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Crítica | Cyberpunk: Mercenários – 1ª Temporada

A salvação de um fiasco.

por Ismael Vilela
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Há spoilers.

Se existe uma premissa que sustenta a vasta e complexa arquitetura visual de Cyberpunk: Edgerunners, é a noção de que o caos de Night City ressoa com uma magnitude invariavelmente superior à soma de suas tragédias individuais. É nesta dialética entre a carne vulnerável e o metal implacável que o estúdio Trigger, sob a supervisão da CD Projekt Red, alicerça uma minissérie (ou, ao que parece, uma série, haja vista que houve uma surpreendente e contraditória renovação para a 2ª temporada) que, paradoxalmente, encontra sua grandiosidade ao aceitar a autodestruição de suas peças para construir um mosaico de sobrevivência e niilismo. Ao transpor para a animação a densidade lúdica do jogo (sim, o fiasco que foi Cyberpunk 2077) de Mike Pondsmith, a direção de Hiroyuki Imaishi não apenas traduz mecânicas em imagens, mas assume o risco de uma narrativa que opera em um registro de sensibilidade no qual o excesso não é um defeito, mas uma ferramenta estética de imersão cibernética.

De modo geral, a utilização de uma ambientação singular que, embora beba das fontes clássicas do sci-fi distópico, confere à metrópole californiana uma identidade cromática vibrante, quase febril. Essa escolha serve como alicerce para que a poesia da violência se manifeste. A trilha sonora, inegavelmente pulsante, não busca o extraordinário pelo choque ruidoso, mas pela constância de uma melancolia sintética que envolve o espectador. Nesta cidade do futuro, o som é quase como a única e última alma que resta aos desalmados.

O desempenho do elenco de vozes e a caracterização dos personagens, encabeçados pela trajetória visceral de David Martinez, tendem propositalmente ao exagero. David, interpretado com um preciosismo que traduz a impulsividade de um jovem que pouco tem a perder, é o fio condutor de uma trama que abraça as hipérboles sentimentais sem pudor. Se o espectador considera o universo de Cyberpunk 2077 uma obra de excessos e brutalidade, o anime de Imaishi torna-se uma extensão fidedigna da alma do material original, chegando ao ponto de revitalizar o interesse pelo jogo que lhe deu origem – com o término da série, mais pessoas (o que me inclui nisso, inclusive) sentiram vontade de jogar o game. Isso tudo é resultado de um olhar perspicaz sobre a sua própria dinâmica de ser didático em explicar seus próprios mecanismos: os implantes cibernéticos, as tecnologias envolvidas e os esquemas mafiosos/mercenários.

O que se observa na tela é uma fidelidade extrema, não apenas ao cenário, mas à atmosfera de desesperança. As sequências frenéticas de ação, carregadas de uma dor visual, foram traduzidas para a animação com uma competência rara. As alterações realizadas na transição do meio interativo para o linear são executadas com precisão cirúrgica, demonstrando que o roteiro de Yoshiki Usa e Masahiko Otsuka compreende que adaptar não é copiar, mas transmutar a experiência do jogador na empatia do espectador. O narrador onisciente do gênero cede espaço a uma fluidez narrativa necessária para o fluxo das imagens, onde o desenvolvimento de personagens como Lucy, Maine e Rebecca ocorre no calor das labaredas de Night City.

Aqui reside, talvez, a maior e mais sofisticada vitória da série: a independência emocional de sua conclusão. Enquanto muitas obras do gênero dependem de reviravoltas mirabolantes para sustentar o interesse, Mercenários subverte essa lógica ao retirar a dependência do choque gratuito. É uma obra que independe da surpresa para sustentar seu argumento emocional; o espectador sente a inevitabilidade da queda. Ao abdicar da muleta do suspense artificial, a direção permite que a obra respire por meio de conceitos e metáforas sobre a desumanização tecnológica. Se o jogo focava na ascensão do mercenário, o anime se arrisca em uma sofisticação contemplativa sobre a brevidade da vida orgânica.

Olhando para a estrutura narrativa, percebe-se um emaranhado de histórias entrecruzadas que, isoladamente, poderiam parecer aceleradas em demasia. De fato, o ritmo frenético é o ponto de maior fricção: a trama corre contra o tempo, por vezes negligenciando a calma necessária para certas transições. Contudo, essa aceleração é, em si, uma escolha estética que espelha a psicose cibernética que ameaça os protagonistas. No contexto de Night City, a lentidão é um luxo que os mercenários não possuem.

O produto final é de uma sofisticação humanista, feito com um carinho palpável na construção de romances bem estruturados, como o elo entre David e Lucy. A emoção que transborda, especialmente no terço final da projeção, não advém de um sentimentalismo barato, mas da constatação de que aquelas mortes dolorosas compõem um todo profundo. Cito, ainda, que o episódio seis, em especial, destaca-se como o ápice da temporada, demonstrando um controle magistral entre o auge da ação e o colapso emocional dos personagens sob a liderança de Maine. Acredito que a cena final tenha sido uma das mais lindas que já presenciei em frente às animações japonesas.

Enfim, a direção de animação merece um destaque particular dentro dessa engrenagem. As expressões de horror e euforia capturadas pelo traço da Trigger são fundamentais para essa tradução de mídias. A dor que, no código do jogo, era uma barra de status, no anime torna-se carne exposta e olhar perdido. A imagem do ciberesqueleto, por exemplo, é descrita visualmente como um grito de resistência contra uma sociedade que consome seus jovens. É impossível para o espectador não se deixar levar pela comoção diante do sacrifício final de David, um conjunto de falhas que encontra, na proteção de quem ama, um conserto momentâneo.

A narrativa organiza-se em torno da tragédia como agente de transformação. O que comove é a poesia intrínseca à queda, e não a manipulação emocional barata. A obra reafirma a potência do universo criado por Mike Pondsmith, consolidando Cyberpunk: Mercenários como uma das melhores produções de animação da contemporaneidade.

É uma obra sobre o coletivo, única salvação para os marginais de Night City, vítimas de um capitalismo distópico (não tão longe do nosso) que mata mais do que salva – metáfora vista no Trauma Team da série, esquema de exploração e necropolítica sobre os planos de saúde – que explora como o peso das escolhas de David só é verdadeiramente validado quando se olha para o sonho de Lucy na Lua. O anime vem para isso: para provar que a imperfeição compartilhada é a forma mais pura de perfeição humana em um mundo de silício. Hiroyuki Imaishi assina uma obra que, embora se utilize de seguranças estéticas do gênero, arrisca-se no terreno mais perigoso de todos: o da sinceridade emocional absoluta frente ao abismo tecnológico.

Cyberpunk: Mercenários (Cyberpunk: Edgerunners) – 1ª Temporada | Japão/Polônia, 2022
Criação: Mike Pondsmith (Universo), Rafal Jaki
Direção: Hiroyuki Imaishi, Hiromi Wakabayashi
Roteiro: Yoshiki Usa, Masahiko Otsuka
Elenco (Vozes): Kenn, Aoi Yuuki, Hiroki Tôchi, Michiko Kaiden, Takako Honda, Wataru Takagi, Tomoyo Kurosawa, Kazutomi Yamamoto, Yasuyuki Kase, Tsuyoshi Koyama
Duração: 250 min. (dez episódios)

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