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Crítica | Curtas do Oscar 2026: Animação

Entre tempos de gerações mais distantes.

por Davi Lima
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No seguinte compilado, você encontrará críticas de todos os indicados à categoria de Melhor Curta Metragem de Animação do Oscar 2026. Leiam as críticas e mandem seu comentários!

Papillon

O material da aquarela, como forma grossa e leve para expressar um tema denso e revivido, acaba sendo uma combinação poética e prosaica boa. A poesia se faz pelo silêncio do nadador olímpico Alfred Nakache, que sempre parece estar na água e só sai para compartilhar algum aprendizado. A prosa se faz pelo contexto histórico, que conta pelos diálogos que ensinaram a poesia ou tentam combater a poesia. É nisso que o curta Butterfly cresce, em como sua transição de poesia e prosa são como memórias na água e história na praia.

A ideia da água, tema tanto do protagonista nadador de nado borboleta, a modalidade mais cansativa, quanto do uso da aquarela, pintura que usa água para misturar os pigmentos, é a união mais clara da forma e do conteúdo. As transições, por sinal, por vezes são com uso de água pintada e por vezes são como uma pintura em movimento. Não demonstra digital em praticamente nenhuma abordagem.

E quanto à questão narrativa, há sempre a água para nadar, aprofundar ou subir para respirar, como maneira de apresentar outro ponto de aprendizado sobre a história de Nakache na França. Isso porque o curta quer ensinar e homenagear a morte da esposa e do filho do campeão olímpico durante o nazismo. Nisso, a água tenta compensar todos os dramas de uma vez só, tornando o narrar tradicional em um campo conceitual.

Ao fim, é uma obra bonita, no seu ponto mais superficial do adjetivo. Mesmo que haja uma dimensão marítima, piscinas e praias, a profundidade da obra é mais horizontal do que vertical. A completude de todas as partes do projeto se mostra harmônica, na poesia da água e na prosa de resistência do esporte ao nazismo, mas seu ensino como nadador se torna mais informativo do que traduzido na pintura, que de fato é.

A dificuldade de lidar com a aquarela é que ela já expressa movimento. Quanto mais ela é movimentada, não quer dizer exatamente que se está contando algo, por mais bonito e dramático que seja seu tema.

Papillon (França, 2024) 2024: Animação
Direção: Florence Miailhe
Roteiro: Florence Miailhe, Marie Desplechin
Dubladores: Fayçal Safi, Jessica Jaouiche
Duração: 15 min.

 

Forevergreen

O curta soa muito como uma alegoria cristã, especialmente ao utilizar as horizontalidades e as verticalidades associadas à árvore, e o cuidado sacrificial com o urso, sem nenhuma negatividade, como um perdão gracioso. Mas o que é mais interessante é a produção ser feita por ex-criadores da Disney, buscando ser um projeto artesanalmente digital. Parece contraproducente, mas, num olhar atento, a luz, a textura do urso, e tudo que é de madeira, ou de outro material, criam um certo contraste que vai além só da iluminação digital.

Nisso a questão espiritual soa poética e narrada sem uma forma específica. A harmonia se faz muito mais pelos fotogramas em sequência do que pelo material em si que queira desenhar seu tema. A grande leva de curtas do Oscar é valorizada pela dificuldade de se fazer alinhado ao tema. Esse caso aqui é mais do tipo tema em favor da natureza, na superfície, e de grande importância, com uma forma alinhada ao olhar atento da madeira e da luz no cenário digital.

Por sinal, em alguns conteúdos os cenários não são digitais. E mesmo sendo, mesmo com o digital ainda pode-se fazer algo artesanal, que foi o caso de Flow. Aqui em Forevergreen soa a mesma ideia, com algumas camadas espirituais. Os diretores se dizem cristãos, o que explica muito do arco narrativo Criação, Queda e Redenção, assim como o versículo de João 15:13: amor pelos amigos.

Mas no geral é uma história de amizade supercomum, das que já foram feitas pelos grandes estúdios, se diferenciando por tornar o digital algo de frame a frame, como no stop motion. A gradação de movimento na história torna os contrastes mais enfáticos, especialmente com movimentações mais rápidas, como o crescimento de uma planta, ou da água.

Acaba que a natureza ganha mais vida, e por consequência a vida vale mais quando a forma valoriza o tema no seu cuidado, muito mais do que uma harmonia conceitual.

Forevergreen (EUA, 2025) 2024: Animação
Direção: Nathan Engelhardt, Jeremy Spears
Roteiro: Nathan Engelhardt, Jeremy Spears
Duração: 13 min.

 

The Girl Who Cried Pearls

O tipo de obra que mostra a evolução do stop motion e a integração com o digital. A dimensão de tempo na narrativa acentua ainda mais isso, e, no final, é uma obra que conta sobre o valor da história para dar valor a qualquer tecnologia, ou milagre. Seja por ganância, seja por religião, seja por pura emoção, no final o dinheiro é fundamentado no desejo mais profundo de ter, mais que criar. Por isso o idoso, anos depois, contar essa história é como se fosse o momento perfeito para entender que o dinheiro perde valor, mas a vida e a sua criação não.

