Hollywood é uma máquina de fazer a mesma coisa dezenas de vezes e ganhar dinheiro com isso. Mas, nessa linha de produções galopantes, volta e meia até a mesmice traz algo interessante e acaba se pagando, seja em valores de produção elevados (uma expressão guarda-chuva que normalmente abarca todo o lado técnico), seja por destaques no elenco, ou roteiros mais cuidadosos do que o normal. Claro, diante da oferta avassaladora, o espectador precisa garimpar para chegar lá, por vezes até mesmo insistir um pouco, além de quebrar a cara aqui e ali nesse processo, mas, quando o veio certo é encontrado, muita coisa boa pode ser extraído dele. All Her Fault é uma minissérie de oito episódios que, de uma maneira ou de outra, todo mundo já viu alguma vez antes, com o “bom e velho” desaparecimento de uma criança levando a reviravoltas que acabam por retirar o véu de uma suposta família perfeita. Mas a criação de Megan Gallagher com base em romance homônimo de 2021 da autora irlandesa Andrea Mara tem qualidades que a faz ser o trigo no meio do joio dessa categoria bastante desgastada, ainda que ela não seja nenhuma perfeição audiovisual.
Inteligentemente fazendo do desaparecimento da criança a isca perfeita para irresistivelmente fisgar o espectador, essa situação é estabelecida nos primeiros segundos do primeiro episódio, com Marissa Irvine (Sarah Snook) chegando em um endereço para buscar seu filho Milo (Duke McCloud) que estaria brincando com um amigo somente para descobrir que ele nunca esteve por lá. O desespero bate cedo e o frenesi que enreda seu marido Peter (Jake Lacy), os irmãos dele, a viciada em drogas em recuperação Lia (Abby Elliott) e o portador de deficiência Brian (Daniel Monks), e o sócio e melhor amigo de Marissa, Colin Dobbs (Jay Ellis), além da polícia de Chicago representada pelo detetive Alcaraz (Michael Peña) e seu parceiro Greco (Johnny Carr). Entre acusações mútuas, sofrimentos e toda a sorte de pequenas revelações sobre as vidas de todos os envolvidos, inclusive do detetive Alcaraz, não demora para a suspeita avizinhar-se de Carrie Finch (Sophia Lillis), a babá de Jacob (Tayden Jax Ryan), que é com quem Milo deveria estar brincando, o que traz para a trama os pais da criança, Jenny (Dakota Fanning) e Richie Kaminski (Thomas Cocquerel), mas de maneiras diferentes, com Jenny genuinamente querendo aproximar-se de Marissa e Richie, ao contrário, preferindo distanciar-se.
A australiana Sarah Snook, que estourou com seu papel de Siobhan “Shiv” Roy, em Succession, é o grande destaque da minissérie, ao lado de Dakota Fanning como Jenny e do pequeno Duke McCloud, este pelo fator fofura absoluta já que ele aparece pouco. Snook trafega entre uma mulher forte, gestora de riquezas, uma mãe ocupada que se culpa pelo ocorrido e uma mulher desesperada para ter seu filho de volta, algo que ganha reflexos na vida de Jenny que, por ter contratado a babá que em tese é a sequestradora, sente-se também culpada. Mas todo o restante do elenco funciona muito bem, ainda que os papeis seja segmentados e, diria até, quase clichês, especialmente o de Jake Lacy como Peter. Vale destacar a performance de Michael Peña que faz um detetive que não adota exatamente fórmulas para construir seu personagem, trafegando entre o poder dedutivo que vale mais como momentos de organização de raciocínio do que efetivo trabalho investigativo (o que vemos mais quando ele consegue – impossivelmente, diria – uma fotografia chave para o desenrolar da trama) e uma ternura irresistível que, conforme aprendemos, parece em grande parte vir do fato de ele ser pai de Sam (Orlando Ivanovic), adolescente portador de deficiência que ele deseja mais do que tudo na vida colocar em uma escola de alto nível para jovens especiais.
