Crítica | Chi-Raq

“Isso é uma emergência.”

Lisístrata é a uma peça de teatro escrita por Aristófanes em 411 a.C. e conta a história da personagem homônima que, cansada da guerra entre Atenas e Esparta, organiza uma greve de sexo junto de outras tantas mulheres que será findada somente após um acordo de paz entre os exércitos. Elas se trancam em um templo e estão dispostas a manter a mobilização pelo tempo que for necessário, levando à uma guerra de sexos. Chi-Raq é a adaptação moderna dessa peça em uma Chicago do século XXI tomada pela violência, onde o motim liderado por Lysistrata (Teyonah Parris) ocorre após uma criança ser morta por uma bala perdida.

Com direção de Spike Lee, já é de se esperar que a obra, primeira produção original da Amazon Studios, possua forte teor crítico social e político, assim como é recorrente na filmografia do realizador. E logo de início já é possível identificar que esse será mesmo o caminho da projeção. Ainda que não seja inédito essa abordagem crítica de Lee, não deixa de ser surpreendente os dados que traz logo nos primeiros minutos da fita, mostrando que somente as mortes de militares americanos nas guerras do Afeganistão e Iraque somadas giram em torno de 6.700, enquanto Chicago teve, durante mais ou menos o mesmo período, mais de 7.000 mortes. Após essas informações, Chi-Raq parece um título bastante apropriado.

Apesar do início bastante intenso por conta dessas estatísticas e do rap cantado por Chi-Raq (Nick Cannon), apelido de Demetrius Dupree, rapper e namorado de Lysistrata, é justamente nessa parte que o filme acaba cometendo algumas falhas, algo que prejudica tanto a execução quanto a possibilidade de uma melhor avaliação. Um exemplo bastante claro é quando Chi-Raq e Lysistrata estão transando e Cyclops (Wesley Snipes), líder da gangue rival aos Espartanos de Chi-Raq, ateia fogo de surpresa na casa em que se encontra o casal. Após uma subida repentina de adrenalina na trama, a cena corta e avançamos para o dia seguinte, quando Lysistrata aparece caminhando tranquilamente nas ruas da cidade. Assim como a falta de simetria no ritmo atrapalha, as poucas aparições tanto de Cyclops quanto de sua gangue é outro fator incômodo na película, chegando ao ponto de quase esquecermos sua existência devido ao tempo que passa fora da tela.

As qualidades da obra, porém, se sobressaem em relação aos equívocos cometidos. Os números musicais, por exemplo, são muito bem executados e se encaixam com primor no decorrer da narrativa, fazendo a comédia de Lee flertar com um musical. Da mesma forma, as aparições de Dolmedes (Samuel L. Jackson) como um narrador alheio aos acontecimentos, mas que contextualiza algumas cenas, além de trazer muito bem uma dinâmica mais própria dos palcos, reforça o caráter hilário da fita, funcionando quase como um alívio cômico.

A cena mais impactante, no entanto, fica à cargo do padre Mike (John Cusack) durante o funeral de Patti, a jovem garotinha vítima da bala perdida. Além da forma como Lee filma esse acontecimento, de vários ângulos, passando por todos os presentes e cantos da catedral e trazendo uma grandiosidade para o momento, a interpretação de Cusack é de arrepiar. Seu discurso varia da consolação aos pais da menina à indignação pela situação e impunidade dos culpados, resultando quase num desabafo em quem vivencia aquilo com frequência exagerada. A estupenda performance do ator somada ao domínio completo da cena pelo diretor dá à luz uma exposição de um texto poderosíssimo, cheio de significado ao filme e carregado de críticas, o que nos dá a real dimensão dos fatos e, infelizmente, é facilmente adaptável para o nosso cotidiano.

Interessante também é perceber como essas críticas de Lee são causadoras de fortes reflexões para os espectadores e fundamentais para construção das personagens em equidade. Ao passo que nos pegamos pensando desde injustiças sociais até o sistema econômico vigente, percebemos que temas como masculinidade tóxica, um dos vários levantados pelo diretor, afetam diretamente Chi-Raq. Bruto, intransigente, hostil e irritadiço, ele é fruto de uma criação sem figura paterna presente (perde o pai ainda muito pequeno), com uma mãe que faz o que pode para conseguirem sobreviver e em um ambiente de extrema violência. Isso tudo o torna alguém completamente fechado para quem quer que tente ajudá-lo/aconselhá-lo, seja o benevolente padre Mike ou sua amada Lysistrata, causando aprofundamento em conflitos da obra que poderiam ser resolvidos mais facilmente caso não fosse sua inflexibilidade.

Da masculinidade tóxica, vamos para o machismo, que recebe atenção principalmente quando Lysistrata e suas companheiras invadem e trancam-se em um quartel do exército americano (o templo da peça original). Enquanto as mulheres, cansadas das mortes humanas e da violência causada pelo conflito das gangues, tomam a linha de frente para denunciar o problema, chamando atenção de literalmente todo o mundo, os homens parecem não entender o que está em jogo. Após vários meses de greve sexual, os homens começam a desesperar-se e resolvem negociar. O que não percebem, no entanto, é que as mulheres não querem uma boa transa para esquecer tudo, como insinuam em praticamente todas as negociações, elas querem a paz. Mesmo após dizerem claramente o que buscam, eles continuam tirando sarro, dizendo coisas como “nós temos algo no meio das pernas que elas não têm e vamos mostrá-las”. O lado positivo é que Lee sabe o quão ridículo, para dizer o mínimo, tudo isso soa e brinca com a situação, fazendo boa parte dos homens parecerem seres completamente descolados da realidade de forma hilária.

Mesmo que possua defeitos e não seja a melhor criação de Lee, Chi-Raq é uma obra incrivelmente bem adaptada e extremamente engraçada. Trazendo uma história antiquíssima para a era moderna, adaptando a narrativa para as mazelas do século XXI e com um roteiro escrito quase em totalidade em forma de rimas, o filme executa muito bem sua proposta ao mesmo tempo que consegue instigar o espectador a refletir sobre diversas questões. Uma peça teatral trazida para a sétima arte com a marca registrada de Spike Lee.

Chi-Raq — Estados Unidos, 2015
Direção: Spike Lee
Roteiro: Kevin Willmott, Spike Lee
Elenco: Teyonah Parris, Nick Cannon, Wesley Snipes, Angela Bassett, Samuel L. Jackson, John Cusack, Jennifer Hudson, David Patrick Kelly, D. B. Sweeney, Dave Chapelle
Duração: 127 minutos

RODRIGO PEREIRA . . . Certa vez um grande amigo me disse que após entendermos o que estamos assistindo, o cinema se torna uma experiência ainda mais fascinante e fantástica. Não poderia estar mais correto. O tempo passou e a vontade de me aprofundar cada vez mais só aumentou. Hoje, vejo no cinema muito mais do que meramente entretenimento, é um maravilhoso artifício que encanta, emociona, provoca e possui um grande potencial de transformação social. Pode me encontrar em alguma aventura pela Terra Média, lutando ao lado da Aliança Rebelde, tentando me comunicar com Heptapods ou me escondendo de Jack Torrance no labirinto de um fauno em alguma linha temporal criada por Dr. Brown e Marty McFly.