Crítica | As Criaturas Atrás das Paredes

Quando As Criaturas Atrás das Paredes foi lançado, Wes Craven passava por uma tenebrosa fase de descrença. Como ainda confiar em alguém que entregou filmes tão tenebrosos no final da década de 1980? A nova produção, lançada em 1991, prometia ao público a entrada “naquela casa da vizinhança onde todos os adultos cochicham e as crianças temem tanto que atravessam a rua para evita-la”. Diferente das surpresas ingratas anteriores, desta vez, o cineasta escreveu e dirigiu um filme intrigante e potencialmente assustador, adornado ainda por camadas generosas de críticas sociais. Era uma oxigenação na carreira, ainda em processo de remodelação.

Influenciado por uma notícia lida nos jornais numa época próxima ao desenvolvimento do roteiro, Wes Craven traz um enredo peculiar: preocupados com a possibilidade de despejo por conta da falta de pagamento do aluguel, o pequeno Point Dexter (Brandon Quentin Adams), também conhecido como Bobo, recebe o convite do vizinho Leroy (Ving Rhames) e seu parceiro Spencer (Jeremy Roberts) para invasão da casa dos proprietários de habitação, pois corre uma lenda urbana no local que alega haver moedas de ouro escondidas. O que eles descobrirão é outro obscuro segredo aterrorizante.

Inicialmente o plano parece não caminhar muito certo, pois Bobo infelizmente tenta sem sucesso convencer a dona da casa, interpretada por Wendy Robbie, a entrar pelo interior da habitação para dar vazão ao plano. Spencer adentra com o seu disfarce de funcionário da companhia de gás e consegue a desejosa passagem, mas misteriosamente desaparece. Sem rastros, a dupla vai precisar aguardar a saída dos moradores para entrar e descobrir o paradeiro de Spencer e entender o que de fato ocorre no interior da residência. Além de enfrentar um cão de guarda nada gentil, eles precisam lidar com estranhos sons oriundos do interior das paredes, uma verdade que ao ser revelada vai estabelecer o clima de horror da narrativa.

Alguns movimentos estranhos deixam a entender que a casa não está vazia. Há alguma coisa inexplicada. Seria ratos? Pessoas sequestradas? O que faz tanto ruído do lado interno da habitação? Ao adentrar, Bobo conhecerá Alice (A. J. Langer), garota que mora na casa e é protegida pelo casal chamado de mamãe (Robbie) e papai (Everett McGrill), sem nome específico na trama. Ela se veste tal como uma boneca e ainda é parceira de Barata (Sean Whalen), jovem que não pode ser comunicar oralmente por conta da língua cortada. Ao passo que a história avança, alguém diz que ali é “como se fossemos prisioneiros e os bandidos homens bíblicos”.

Basicamente isso, pois descobriremos que o casal na verdade é formado por dois irmãos incestuosos que possuem um projeto de limpeza étnica na região. O que isso significa? As criaturas atrás das paredes são seres humanos transformados em monstros aprisionados no porão e alimentados por carne humana. A menina em si é a única com traços de humanidade. O resto é tratado como monstro, espécie de zumbis que vagueiam pela residência. O figurino de Ileane Heltzer, juntamente com o design de produção de Bryan Jones, emprega ao filme o tom visualmente horripilante, necessário para a ojeriza do público diante de uma situação filosoficamente hedionda, quanto mais em seus aspectos visuais.

Há de se observar as conveniências do roteiro de Wes Craven, mas nada grave demais e que estrague o parque de diversões diante de uma narrativa tão empolgante e com revestimento crítico ácido e contundente, prévia de situações desumanas que continuam acontecendo a todo instante nos supostamente calmos subúrbios estadunidenses. Ainda no bojo técnico, a condução musical de Don Peake cumpre bem a sua função e a direção de fotografia de Sandi Sissel consegue nos fazer adentrar na atmosfera às vezes claustrofóbica da narrativa. Ademais, o avô de Bobo, interpretado por Bill Cobbs, bem como outros coadjuvantes que surgem ao longo da história tornam o filme uma experiencia dramática carismática, pois realmente nos importamos com aquelas pessoas e suas existências sofridas.

As Criaturas Atrás das Paredes (The People Under The Stairs/Estados Unidos, 1991)
Direção: Wes Craven
Roteiro: Wes Craven
Elenco: A. J. Langer, Brandon Adams, Everett McGill, Ving Rhames, Wendy Robie
Duração: 100 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.