Tendo como cenário principal o belíssimo complexo onde mora a família Irvine – escrevo complexo, pois é um conjunto de casas que parece ser a versão moderna de onde mora Don Vito Corleone e família em O Poderoso Chefão -, que, fui pesquisar, existe de verdade em Melbourne, na Austrália, onde boa parte da minissérie foi filmada apesar de ela se passar em Chicago, os roteiros de All Her Fault vivem de revelações que vão aos poucos montando um quebra-cabeças que vai muito além de “babá malvada” e dos “close-ups suspeitos” e que tem como objetivo central estudar as dinâmicas familiares, especialmente de pessoas abastadas, ainda que a vida privada do humilde detetive Alcaraz também ganhe destaque. Apesar de possivelmente os “caçadores de furos” serem capaz de encontrar diversos problemas, olhando de maneira ampla para a narrativa e para a forma como os roteiros entrelaçam as histórias, não tenho dúvida em afirmar que houve um cuidado excepcional em tornar cada passo e cada revelação efetivamente relevante para a convergência final que se dá ao longo dos dois últimos episódios, sem pressa e sem correrias e grandes momentos de ação. Claro que, para isso, temos que aceitar que praticamente todo mundo tem segredos sinistros e casos patológicos de hesitação em falar o que precisa ser falado no momento certo.
No entanto, mais importante do que a solução do caso – e ele é solucionado, fiquem tranquilos – é ver como a ausência do pequeno Milo afeta os Irvines e os Kaminskis em dois processos de derretimento da estabilidade de famílias que discutem segredos, possessividade, vícios, responsabilidade, culpa e, com muito destaque, o papel da mulher no núcleo familiar que, em pleno 2026, parece ser ainda objeto de “muita dúvida” por aqueles que continuam enxergando uma divisão completamente inamovível entre providos e provedores. Na medida em que as peças se encaixam, as famílias se desencaixam e, mesmo que a resolução de toda a situação dependa de uso pesado de flashbacks e de reviravoltas de último minuto, tudo parece fazer sentido dentro de toda a improbabilidade do que nos é apresentado (mas o que é o audiovisual sem essas improbabilidades, não é mesmo)? Tenho grandes reticências sobre a facilidade do que ocorre no dénouement, que parece espremido nos minutos finais em um agressivo oposto da calma de tudo o que veio antes, mas, sem dúvida alguma, ele traz o tipo de desfecho que satisfaz mais do que seus problemas atrapalham.
All Her Fault prende a atenção do começo ao fim e mostra que mistérios povoados de revelações constantes podem funcionar muito bem quando a equipe de roteiristas tem consciência de que seu trabalho é manter a suspensão da descrença em níveis constantemente aceitáveis. Sarah Snook, por seu turno, deixa claro que ela veio para ficar depois de sua inesquecível Shiv, com Dakota Fanning mais uma vez mostrando que consegue se segurar em séries de TV e Michael Peña fazendo excelente uso de seu carisma para construir talvez o único personagem por quem verdadeiramente possamos nos conectar. Até realmente podemos dizer que já vimos essa série antes, mas, sem dúvida alguma, nesse caso, vale a pena ver de novo.
All Her Fault (EUA, 06 de novembro de 2025)
Data de lançamento no Brasil: 02 de janeiro de 2026
Criação e showrunner: Megan Gallagher (baesado em romance de Andrea Mara)
Direção: Minkie Spiro, Kate Dennis
Roteiro: Megan Gallagher, James Smythe, Phoebe Eclair-Powell, Kam Odedra
Elenco: Sarah Snook, Jake Lacy, Dakota Fanning, Jay Ellis, Abby Elliott, Michael Peña, Thomas Cocquerel, Daniel Monks, Sophia Lillis, Kartiah Vergara, Johnny Carr, Duke McCloud, Melanie Vallejo, Tayden Jax Ryan, Linda Cropper, Dominic Masterson, Caroline Brazier, Erroll Shand, Laura Brent, Joey Vieira, Orlando Ivanovic
Duração: 412 min. (oito episódios)
