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Crítica | Cara de Um, Focinho de Outro

Deixe a natureza ser natureza.

por Luiz Santiago
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Daniel Chong passou seis anos desenvolvendo Cara de Um, Focinho de Outro, o 30º longa da Pixar, depois de retornar ao estúdio em 2020, após a conclusão da muito bem recebida série Ursos Sem Curso, na Cartoon Network. Antes disso, o diretor havia trabalhado com os storyboards de produções da Disney, da Illumination e da própria Pixar, onde colaborou em Kung Fu Panda 2, Carros 2, Meu Malvado Favorito 2 e Divertida Mente. O projeto começou sendo chamado internamente de Penguin Avatar (cof, cof, cof), mas Pete Docter vetou a ideia dada a saturação dos pinguins no cinema animado, e a equipe migrou para castores após pesquisas sobre o papel desses animais no equilíbrio de ecossistemas. Jesse Andrews, roteirista de Luca, entrou no projeto cerca de três anos antes do lançamento e dividiu o crédito de história com Chong. As notas de produção falam de viagens de campo ao Parque Nacional de Yellowstone e ao Colorado, além de consultoria da Dra. Emily Fairfax, especialista em castores, tudo para dar um ar de credibilidade aos animais; por isso, o que chega ao público é uma animação que carrega, de ponta a ponta, a marca de um diretor com voz própria em mais um projeto com a cara de “tudo ou nada” (faz quantos anos que eu escrevo isso sobre a Pixar, hein?), o que termina sendo sua maior força e, em alguns momentos, o seu maior risco.

O ponto de partida, vou dizer logo de cara, é sofridamente batido. Mabel (Piper Curda), uma jovem ativista ambiental, transfere sua consciência para um castor robótico usando uma tecnologia secreta desenvolvida por sua professora universitária, a Dra. Sam (Kathy Najimy), e precisa convencer o reino animal a se unir contra o prefeito Jerry (Jon Hamm), que planeja destruir uma área natural para construir uma rodovia. Impossível não trazer Avatar como elemento comparativo, e o próprio filme se mostra consciente disso ao escancarar a metalinguagem: quando Mabel finalmente se coloca no corpo do castor e começa a agir como um animal de verdade e não como uma versão antropomorfizada de si mesma, o roteiro faz questão de marcar a mudança com piscadelas para o público, levando a obra para um outro patamar narrativo, que é o de explorar a natureza pelo ponto de vista dos animais, com suas regras implacáveis de sobrevivência. Com este ponto de vista o diretor nos traz um terreno mais interessante e fértil, abrindo as portas para explorar coisas que só são possíveis quando bichos “agindo como bichos” estão em cena — e mesmo que o pensamento às vezes fechado de Mabel resista por um tempo, por motivos que descobrimos mais no final, a essência da animação é a de integração meio maluca (além de crítica e consciente) entre esses personagens.

Mesmo o filme tendo entrado no meu radar apenas quando recebi a missão de escrever sobre ele (graças à incompetência de certas pessoas), uma breve olhada na internet para ver detalhes de sua produção, bastidores e entrevistas me colocou diante de uma opinião que acabei concordando à medida que os primeiros minutos da obra se arrastavam na tela: o primeiro ato parece bem mais com a fase meh da Pixar atual, enquanto o segundo e o terceiro trazem uma experiência que nos lembram a criatividade quase inacreditável de outros tempos, só que aplicada a uma outra lógica, a uma outra Era. Da primeira parte, para mim, salva-se a construção de Mabel: Chong e Andrews dedicam uma atenção grande à personagem, apresentando sua relação com a avó, com a Barra do Castor e com o lugar que esse espaço ocupa na sua identidade, com um nível de detalhe que supera as baixas expectativas. Quando o filme finalmente engrena e começa a interagir com o mundo dos humanos em uma das viradas mais ágeis do roteiro, a atmosfera parece flertar com O Robô Selvagem, embarcando na tensão entre o instinto natural e as tentativas desastradas de coexistência entre diferentes grupos animais (e aqui, estou incluindo os humanos). O desenho de produção tem um certo ar simplista, às vezes aquém do que a Pixar já nos acostumou, mas as texturas e os detalhes de natureza são ricos, muitíssimo bem coloridos e lindos de verdade, terminando por compensar uma visão estética mais complexa.

SPOILERS!

Bobby Moynihan está absolutamente hilário como Rei George, com piadas certeiras e atitudes completamente inesperadas que arrancam gargalhadas genuínas do público mais velho, trazendo uma generosidade de personagem que vai muito além do esperado e que pode se tornar o queridinho de muita gente. Outro acerto gigantesco e deliciosamente tenebroso foi o personagem de Dave Franco (o verdadeiro vilão do filme), que começa como um principezinho mimado e venenoso para se tornar algo ainda mais perturbador depois da metamorfose, uma virada que está entre as melhores, combinando horror corporal, comédia e timing de fazer inveja. As gangues e outras formações que aparecem quando os animais lidam com os humanos, na segunda parte, também concentram os melhores momentos do filme ao juntar absurdo, ação e terror num desenvolvimento de narrativa cheio de tensão e sustos que agrada a todas as faixas etárias (e é aqui que o humor sombrio e estranho de Chong, bem diferente do que se espera da Pixar, finalmente se consolida).

Em certa medida, Cara de Um, Focinho de Outro não nega fazer parte de uma Era da Pixar que produziu obras como Elementos e Elio, mas é claramente uma obra superior a esses antecessores com quem dialoga. O filme consegue direcionar melhor o seu foco a questões que fazem sentido para a obra como um todo, entrando em discussões sobre empatia, abandono da posição de domínio e experiência ética em um roteiro com um bom frescor de ideias que explora sem chatice a noção de comunidade interespécies. A preservação de um espaço e a preservação de espécies são discussões centrais, ligadas aos motores do enredo que, uma vez posto em funcionamento, segue quase irrepreensível até o fim. A mensagem ambiental é genuína e o texto é esperto o suficiente para perceber que colocar emoções humanas nos animais é exatamente o tipo de armadilha que impede muita gente de enxergar a natureza pelo que ela é, e isso aparece nas cenas mais inteligentes da obra, inclusive naquelas de sobrevivência pura, cheias de decisões difíceis. Vencidos os tropeços do primeiro ato e perdoados os exageros e a aceleração demasiada ali perto do final, a animação surpreende porque mostra uma coragem rara hoje em dia, de confiar no absurdo como linguagem e no humor (às vezes muito) sombrio como argumento, o que, para uma Pixar que passou os últimos anos tentando nos emocionar com fofices a todo custo, buscando recuperar a sua magia do passado, é exatamente o tipo de escolha que precisava ir às telonas. Isto, porém, significa uma chacoalhada na abordagem geral da empresa, o que me faz pensar que tipo de produções veremos sair do estúdio daqui para frente.

Cara de Um, Focinho de Outro (Hoppers) — EUA, 2026
Direção: Daniel Chong
Roteiro: Daniel Chong, Jesse Andrews
Elenco: Piper Curda, Bobby Moynihan, Jon Hamm, Kathy Najimy, Dave Franco, Eduardo Franco, Aparna Nancherla, Tom Law, Sam Richardson, Melissa Villaseñor, Isiah Whitlock Jr., Steve Purcell, Ego Nwodim, Nichole Sakura, Meryl Streep, Karen Huie, Lila Liu, Eman Abdul-Razzak, Vanessa Bayer, Joe Spano, Ashley Adler, Lori Alan, Carlos Alazraqui, Bill Barretta, Reba Buhr, Daniel Chong, Josh Cooley
Duração: 104 min.

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