A construção dos bonecos é sem valor se não tiver uma história que os motive, dê energia. Tim Burton dizia que ele preferia o stop motion porque era como Frankenstein, que dava vida ao inanimado. Aqui, não basta só energizar com a direção, mas também com o digital. Nisso, o tempo do passado, em que os personagens não mexem a boca, apenas são narrados pelo idoso, cria uma dimensão ainda mais engessada de uma memória, ou de uma história. A ambiguidade vai se tornando pelo menos maleável, ao ponto de o líquido se tornar pérola.

A dúvida sobre pérola ou plástico, a partir da inovação japonesa, é a mesma que o stop motion tem com o digital. Na medida em que o digital toma conta pela rapidez, o stop motion se torna inviável. Quantos filmes o estúdio Laika faz em comparação à Pixar? E não se vale apenas de artesania, e sim de modo de trabalho e capital. No final, é sobre isso que o curta fala. Na perda da vida há mais riqueza, mas a que custo? Ao mesmo tempo, uma interpretação religiosa torna aquilo misterioso em algo único, mas a que custo?

A troca do manual pelo digital, e o inverso, não é tão importante quanto o propósito de criar. Ao final, mesmo que seja tudo sobre ganância, a criança ouviu uma história complexa, olhando a realidade em várias proporções, podendo complementar a história do avô em uma nova história. A questão geracional, enfim, especialmente no campo da animação, é que sempre coloca em jogo a maneira de fazer o desenho. Porém, a forma sem o conteúdo integrado de nada vale.

De nada vale purismo, se ele não contribui para criar novas histórias; de nada vale a rapidez, se contam-se as mesmas histórias. Enfim, a história tem seu tempo próprio. Sobre o que o choro de uma mulher vai criar agora? O presente vai dizer.

The Girl Who Cried Pearls (Canadá, 2025) 2024: Animação
Direção: Chris Lavis, Maciek Szczerbowski
Roteiro: Chris Lavis, Maciek Szczerbowski, Isabelle Mandalian
Dubladores: Colm Feore, Gabrielle Dallaire
Duração: 17 min.

 

Retirement Plan

Apesar de parecer um artigo do New Yorker, ou um To-Do List de aplicativo tornado em curta-metragem de tirinha animada, ainda assim é de uma melancolia absurda. Além disso, mais uma vez Domhnall Gleeson se mostra versátil e totalmente fora do comum no quesito carreira, ao ler a lista de aposentadoria do protagonista Ray. Como é uma leitura de lista, as interpretações são mais nos absurdos que estão escritos do que em alguma tentativa de tornar realista. Mas é o suficiente para amarrar a narração visual e textual à finitude do tempo da maneira britânica de criar.

São tantas coisas a se fazer quando se aposenta que a dinâmica se torna incompreensível. Não se sabe para onde vai, e quando vai já se foi. É algo próximo às Memórias Póstumas de Brás Cubas da maneira Ricky Gervais de atualizar. É algo próximo de sua série After Life, numa comédia ácida e enlutada, sem parar. Mas no final parece um artigo, não um roteiro.

Por não parecer um roteiro, a ilustração toma conta de compor os detalhes, e daí interpretar o que é o ‘sim’ e o que é o ‘não’. A dinâmica envolvendo drogas, ou até mesmo a passagem de tempo, é tudo ilustrado pela animação. Se não fosse ela, estaríamos num loop de uma lista, que só acaba quando não tem mais certeza do que se pode fazer após a palavra final de suspiro.

No mínimo é engraçado, em meio ao luto constante. É o tipo de humor que completa a lista do Oscar quase todo ano, como uma cota britânica, ou uma cota do New Yorker, que sempre tem sua comédia simples, uma mágica para resolver problemas que nem estávamos pensando. Indico, por isso, esse artigo sobre Anos Dourados da aposentadoria, que não pertence mais a esse geração.

Retirement Plan (Irlanda, 2024) 2024: Animação
Direção: John Kelly
Roteiro: John Kelly, Tara Lawall
Dubladores: Domhnall Gleeson
Duração: 7 min.

The Three Sisters

Humor russo, ou do Leste Europeu, que também tem sua cota no Oscar, sempre cria uma nova perspectiva sobre personagens 2D tão monocromáticos. A perda do dinheiro, a necessidade dele para a transformação das três irmãs religiosas em prostitutas, e depois revelar desejos antes não demonstrados. É mais uma história de Konstantin Bronzit indicada ao Oscar, depois de 2016.

O que é mais interessante é a rotina. A contagem do tempo dimensiona bem como as ações das personagens são repentinas, ou por puro interesse. Além disso, existem elipses, além de barulhos e gestos que constroem um mundo tão estático em dinâmicas bem realistas. Ao mesmo tempo que soa tudo tão isolado e fatalista nas ações, tudo pode mudar a partir do mar, que isola tudo.

Existe até mesmo um senso de perigo muito bem desenvolvido. Não apenas na perda dos pertences do marinheiro, mas no materialismo mesmo. A ausência de dinheiro cria um desespero, e esse tal desespero se torna resolvido em uma necessidade sexual, ou matrimonial. Mesmo que soe um curta sobre crítica ao patriarcado, parece mais uma comédia de costumes.

Diria que é um tipo de produção reta que Wes Anderson faria, porém teria mais escrúpulos, ou moral. Mas, em geral, é a mesma proposta de criar um universo único a partir de um 2D programado em tela.

The Three Sisters (Israel, Chipre, Rússia | 2024) 2024: Animação
Direção: Konstantin Bronzit
Roteiro: Konstantin Bronzit
Duração: 14 minutos.

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