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Crítica | A Vingança Veste Prada, de Lauren Weisberger

A desnecessária continuidade de uma história que já tinha fechado seu ciclo.

por Leonardo Campos
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Muito mais conhecida pela transformação em imagens, O Diabo Veste Prada é uma composição literária mediana que, traduzida para o cinema, ganhou ramificações e, em sua estrutura, apresenta um enredo fechadinho, tendo ganhado uma continuação recente no âmbito da literatura, agora em andamento para o novo filme que traz o elenco principal para aventuras da nossa nova era tecnológica. Assim, a escritora Lauren Weisberger publicou A Vingança Veste Prada, sequência que não aproveita muito o contexto em que se situa e acaba repetindo pontos do antecessor, em um número volumoso de páginas para uma história que poderia, talvez, ser um conto mais extenso. Na trama, depois de quase dez anos longe do emprego na Runway e da exigente Miranda Priestly, Andrea Sachs se tornou editora de uma revista de luxo sobre casamentos, a Plunge. Com Emily ao seu lado, sua vida parecia perfeita, especialmente com o casamento prestes a acontecer com um dos solteiros mais desejados de Nova York. No entanto, uma semana antes da cerimônia, um fantasma do passado ressurge, trazendo de volta lembranças da sua antiga chefe que havia deixado para trás. A narrativa, que sugere um possível conflito entre Andy e Miranda, acaba decepcionando ao entregar uma trama sem a profundidade esperada, resultando em um enredo que não faz jus às expectativas criadas.

Dentre todas as questões que poderia pontuar aqui, o principal problema identificado com a sequência do livro é a ausência de Miranda, que foi a verdadeira força da narrativa de antes, atraindo não apenas a protagonista, mas também os leitores. Enquanto Andy nos é apresentada como a heroína da história, muitos leitores sentem a falta da complexidade e do carisma de Miranda, que, mesmo em suas breves aparições, rouba a cena, mas fica em segundo plano. A decepção em relação ao enredo pode ser atribuída a uma falha no marketing e na escrita, uma vez que o público esperava um desenvolvimento mais robusto do potencial conflito entre as duas personagens, algo que nos faz questionar a qualidade do próximo filme. Se os realizadores forem sagazes, pegarão alguns aspectos do livro apenas como ponto de partida, estruturando o roteiro com ideias mais interessantes. Com isso, a narrativa parece girar em torno da vida de Andy, sem explorar as nuances que tornaram Miranda uma figura icônica. A frustração de não ver Miranda em um papel mais central leva os leitores a questionarem o rumo que a história tomou, deixando uma sensação de que muito mais poderia ser explorado.

Em A Vingança Veste Prada, a protagonista Andrea Sachs enfrenta traumas psicológicos que parecem ser resultado de suas experiências passadas com a sua chefe exigente Miranda Priestly. Embora a narrativa sugira que Andy deveria superar essas dificuldades emocionais, incluindo pesadelos e ataques de pânico só ao pensar em reencontrar Miranda, a verdade é que esses sentimentos parecem bem fundamentados. A perspectiva de que Miranda não seria exatamente o “diabo encarnado”, como Emily menciona, acrescenta uma camada de ambiguidade ao caráter da vilã, mas também faz com que o leitor sinta a necessidade de que Andy procure ajuda profissional. As exigências insanas de Miranda, como a busca pelo manuscrito de “Harry Potter”, são um indicativo do estresse que Andy enfrenta, e essa luta interna é um tema que poderia ser mais aprofundado no enredo, mas fica apenas na superficialidade.

A trama evolui quando Andy e Emily, após o sucesso da revista de casamentos The Plunge, recebem uma proposta de Miranda para a aquisição da publicação, o que causa um dilema moral em Andy. Embora a oferta ofereça uma oportunidade de crescimento, o retorno ao convívio com Miranda gera resistência em Andy, refletindo seu histórico traumático. A história, no entanto, se desvia desse conflito central e se concentra mais nas questões pessoais de Andy, como seu casamento, a expectativa de um filho e a complexidade de sua relação com a sogra, além de suas inseguranças envolvendo a fidelidade do marido e a atração por um ex-namorado. Essa mudança de foco, embora interessante, revela a fragilidade da personagem principal, que não apresenta características suficientemente cativantes para sustentar o enredo, deixando o leitor com a sensação de que as dinâmicas emocionais e de vingança sugeridas não foram exploradas com a profundidade esperada. É um montão de tópicos fortes, disparados aleatoriamente.

Há também algumas inconsistências e furos no enredo. Posso aceitar que Andy não consiga entrar no campo do jornalismo investigativo, mas uma revista de casamento de alto nível exige um conjunto de habilidades completamente diferente, isto é, mais visual, altamente afinada com designers e todos os toques artísticos. Tudo bem, sabemos, as pessoas mudam e o mundo evolui com muita sagacidade, mas esta transição acaba se estabelecendo de maneira vaga. Ademais, o livro também inclui uma participação especial de Rafael Nadal, uma referência velada à amizade de Anna Wintour com Roger Federer. O problema é que qualquer pessoa que tenha ouvido uma única entrevista de Nadal sabe que ele jamais seria tão bajulador. Ele soou mais como um vendedor desonesto do que qualquer outra coisa, e duvido que Weisberger tenha conseguido captar até mesmo a cadência mais refinada de Federer. Assim, tal como eu, muitos leitores apreciaram o retorno de Andrea Sachs, Emily Charlton e, claro, Miranda Priestly, o que serviu para satisfazer a saudade após o sucesso de O Diabo Veste Prada. Aquele lance da nostalgia.

Com isso, caro leitor, seria leviano dizer que A Vingança Veste Prada é um desastre. A autora mantém o toque dinâmico e leve, com o humor característico e o glamour do universo da moda, embora a trama se centre mais no universo dos casamentos de luxo. Para quem não é muito exigente, o livro é uma leitura agradável e rápida, que entretém e envolve, sendo ideal para passar o tempo. Considero o livro, no entanto, desnecessário, pois acredito que a história já havia sido bem resolvida em O Diabo Veste Prada. Diferente do antecessor, Andy Sachs menos cativante e até um pouco insegura e indecisa, sem o mesmo carisma para sustentar a história. Outro ponto que não ajuda é a repetição de situações banais e clichês, com um final considerado previsível e decepcionante. A narrativa é corrida e com detalhes passados por alto, o que deixou a impressão de que a autora não explorou suficientemente as mais de 400 páginas disponíveis, inclusive, como já mencionado, longa demais para o que conta. Basta esperar para saber, também como já apontado, se os realizadores serão inteligentes o suficientemente para pegar os melhores pontos do livro e traduzi-los para um filme contextualmente envolvente.

A Vingança Veste Prada (The Revenge Wears Prada) — Estados Unidos, 2003
Autor: Lauren Weisberger
Edição lida para esta crítica: Editora Record (2004)
Tradução: Maria do Carmo Figueira
400 páginas

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