Crítica | Claro (1975)

estrelas 4

Durante quinze dias do segundo semestre de 1975, em Roma, Glauber Rocha esteve entregue a um exercício fílmico que seria a sua melhor obra, em termos gerais, desde O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro.

Claro é um filme documentário-manifesto ou um projeto cinematográfico de vanguarda que aglutina diversas vertentes trabalhadas pelo diretor até aquele momento e abre as portas para a sua fase final de retorno ao Brasil, que conta com o Programa Abertura, os curtas-metragens Di Cavalcanti e Jorge Amado no Cinema e o longa A Idade da Terra, que encerra a carreira do cineasta.

O que diferencia Claro das outras experiências estéticas de Glauber no exílio é a fluidez e a segurança com que ele leva a cabo questões técnicas e estéticas relacionadas à narrativa. É evidente que existem reflexos na edição de som (como em Câncer), na abordagem teórico-crítica do colonizador e as várias formas de exploração de um povo (como em O Leão de Sete Cabeças), mas a atenção do diretor se volta para a organização narrativa tanto em termos visuais quanto textuais.

Dessa forma, Claro representa um esforço para agrupar formatos múltiplos de intervenção pessoal e exposição pura e simples de uma ficção instigadora. No início da obra, onde está localizado o seu pior, vergonhoso e esquecível momento, temos, nas palavras do próprio diretor, um diálogo musical […] entre a moça e a voz fora do campo, […] uma espécie de exorcismo, um fato ritual, um “batepronto” entre passado e presente, entre angústia e esperança. É também um modo de combater a neurose que creio ser um produto típico do sistema capitalista*. Ou seja, a introdução foi pensada como um ritual musical de passagem para uma realidade onde as coisas ganham contornos mais fortes, onde as opiniões vêm à tona, onde a verdade se mistura com a crônica dos acontecimentos políticos cotidianos.

Passado o tal ritual de abertura, que entendemos como inútil e vergonhoso para o porte da obra que dali para frente seria genial, adentramos a uma estrada documental que se mostrará tanto no início quanto no final, momento em que o povo pobre, os proletários e os manifestantes tomam a tela, um ato político e visual muitíssimo bem estabelecido. Preenchendo esses trechos realistas  de reconfiguração geográfica no início e construção política do espaço geográfico como ator social ao final, temos esquetes desconexos dramaticamente mas ligados ideologicamente. Neles, os personagens se apresentam, falam diretamente para a câmera como em depoimento, dialogam indiretamente sobre visões de mundo, exploração de trabalhadores (incluindo o escravo), concepção política, e coisas que rejeitam na sociedade onde vivem.

Unindo essa abertura e fechamento predominantemente documentais ou realistas (Straub, Godard e Eisenstein são citados oportunamente em algum momento do filme e, mesmo que refigurados, podemos ver sinais do cinema de um e outro em Claro) e ficções politizadas, Rocha consegue expurgar possíveis dúvidas em relação à sua concepção de mundo e sua proposta histórica, especialmente no que se refere à luta do povo e às dominações do mundo capitalista. A raiz do problema vista por excelência em O Leão de Sete Cabeças e o delírio pelo poder e sua organização tênue, quase como uma roda da fortuna, como visto em Cabeças Cortadas, não aparecem aqui.

O dado fixo no tempo, o resultado de uma luta passada ou a consequência presente de uma atitude é que são os alvos do diretor nessa obra e ele consegue dissecar isso da maneira mais interessante e inteligente possível, encerrando seu auto-exílio (que bela reflexão ele faz sobre isso ao final do filme!) com uma fita digna de seu (re)conhecimento cinematográfico e de sua proposta teórica sobre como se deveria fazer cinema. Claro é daquelas realizações “desconhecidas” que gostaríamos que fosse descoberta por muito mais gente.

* Entrevista de Glauber Rocha no Paese Sera, Roma, edição de 23/jul./1975.

Claro (Itália, 1975)
Direção: Glauber Rocha
Roteiro: Glauber Rocha
Elenco: Juliet Berto, Mackay, El Cachorro, Jirges Ristum, Tony Scott, Luis Waldon, Bettina Best, Peter Adarire, Francesco Serrao, Anna Carini
Duração: 111 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.