Home FilmesCríticasCatálogosCrítica | Curtas do Oscar 2026: Documentário

Crítica | Curtas do Oscar 2026: Documentário

Entre o jornalismo, o cinema vérité e os animais de carga.

por Davi Lima
3 views

Curtas Documentário Oscar 2026

No seguinte compilado, você encontrará críticas de todos os indicados à categoria de Melhor Documentário em Curta-Metragem do Oscar 2026. Leiam as críticas e mandem seu comentários!

All the Empty Rooms

Curtas Documentário Oscar 2026O trabalho jornalístico aqui nesse curta é na verdade histórico e arqueológico. Revirar lugares de memórias não apenas remonta histórias trágicas, mas remonta o que os EUA entendem como casa, quarto, e o que o país já passou sobre as discussões do porte de arma após Columbine. E o que torna o curta tão ganhável para o Oscar, no quesito qualidade, é como essa arqueologia mórbida estadunidense diz tudo sobre o jornalismo do país por meio do protagonista Steve Hartman.

Mesmo que o curta se aproxime muito do outro indicado sobre a morte de crianças em Gaza, especialmente na parte de protesto contra o silêncio e a apatia, o diferencial é que há uma pessoa central aqui. Como um bom método do cinema americano, o individualismo reina para falar do coletivo, das famílias em casas bem cuidadas, de quartos vazios, por poderem ainda serem visitados, como um culto ou religião. O indivíduo nos EUA é cultuado, e as fotografias vão evidenciando a cultura pop, o universo dos bailes das escolas, agora num contexto de um futuro interrompido.

Aí que Hartman é o melhor intermediador disso. Tanto porque ele já faz o trabalho agridoce de aliviar tragédias do jornal CBS, quanto porque ele é pai. O curta é tão americano que Hartman fecha o curta como um herói memorialístico. Só um cinismo gigantesco não vislumbra na montagem a proposta de não dramatizar em excesso, e sim registrar, de fato, uma reportagem, autoral, de alguém que não quer mais aliviar, e sim provocar. Por isso que a História e os Historiadores são perigosos para alguns, porque eles conversam com os mortos.

Hartman, ao falar com os pais, descobre religiões do luto. Uma espécie de negação a partir de um lugar intocável, e por isso registrável com a fotografia. Porque assim é a fotografia, a tentativa de interrupção do tempo, mas tragicamente mostra a irrepetibilidade do tempo. Por isso o fotógrafo de Hartman tira foto de sua filha todo dia. São as fontes históricas domésticas feitas a partir de um país com medo de perder as crianças na escola.

All the Empty Rooms (EUA, 2025)
Direção: Joshua Seftel
Elenco: Steve Hartman, Lou Bopp, Frank Blackwell, Nancy Blackwell, Rose Bopp, Chad Scruggs, Jada Scruggs, John Scruggs, Charlie Scruggs, Gloria Cazares, Javier Cazares, Meryl Hartman, Cindy Muehlberger, Bryan Muehlberger
Duração: 34 min.

 

Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud

Curtas Documentário Oscar 2026Existe diferença entre filmes de horror da guerra e antiguerra. A montagem desse curta, que parece um miolo improvisado, se conectando pelos temas introduzidos de uma sequência para a outra. Em geral, não há harmonia aqui nessa tentativa de compor a vida e a morte como um fantasma da câmera. Há, na verdade, um olhar militarizado em contradição, quando a câmera é vista como arma, não como um olhar.

Quando o curta termina afirmando que “o jornalismo é a profissão mais perigosa do mundo”, essa afirmação não deve se basear apenas em correspondentes de guerra, e sim no universo de desinformação, de luta pela verdade num contexto tão hiperinformacionalizado. Fazendo exercício de comparação dessa categoria do Oscar, o curta de All the Empty Rooms, que foca também em um protagonista jornalista, parece ter muito mais escrúpulos com a morte, ou pelo menos ter noção de que a verdade não é apenas apontar a câmera e mostrar.

Em geral, Brent Renaud, em tentar mostrar o horror da guerra, perpassa por noções da insensibilidade. Seu espectro autista poderia mascarar sua coragem por mostrar o pior, sem entender a moral visual do ângulo. Quando seu irmão apenas grava-o morto no caixão, numa equiparação ao efeito da guerra, há uma dificuldade de entender que a câmera não pertence aos Renauds.

O fator homenagem do curta perpassa muito mais do que o querer de Renaud sobre mostrar a guerra para evitá-la. Por isso é importante entender o anti-guerra. Fazer de Renaud um herói, um mártir do jornalismo, e mostrar sua morte como uma celebração de uma vida, se mostra contraproducente em entender a vida de Renaud como a gravação de dores de pessoas, na Somália, Iraque, Haiti, e várias outras tragédias sociais.

Fica, assim, uma montagem de comparação, o enterro gravado, um Renaud que deu vozes a pessoas negras de Chicago, mas não parece propor nada com seus ângulos além de mostrar. E só mostrar pode apenas alimentar o mesmo tema, não denunciar, objetivamente. Mas o homem celebrado, visualmente, é evidenciado pela sua religião, pela sua bandeira e pela cicatriz de bala. Não soa muito pacífica a maneira que o irmão, Craig Renaud, homenageia seu irmão para mostrar o horror da guerra que ele tanto gravou para… registrar, apenas.

Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud (EUA, 2025)
Direção: Brent Renaud, Craig Renaud
Elenco: Jon Alpert
Duração: 37 min.

