversa, consegue estabelecer um clima de paquera que a atrai para um passeio em sua lancha. Lá, Devlin primeiro cumpre a sua missão de se divertir com um tórrido trecho de noite sexual com a protagonista que acorda antes da hora imaginada pelo antagonista da história. Eles travam uma luta e a moça consegue escapar momentaneamente. Ciente do perigo, Angela descobre que não será apenas perseguida por este representante de uma corrupta corporação, mas também teve a sua vida toda modificada. Ironicamente, por meios virtuais, espaço que na trama parece ser mais verdadeiro que o depoimento da personagem.

Ela perde passaporte, chaves de casa, a identidade é modificada e nos sistemas de computadores o seu nome consta como uma perigosa criminosa. Tido por alguns como mirabolante na época, após 25 anos de seu lançamento, A Rede comprovou que os desdobramentos da relação entre seres humanos e a sociedade da informação é um caminho sem volta, bem como sem precedentes, na história da humanidade. Perseguida por uma empresa de softwares que prometia segurança, mas que na verdade era um conluio de distorções e invasão da vida alheia, a única pessoa que poderia depor favoravelmente para Angela é a sua mãe, uma mulher que sofre de Alzheimer e não possui condição alguma de confiar na memória. Dale morreu, mas também nunca a conheceu pessoalmente. Assim, a protagonista é quase uma invisível, uma mulher que depois de ser hackeada, tornou-se praticamente inexistente. Só a sua massa física pode comprovar isso, mas com os dados adulterados, ela não pode exercer a sua cidadania e tentar sair da situação que foi colocada sem ter que antes, partir para a luta, intelectual e corporal, num embate frenético para sobreviver e conseguir resolver a história.

A tal empresa criminosa na verdade tem em mãos segredos obscuros de diversas organizações, inclusive governamentais. O disquete traz detalhes sobre a farsa na venda de programas de segurança de clientes que sequer imaginam que os seus segredos estão compartilhados. Há até mesmo uma pessoa poderosa que se suicida diante de uma revelação que muda a sua vida, bem como questões que invalidam seis bancos de Chicago e ferram a bolsa em Wall Street. É tudo muito barra pesada e envolto numa redoma de eliminação. Angela, mesmo que devolva o material, precisa ser eliminada. Ela é a mulher errada que sabe muito. Um perigo para Devlin e seu grupo preocupado na recuperação do material. Repleto de indicadores da solidão de uma sociedade onde as pessoas se conectam muito pouco na “realidade”, A Rede aposta na figura do hacker como um elemento da cibercultura que pode mudar o rumo de coisas complexas com um simples clique. A personagem de Sandra Bullock é prova cabal disso, pois precisará aderir aos mecanismos desta figura para conseguir recobrar a sua identidade, e por conseguinte, a sua moral diante de uma sociedade tomada por valores que não permitem que ela exerça a sua cidadania adequadamente até que consiga resolver as questões que a tornaram uma errante.

Ademais, ao longo de seus 114 minutos, A Rede deve ser visto como um filme introdutório ao que se discute hoje sobre internet, comportamentos humanos, riscos, redes sociais, privacidade e exposição. É uma eficiente e intrigante leitura diacrônica, as bases para pensarmos muitos filmes mais contemporâneos sobre os tópicos anteriormente descritos. Interessante observar como a trama flerta com a montagem entre duas cenas de bate-papo na internet, uma com Angela Bennet totalmente aberta e em flerte com seu interlocutor e na outra o “monstro” do outro lado do computador, a arquitetar um desfecho trágico para a heroína que consegue, no final  das contas, driblar a crise na qual foi inserida, mas sem antes passar por uma gigantesca tormenta física, psicológica, social e virtual. Ao final, nos deparamos com um filme que reflete a velocidade com que a tecnologia se desenvolveu, sem ter sido devidamente acompanhada por leis que a protegessem das suas próprias possibilidades rizomáticas. Sabemos que há marcos e bastante dedicação ao processo de investigação na seara dos crimes virtuais atualmente, mas a todo instante, os agentes que driblam sistemas, isto é, os hackers, para o “bem” ou para o “mal”, desafiam as diversas “Angelas” de nossa sociedade.

A Rede (The Net) – EUA, 1995
Direção:
Irwin Winkler
Roteiro: Irwin Winkler, Michael Ferris, Rob Cowan
Elenco: Dennis Miller, Diane Baker, Jeremy Northam, Sandra Bullock, Wendy Gazelle
Duração: 112 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.