- Há spoilers.
A quinta temporada de Dexter nasce sob o peso de uma ausência. Depois do golpe devastador do encerramento do quarto ano, a série precisa lidar não apenas com a morte de Rita, mas com as consequências emocionais, morais e estruturais desse trauma. É um desafio ingrato: como continuar após atingir um ápice trágico tão absoluto? A resposta encontrada pelos roteiristas é curiosa e, em muitos aspectos, frustrante, até porque boa parcela da audiência, comigo incluso, acredita que a obra deveria ter se encerrado na temporada anterior. O novo ano abandona o duelo grandioso com um vilão à altura de Arthur Mitchell para se voltar ao conceito intrigante de Dexter arranjando uma aprendiz (diferente de Miguel). O resultado é um ano irregular, por vezes hesitante, mas que oferece uma das reflexões mais diretas da série sobre culpa, reparação e a ilusão de redenção.
O ponto de partida já estabelece o tom: Dexter, em choque diante do corpo de Rita, murmura “fui eu”. A frase ambígua carrega uma temática recorrente na temporada (e no restante da série) com maior densidade, em que o protagonista parece reconhecer, ainda que de forma inconsciente, sua responsabilidade pelo desastre. Rita não morreu por acaso; morreu porque Dexter insistiu em flertar com a fantasia de controle, acreditando que poderia manipular Arthur Mitchell sem consequências. A quinta temporada é, essencialmente, sobre esse erro cobrando seu preço. Não há vilão que substitua Trinity porque o verdadeiro antagonista agora é a culpa.
Esse deslocamento interno define a estrutura do ano. Dexter passa boa parte da temporada operando no piloto automático, tentando manter a fachada enquanto tudo ao redor desmorona. Astor o culpa diretamente pela morte da mãe, Cody se fecha, e a decisão das crianças de deixarem Miami não é apenas um movimento narrativo prático, mas uma punição dramática (ainda que conveniente, para a narrativa não se preocupar com os personagens mirins). Dexter perde a família que tentou construir e Harrison permanece como lembrança viva do trauma, um bebê cercado por ausências, com a série insistindo nesse contraste doloroso entre o que deveria ser um novo começo e o que, na prática, é apenas continuação do ciclo de violência.
É nesse vácuo emocional que surge Lumen Pierce. Diferente dos antagonistas anteriores, ela não é espelho nem ameaça direta, mas uma ferida aberta. Sua introdução é brutal e eficaz: uma vítima que sobreviveu ao horror, carregando no corpo e na mente os rastros da violência. Lumen não entra na vida de Dexter como tentação ou desafio intelectual, mas como demanda ética. Ela o obriga a encarar aquilo que sempre tentou racionalizar, que é o sofrimento real das vítimas de suas vítimas. Se o código de Harry transformava o assassinato em ritual de justiça abstrata, Lumen traz a materialidade da “justiça” que o protagonista tanto se apega, algo que vira fronte da dinâmica perturbadora da dupla.
A interação entre os dois é o coração da temporada. Ao ajudar Lumen a se vingar de seus algozes, Dexter acredita estar expiando sua culpa por Rita. É um raciocínio torto, mas coerente com o personagem: incapaz de processar o luto de maneira saudável, ele transforma o auxílio em projeto, em missão. Ensinar Lumen a matar “corretamente” é, ao mesmo tempo, uma perversão do código e uma tentativa desesperada de dar sentido à tragédia. Não gosto tanto da pegada de “aulas” do texto, com a trama soando meio de mau gosto em certos trechos, apesar de outros acertarem o tom de humor macabro da situação.
Lumen, por sua vez, é uma personagem que funciona por não pertencer a esse mundo. Sua relação com o ato de matar é radicalmente diferente da de Dexter. Para ela, a violência é instrumental, um meio para recuperar a sensação de controle roubada. A série acerta ao mostrar que esse alívio é temporário e que o vazio persiste. Cada assassinato aproxima Lumen de uma paz ilusória, enquanto aprofunda ainda mais o abismo moral que separa Dexter da possibilidade de normalidade. O “Passageiro Sombrio” dela é circunstancial; o dele, estrutural. Também vale ressaltar como o texto se esquiva bem de ser uma trama de vingança batida.