Children No More: Were and Are Gone

Curtas Documentário Oscar 2026A potência do curta documental aqui é o seu tema silencioso, que reverbera denúncias por meio do protesto. Gravar isso, baseado na imagem e na passividade, faz dos vigilantes de Tel Aviv quase mártires, de propor uma paz silenciosa em um contexto tão barulhento que é a guerra. Assim, mesmo que não haja muito o que mostrar de diferente quanto ao protesto em si, os israelenses tomam conta de reagir e evidenciar a dificuldade de lidarem com o silêncio.

Por isso que a narrativa da pensadora dos protestos conversando numa entrevista com a documentarista é pouco relevante. Todo o processo de preparação é interessante, em como captar as imagens, e também representar as crianças sem imagens. É também um reflexo jornalístico para compor tantas informações. Informações fortes, de crianças mortas.

Nisso é que o trabalho do curta cresce em evidenciar a máquina da imagem de empatia, e como isso é ausente em boa parte dos grupos que veem os vigilantes. É um belo retrato dos protestos contemporâneos que remontam Gandhi, e uma presença nas ruas pós-Primavera Árabe, fora das redes sociais. É um refresco ver pessoas nas ruas em silêncio. É o ato de pacificação que obriga a algum tipo de reconciliação. Uma ética judaica, afinal.

Children No More: Were and Are Gone (EUA, Israel, Reino Unido, 2025)
Direção: Hilla Medalia
Duração: 36 min.

The Devil Is Busy

Curtas Documentário Oscar 2026Quando o curta escolhe Tracii como protagonista, uma mulher negra, bastante religiosa, cristã, existem várias outras camadas sobre sua percepção sobre o aborto, que se direcionam a uma frase bem bíblica: ‘sou abençoada abençoar os outros’. Refletindo isso para os protestantes em frente à clínica, o curta olha por outro lado, se comparado aos outros indicados à categoria; os que protestam são os demônios pela hipocrisia, pelo julgamento, enquanto a personagem busca coerência, sendo assertiva, assim como o curta, em expressar uma fé individual, mas dentro de uma ética cristã básica.

Porém, essa assertividade fica variando entre dilemas de saúde, como abortos para bebês natimortos, ou dilemas em praticar aborto dentro da risca da lei. A discussão sobre o coração do bebê ser formado na sexta semana, a questão dos direitos das mulheres, e como a pauta do aborto não devia ser a principal, aponta para um cinema verdade que foge de ideologias e superficialidades, mas não se contenta em assertividade como a trama da Tracii.

O seu zelo pela clínica, o cuidado com as pacientes, evidencia uma ética muito coerente com seu cristianismo. Seu individualismo e drama pessoal amenizam bem qualquer problema em voga sobre a moral, porque no final o curta está preocupado em como a religião está em todo lugar, até mesmo na clínica de aborto. São humanos tentando ajudar alguém, mesmo que possam ter lá seus motivos questionáveis. Mas não importa. A lei permitia, e o curta culmina exatamente no cenário mais aterrorizante do governo Trump.

Talvez se o curta desenvolvesse mais embates religiosos… porém, do jeito que é acaba conseguindo retratar numa espécie de cinema vérité, um realismo para esse tema que dá dor no coração.

The Devil Is Busy (EUA, 2025)
Direção: Geeta Gandbhir, Christalyn Hampton
Duração: 31 min.

Perfectly a Strangeness

Curtas Documentário Oscar 2026Desde Balthazar de A Grande Testemunha de Robert Bresson, passando por Cavalo de Guerra, EO de Jerzy, e agora esse curta, digno do Festival de Cannes, aparece no Oscar para trazer entre burros e cavalos o reflexo universal do movimento, da vida e tudo mais. O conceito documental de propor o acompanhamento dos três burros acomete perfeitamente os segredos da natureza, e com gravá-la cria surpresas. Porém, existe uma certa modelagem na estrutura do curta que faz os mistérios do movimento da natureza começarem a se perder, mesmo havendo a proposta de contrapor ao movimento mecânico.

A busca por comparar a estrutura de um observatório automático e as observações das orelhas dos burros é criativa, ainda mais com a câmera no dorso. Existem alguns ângulos que merecem palmas para o cinegrafista, em vista da dificuldade de gravar a natureza sem afetá-la completamente. A cena da raposa se esgueirando da câmera, até conseguir estabilidade, é uma evidência disso, assim como a distinção entre a câmera estática e a câmera de mão acompanhando os burros delimita uma busca por agarrar a vida do animal.

Porém, quanto mais o curta tenta conceituar e universalizar a coisa toda, e poetizar com o universo, e o olhar associativo do burro com o cenário estelar, o filme vai perdendo o burro, e alçando o mecanicismo. No entanto, creio que há uma tentativa de não apenas contrapor, mas também de embelezar o automatismo, a astronomia, diante dos burros passivos, apenas acompanhantes da noite.

De tanto valorizar os burros, há um desmerecimento fulcral em tentar criar um conceito dentro de outro, como a ideia dos espelhos literalizando reflexões, perdendo a concretude da natureza. Desde Bresson até EO, o que se passa nesses filmes é exatamente o desenvolvimento, ou regresso, em como usufruir da natureza como testemunha, nunca se contentando com seu tempo, e sempre acrescentando lirismo ao que já é contemplativamente lírico. É como colocar mais natureza no Arcadismo, até inflar e não ser mais bucólico.

Perfectly a Strangeness (Canadá, 2024)
Direção: Alison McAlpine
Roteiro: Alison McAlpine
Elenco: Palomo, Ruperto, Palaye
Duração: 15 min.

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais