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Crítica | Boiling Point (1990)

por Ritter Fan
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De certa forma, Policial Violento, a ótima estreia de Takeshi Kitano na direção, caiu sem querer em seu colo e, mesmo que ele tenha tido a oportunidade de alterar o roteiro – ainda que sem levar crédito, mas isso faz parte – o longa não pode ser exatamente considerado como característico de sua cinebiografia. Mas isso mudaria logo no ano seguinte com Boiling Point, seu segundo trabalho na direção e seu primeiro roteiro propriamente dito, filme que já começa a delinear sua pegada pouco convencional.

Mantendo a premissa de “história de vingança” de Policial Violento, Boiling Point é, decididamente, um filme menos fácil de ser enquadrado como uma coisa ou outra, especialmente quando transita entre o drama e a comicidade e até o absurdo com bastante facilidade, ainda que com alguns problemas aqui e ali resultantes da montagem do veterano Toshio Taniguchi por vezes perdida e abrupta que atrapalha transições, passagens temporais e até mesmo localizações espaciais, algo que reputo que possa ter origem na decupagem de Kitano. Seja como for, a abordagem do diretor está menos na narrativa sobre um jovem apático (Masaki, vivido por Yūrei Yanagi) que procura vingança contra a Yakuza e que, no processo, acaba se envolvendo com outro criminoso (Uehara, o próprio Kitano) que também procura sua própria forma de vingança, do que na maneira como o cineasta parece enxergar o Japão moderno.

Há um nível grande de contemplação em sua obra, contemplação essa que exige um pouco do conhecimento do mindset nipônico, com uma juventude mais, digamos, marginal, sem caminhos claros na vida e que acompanham o movimento das ondas da vida sem tentar causar qualquer tipo de distúrbio. Masaki não sabe jogar beisebol direito, mal consegue falar com seus amigos, mas por vezes explode em demonstrações de segurança extrema que são representadas pela forma direta com que ele aborda uma bela garçonete em uma lanchonete ou, claro, quando ele resolve agredir um membro da Yakuza que não gosta de seu trabalho (com razão, aliás, ainda que sem razão na forma como ele demonstra isso) em um posto de gasolina.

Mas Kitano não se contenta em lidar com a juventude da época, pois seu personagem é da geração anterior e ele é retratado com ainda mais problemático e violento, especialmente desrespeitador de mulheres, fazendo sua namorada transar com o amigo (e depois culpando os dois por terem cedido a seus apelos) e seguidamente dando tapas na cabeça da moça em sequências enervantes, daquelas que dão vontade de pular na tela para socar o sujeito. Em outras palavras, há um subtexto de desesperança que perpassa sua obra, uma visão bem particular de “juventude transviada” oriental que parece perenizar-se desde o fim trágico da Segunda Guerra para seu país.

O que Kitano consegue fazer, porém, é costurar tudo em um conjunto que pode não ser exatamente coeso – há duas histórias bem claramente separadas no longa que ele não consegue unir de maneira que não percebamos a costura -, mas que carrega uma mensagem agridoce, sem, porém, perder um lado cômico interessante que não faz o espectador rir de verdade, mas sim sorrir aquele sorriso incerto, talvez até impróprio e certamente desconcertante, algo que o cineasta consegue repetir por várias vezes ao longo de sua carreira. No entanto, ainda vejo uma fase de experimentação aqui para o diretor que, mesmo tendo menos rédeas do que no filme anterior, ainda não sabe muito bem o que fazer com sua liberdade e, com isso, acaba construindo uma narrativa episódio, quase que composta por alguns esquetes alongados em meio a uma história mais ampla que tem a vingança como pano de fundo.

Boiling Point é, no final das contas, uma experiência muito interessante que primeiro fascina pela sua enganosa simplicidade e que, em seguida, escancara as portas para experimentações que até mesmo resvalam no surreal, revelando o trabalho de um diretor tentando encontrar sua verdadeira voz, sua verdadeira visão de mundo. Uma coisa, porém, é certa: Kitano mostra inquietude e essa é uma das marcas mais valiosas para um cineasta construir sua carreira.

Boiling Point (3-4 x Jûgatsu – Japão, 1990)
Direção: Takeshi Kitano
Roteiro: Takeshi Kitano
Elenco: Yūrei Yanagi, Takeshi Kitano, Yuriko Ishida, Gadarukanaru Taka, Dankan, Eri Fuse
Duração: 96 min.

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