Crítica | Dias de Juventude

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O mestre japonês Yasujiro Ozu começou sua carreira nos cinemas em 1927, com o longa-metragem — hoje perdido — A Espada da Penitência. De seus primeiros passos no cinema, pouco se sabe, de fato. Entre a estreia e este Dias de Juventude, não se reconhece a existência de roteiros, negativos ou cópias completas dos filmes que ele assinou, a saber, os filmes de 1928 (sendo dois curtas — A Abóbora e Um Casal em Mudança — e três longas: Sonhos da Juventude, Esposa Perdida e A Beleza Física) mais A Montanha do Tesouro, de 1929. Alguns de seus filmes lançados até meados dos anos 1930, e que, por muitas décadas, foram considerados perdidos, acabaram tendo trechos encontrados, assim como alguns curtas também foram recuperados com o tempo, mas uma parcela considerável de suas obras se perderam para sempre.

O primeiro longa-metragem da filmografia de Ozu que jamais esteve perdido foi justamente este Dias de Juventude, lançado em 1929. Em sua carreira, o diretor passou por diversas fases de influência e atenção para abordagem de alguns temas. Em seus primeiros anos, as comédias estudantis eram recorrentes e Dias de Juventude (que inicialmente se chamou Memória, mas teve o título mudado após a primeira exibição pública) é uma delas. Na trama, que Ozu escreve juntamente com o amigo Akira Fushimi, conhecemos os jovens Watanabe (Ichirô Yûki) e Yamamoto (Tatsuo Saitô), colegas de faculdade que vivem em um região de república, lutando com o pouco dinheiro que recebem dos pais e tentando passar nos exames finais.

Para quem conhece obras da fase madura do diretor, assistir a Dias de Juventude é um choque interessantíssimo. Primeiro, pela grande diferença técnica (mais agitado, aqui), depois, pelo claro apego do jovem cineasta às comédias de Hollywood e pela forma muito criativa como ele interpreta isso, textual ou visualmente, para a realidade japonesa. Há um pôster do filme O Sétimo Céu (1927) que Yamamoto leva para os dois lares por onde passa, e isso diz um pouco sobre a personalidade sonhadora e atrapalhada do rapaz, assim como de uma linha romântica e sugestivamente trágica que o filme nos traz. A personalidade dos dois jovens é um caminho central para se entender isso e, à medida que os conhecemos mais, vemos crescer a nossa antipatia e grande desconfiança por Yamamoto, além de nosso lamento em relação ao estudioso e pacífico Watanabe.

Infelizmente, o filme se estende demais, especialmente no ato mais conhecido, quando os alunos vão esquiar, após os exames. É neste ponto que se fortalece a disputa entre os dois jovens pela atenção da bela Chieko (Matsui Junko), e onde temos alguns dos melhores momentos de ambos os atores em cena, mas nada disso justifica o longo tempo gasto em cenas que parecem bastante redundantes ou gags que perdem a validade muito rapidamente — mas que o roteiro ainda insiste nelas, a fim de “sustentar a comédia”. Os melhores pontos cômicos do longa são justamente os que podemos classificar como “espontâneos” por parte dos personagens, assim como também é muito interessante — e infelizmente vindo depois de uma extensão demasiada — o final da fita, sugerindo um ponto cíclico, engraçado e um pouco sacana por parte dos estudantes.

Cenas no trem e fumaça saindo de chaminés são algumas das raízes que observamos aqui e que seriam retomadas por Ozu em inúmeras obras seguintes. Mas algumas diferenças temáticas (como um certo afastamento do núcleo familiar) e estéticas (as excelentes cenas da câmera em perspectiva para algumas cenas de esqui) mostram o quanto o cineasta poliu a sua forma de representar a realidade ao longo dos anos. Aqui, temos um longa divertido, que infelizmente se estende demais, mas não a ponto de nos fazer desgostar da sessão. Uma charmosa comédia estudantil no início da filmografia de um gigante do cinema japonês.

Dias de Juventude (Gakusei romansu: Wakaki hi) — Japão, 1929
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Akira Fushimi, Yasujiro Ozu
Elenco: Ichirô Yûki, Tatsuo Saitô, Junko Matsui, Shin’ichi Himori, Chishû Ryû, Chôko Iida, Eiko Takamatsu, Fusao Yamada, Shôichi Kofujita, Ichirô Okuni, Takeshi Sakamoto, Nobuko Wakaba, Hisao Yoshitani
Duração: 103 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.