O arco dos vilões da temporada, com Jordan Chase e seu grupo, é funcional, mas nunca memorável. Diferente de Brian, Lila, Miguel ou Arthur, Jordan não se impõe como figura de antagonismo fascinante. Ele é mais um símbolo do mal banalizado, do abuso sistemático travestido de discurso motivacional. Isso faz sentido tematicamente, mas empobrece o suspense. O interesse não está em quem eles são, mas no que representam para Lumen. A temporada abdica deliberadamente de um grande antagonista carismático, e isso cobra seu preço em termos de tensão narrativa.
Em paralelo, a série mantém suas subtramas institucionais, com resultados mistos. A desconfiança de Quinn em relação a Dexter é um fio interessante, sobretudo por contaminar seu relacionamento com Debra. Quinn percebe algo errado, mas nunca consegue atravessar a barreira emocional que o liga a ela. Sua aliança com Stan Liddy, no entanto, soa como atalho narrativo. Liddy é mais função do que personagem, um obstáculo descartável criado para gerar perigo imediato. Sua morte, embora eficaz, reforça a sensação de que a temporada resolve conflitos importantes de forma apressada e todo esse núcleo acaba soando desnecessário.
Debra, por outro lado, vive um arco silenciosamente significativo. Sua decisão de deixar escapar os vigilantes ao final da temporada não é um gesto de ingenuidade, mas de empatia. Ao intuir que ali há uma vítima tentando se recompor, Deb rompe, ainda que sem saber, com a rigidez moral que sempre tentou sustentar. É um momento-chave: pela primeira vez, ela age guiada pela compreensão da dor alheia, não apenas pela lei. Esse instante aproxima perigosamente os mundos dos dois irmãos, preparando o terreno para conflitos futuros mais profundos.
O clímax da temporada é menos explosivo do que o da quarta, mas emocionalmente revelador. Dexter permite que Lumen mate Jordan, reconhecendo que aquela vingança não lhe pertence. , logo depois, vem a verdadeira ruptura: Lumen não precisa mais matar. O ciclo dela se fecha, enquanto o de Dexter permanece aberto. A despedida entre os dois é curiosa justamente por sua simplicidade, apesar da personagem não deixar uma grande marca no escopo geral da história.
O último episódio cristaliza o tema central da temporada sobre a impossibilidade de redenção. Dexter observa Harrison apagar a vela do bolo e se pergunta se ainda há esperança. A pergunta ecoa tudo o que vimos até ali. A resposta, como sempre, é ambígua. Ele sobreviveu, ajudou alguém, evitou novas mortes. Mas também matou, mentiu, manipulou e destruiu. A quinta temporada não oferece catarse, apenas constatação: atos de bondade não anulam uma estrutura de violência. O máximo que Dexter pode alcançar são momentos fugazes de conexão, sempre seguidos de perda.
Revisitada hoje, a quinta temporada de Dexter é um capítulo de transição. Não tem o rigor trágico da quarta nem o impacto mitológico das primeiras, mas cumpre um bom papel ao expor as fissuras emocionais do protagonista. É uma temporada sobre luto mal resolvido, sobre a tentação de transformar a culpa em missão e sobre a diferença fundamental entre quem mata para sobreviver psicologicamente e quem mata porque não sabe existir de outro modo. Imperfeita, irregular e por vezes tímida, o ano ainda assim oferece um retrato honesto de um homem tentando, inutilmente, escapar das consequências de quem ele é, em mais uma faceta do serial killer.
Dexter – 5ª Temporada | EUA, 2009
Criação e desenvolvimento: James Manos Jr. (baseado na obra de Jeff Lindsay)
Direção: Ernest Dickerson, Steve Shill, John Dahl, Keith Gordon, Milan Cheylov, Romeo Tirone
Roteiro: Tim Schlattmann, Lauren Gussis, Scott Buck, Wendy West, Chip Johannessen, Manny Coto, Jim Leonard, Karen Campbell
Elenco: Michael C. Hall, Julie Benz, Jennifer Carpenter, Lauren Vélez, David Zayas, James Remar, C. S. Lee, Julia Stiles, Christina Robinson, Desmond Harrington, Preston Bailey, Brando Eaton, Rick Peters, Geoff Pierson, Tasia Sherel, Jonny Lee Miller, Peter Weller
Duração: 613 min. (12 episódios)
