Um livro de aparência e conteúdo considerável. Assim é Chucky: O Legado do Brinquedo Assassino, publicado pela DarkSide Books através do Selo Macabra, material que se consolidou como uma “obra definitiva” sobre um dos maiores ícones do cinema moderno. Escrito por Dustin McNeill e Travis Mullins, o livro ignora o reboot de 2019 para focar na cronologia original de Don Mancini, oferecendo um material volumoso e indispensável tanto para fãs fervorosos quanto para pesquisadores do gênero horror. Ao longo de suas páginas, o leitor encontra um mergulho profundo nos bastidores, desde a concepção do primeiro filme até o sucesso da série de TV encerrada em sua terceira temporada, analisando o impacto cultural e a permanência do boneco ruivo no imaginário coletivo por meio de entrevistas exclusivas e curiosidades de produção, indo além da habitual cobertura com diretores, roteiristas e elenco, para dialogar com membros da equipe técnica que entregam informações valiosas sobre direção de fotografia, design de produção, maquiagem, dentre outros setores que envolvem uma produção cinematográfica.
Com aproximadamente 656 páginas, esta edição de luxo em capa dura lançada em 2023 no Brasil se destaca pelo capricho estético característico da editora, apresentando um projeto gráfico vibrante e ricamente colorido. Além de ser um prazer tátil e visual, o livro funciona como um item de decoração sofisticado, elevando o valor estético de qualquer estante. É, sem dúvida, a enciclopédia mais completa disponível sobre o universo de Chucky, equilibrando um conteúdo histórico rigoroso com a paixão necessária para honrar o legado desse clássico slasher que ao lado dos pesos pesados do subgênero, se mantém constantemente vivo na memória coletiva, conhecida até mesmo por aqueles que nunca viram um filme sequer da franquia. Apesar dos autores se comportarem como defensores ferrenhos de todos os capítulos dessa jornada, “passando pano” até mesmo para as falhas e constrangimento de alguns momentos do personagem, a publicação se mantém vigora e com uma fluência na escrita que permite envolvimento do leitor, mesmo diante do volumoso número de páginas.
Em linhas gerais, o que refletimos ao longo de sua leitura é que Chucky, o Brinquedo Assassino, é um dos ícones mais reconhecíveis do cinema de terror contemporâneo. Desde sua primeira aparição em 1988, o personagem se tornou um símbolo da cultura pop, refletindo não apenas o medo e a inquietude da época, mas também servindo como um veículo para discutir temas mais profundos relacionados à violência, à infância e à natureza do mal. Sim, caros leitores, sem querer forçar a barra, cinema também é contexto e os realizadores conseguem estabelecer, ao longo da narrativa, conteúdo que ultrapassam a linha do entretenimento e permitem discussões pertinentes sobre questões que pavimentam o nosso fazer social. O primeiro filme introduziu Chucky como um boneco da marca Good Guy, possuído pelo espírito de um serial killer chamado Charles Lee Ray. A premissa da narrativa é, por si só, perturbadora: um produto destinado a trazer alegria às crianças se transforma em um agente de morte e destruição.
A escolha de um boneco, uma figura normalmente associada à inocência infantil, como o protagonista de uma série de terror, desafia as expectativas do público e estabelece Chucky como uma antítese aos brinquedos com os quais as crianças se divertem. Essa subversão não apenas cria o terror, mas também provoca reflexão sobre a própria natureza das coisas que consideramos seguras e inofensivas. A partir de sua estreia, o personagem rapidamente se tornou uma figura icônica, especialmente entre os fãs do gênero de terror, indo além da tela, permeando a cultura popular através de brinquedos, jogos, camisetas e diversos produtos licenciados. A figura de Chucky, com seu cabelo ruivo e sua camisa listrada, se tornou um símbolo reconhecível, contribuindo para a construção de sua persona como um vilão carismático.
A comicidade ácida que rodeia o personagem, mesclando humor e horror, também ajudou na sua popularidade, permitindo que o público se conectasse com Chucky de maneira singular, mesmo quando ele estava em meio a atos de violência extrema. Nos anos seguintes, a franquia se expandiu para várias sequências e reboots, cada um abordando o personagem e suas histórias de maneiras diferentes. A evolução do antagonista reflete as mudanças nas tendências culturais e sociais, como é o caso do absurdo e questionável O Filho de Chucky, uma narrativa de muitos excessos, mas que, se observada mais atentamente, explora temas de identidade de gênero e sexualidade, além de parodiar não apenas suas próprias convenções, mas também a cultura pop moderna. Essa abordagem garantiu que o personagem não se tornasse um anátema da fórmula de terror, mas sim um reflexo das mudanças sociais e culturais em curso.
Além da evolução estética e narrativa, Chucky se tornou um marco no debate cultural sobre a violência na mídia. Nos anos 1990, especialmente, as discussões sobre o impacto dos filmes de terror nas crianças e nos jovens tomaram conta da mídia e da academia. O boneco, como figura de destaque em muitos desses debates, gerou uma polarização nas opiniões públicas, pois enquanto alguns defendiam que filmes como Brinquedo Assassino poderiam influenciar comportamentos violentos, outros argumentavam que a fantasia, quando bem dosada, faz parte da exploração humana da morte e do medo. Essa dualidade é o que torna esse ícone uma figura complexa e duradoura na psique coletiva. De certa maneira, a sua presença na cultura do entretenimento também estabelece críticas à cultura de consumo e ao materialismo, especialmente no que diz respeito aos brinquedos e produtos dirigidos às crianças.
O fato de que um boneco, que deveria simbolizar a diversão e a inocência, torna-se um símbolo de caos e destruição, questiona a imagem idílica que a sociedade frequentemente projeta sobre a infância e os objetos que a cercam. A maneira como a franquia lida com esses temas, entrelaçando comédia, horror e crítica social, eleva Chucky acima de outros vilões do gênero, conferindo-lhe uma profundidade que convida à reflexão. Esses não são exatamente pontos delineados no livro de Dustin McNeill e Travis Mullins, mas ideias que se desenvolvem ao passo que embarcamos em sua leitura. Meticulosos na longa pesquisa e na distribuição das informações, diagramadas com delicadeza pela editora brasileira, tendo no fluxo denso do texto, imagens diversificadas para o descanso do leitor, bem como a ilustração dos pontos abordados em cada passagem, Chucky: O Legado do Brinquedo Assassino é uma publicação imperdível para fãs e interessados numa compreensão mais ampla do terror enquanto gênero cinematográfico profícuo, rentável e capaz de estabelecer debates além da estética.
Em linhas gerais, caro leitor, um material notório para fazer parte de sua biblioteca.
Chucky: O Legado do Brinquedo Assassino (The Legacy of Child’s Play, EUA/2023)
Autor: Dustin McNeill, Travis Mullins
Tradução: Gabriela Müller Larocca
Editora no Brasil: Darkside Books (Sel Macabra)
Páginas: 656
