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Crítica | Astronauta – Magnetar

por Ritter Fan
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astronauta-magnetar- plano critico graphic msp

estrelas 3,5

O projeto MSP 50, que colocou roteiristas e desenhistas da indústria de quadrinhos no leme das diversas criações de Mauricio de Sousa foi tão bem sucedido que não só gerou dois filhotes (MSP +50 e MSP Novos 50), como também, o Ouro da Casa, em que vários artistas dos próprios Estúdios Mauricio de Sousa tiveram as rédeas soltas  para se divertirem com o material que todos nós conhecemos.

Mas talvez o mais interessante filhote do MSP 50 tenha sido o alardeado projeto Graphic MSP, que se inicia com Astronauta: Magnetar. O projeto entrega determinados personagens a artistas de renome para que eles produzam, com aparente total liberdade, verdadeiras graphic novels.

Assim, Danilo Beyruth nos entrega algo bem diferente daquilo que estamos acostumados a ver, mas sem matar a essência do Astronauta. Não esperem aquela roupa característica azul, amarela e vermelha, com uma redoma de vidro que, no conjunto, parece mais um casco de tartaruga. Danilo tenta fincar o personagem na realidade, trazendo algo que lembra muito o modelito criado por Moebius para Alien – O Oitavo Passageiro. Mas os temas “solidão” e “bravura”, marcas registradas do personagem, estão lá intactos.

Com isso, vemos Astronauta chegar a um magnetar, uma estrela de nêutrons comprimida que gera um fortíssimo campo magnético, para instalar sensores de pesquisa. No entanto, no meio de seu trabalho, tudo dá errado e ele acaba sem ter como sair de lá. Não há outros personagens a não ser o protagonista e, por algumas páginas, a inteligência artificial de sua nave.

O que se vê, a partir daí, não é terrivelmente original, pois lembrará desde filmes como o já citado Alien, passando por Solaris, até os recentes Sunshine – Alerta Solar e Lunar. Acontece que Danilo consegue encapsular a essência de todos esses filmes e, de maneira muito eficiente, misturando-as com a do próprio personagem, acaba criando uma narrativa quase que inteiramente fluida e muito excitante.

Mas o autor não ousa. Apesar de sua pegada séria e, às vezes, sombria, já que flerta com a loucura Danilo joga de maneira segura, como se não quisesse ferir os sentimentos de Mauricio de Sousa ou – o mais provável – tenha sofrido pressões para manter a estrutura da história mais amigável. Assim, apesar de conseguir se livrar de um começo arrastado e demasiadamente técnico quando explica o fenômeno estelar e a missão do Astronauta, o autor parece reverter à simplicidade das histórias originais do personagem, recorrendo a artifícios facilmente digeríveis e não muito polêmicos.

O uso de um deus ex machina no finalzinho é especialmente desconcertante, pois ele permite uma saída fácil e, em última análise, desnecessária para o personagem, traindo até mesmo o tal flerte com a loucura que mencionei mais acima. Não que o final precisasse ser trágico – isso também não funcionaria – mas um pouco de mistério e um convite a conjecturas seriam muito bem vindos.

O desenho do autor é lindo. Ele trabalha muito bem as splash pages, homenageando obras clássicas como 2001 – Uma Odisséia no Espaço sem ser óbvio e apelativo. As mudanças nas feições do Astronauta também merecem nota, assim como a simplicidade objetiva da forma como ele retrata o espaço. Danilo não inventa. Ele desenha aquilo que precisa ser desenhado para transmitir emoção e senso de perigo, algo que sua narrativa às vezes não deixa passar. O modo de mostrar a passagem temporal é outro ponto alto dessa graphic novel e Danilo o faz com genialidade e, novamente, simplicidade. E nós acreditamos no que Astronauta passa e conseguimos simpatizar com seu drama.

Mesmo não tendo ousado além da zona de conforto, Danilo Beyruth faz de Astronauta: Magnetar um ótimo primeiro número do projeto Graphic MSP, que merece ser lido por qualquer fã de quadrinhos, não só por aqueles que gostam do trabalho de Mauricio de Sousa.

Graphic MSP #1

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4 comentários

Caio Vinícius 13 de novembro de 2015 - 18:08

Poxa vida, tomei vergonha na cara e comprei. CARAMBA! Que uso de cores exemplar, nem parece que foi a mesma Cris Peter de Pétalas que coloriu. Isso só prova o quão versátil ela é. O roteiro do Danilo também é ótimo, mas tenho a impressão de que ele queria ter feito um trabalho maior. Algumas coisas como o final destoam muito da obra e eu espero que isso não atrapalhe o próximo volume.

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planocritico 13 de novembro de 2015 - 20:02

@CocoaGamer:disqus, tenho quase certeza que o Danilo sofreu pressões para fazer algo mais “leve” e aí deu no que deu: uma ótima história que mostra sinais de que poderia ser uma obra-prima.

Abs,
Ritter.

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Luiz Santiago 9 de junho de 2014 - 04:54

Demorei muito tempo para ler esse aqui, e só agora, depois de ler e escrever sobre o Piteco, leio a história completa do Astronauta.
Confesso que gostei muito da abordagem do autor, do flerte com a loucura e com o mundo da ficção científica, que você sabe ser um dos meus favoritos. Mas tem aquele probleminha do final tão bem colocado na sua crítica e com o qual eu concordo totalmente. Creio que até por ter sido o começo de um selo que, a despeito do sucesso de outros trabalhos, era uma aposta arriscada, o Danilo passou por pressões para tornar as coisas mais… digamos… familiares e um pouco mais fáceis, o que acabou diminuindo a densidade da obra. Mas não há dúvidas de que se trata de uma ótima história e com uma maravilhosa arte. 🙂

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planocritico 9 de junho de 2014 - 12:30

Sim, acho que o peso da aposta arriscada segurou o Danilo. Mas o resultado final foi bacana, apesar de tudo. Fiquei curioso pelo já anunciado Astronauta 2. – Ritter.

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