O diretor Joe Carnahan, de Dinheiro Suspeito, sempre traz boas premissas em seus filmes. Antes de se tornar conhecido por dirigir filmes de ação, ele também é um roteirista talentoso. Poderia vender mais ideias criativas para diretores como Guy Ritchie ou Michael Bay. Isso porque ele transforma o gênero de ação em desafios intelectuais: o espectador precisa decidir se confia nos personagens ou nas situações em que eles se envolvem. Não por acaso, o suspense em torno de um dinheiro roubado funciona muito bem nessa estreia de janeiro na Netflix. A ambiguidade construída em volta do dinheiro serve como base para todos os conflitos envolvendo a polícia. Isso é ainda mais forte em um filme de algoritmo da Netflix, com Matt Damon e Ben Affleck, bons atores, no elenco. Ainda assim, o resultado é insatisfatório: atinge momentos de auge, mas também revela o fracasso de Carnahan ao lidar com seus cenários elaborados de roteiro policial.
A introdução melancólica do filme, de uma policial morta, estabelece um grande drama com uma boa montagem alternada para ir direto ao ponto. Em uma ótima síntese para um filme de ação, a equipe da polícia discute as motivações da morte como maneira de apresentação dos personagens em um interrogatório. Dentro da lógica do streaming, a cena em câmera lenta com neve, sangue e uma mensagem de celular cria um contraste forte. Ela contrapõe bem as conversas burocráticas e raivosas no escritório da polícia. Assim, o filme dramatiza rapidamente a equipe que faz apreensões de dinheiro roubado. Entrega o conflito moral básico: a polícia está em perigo, e ela mesma também é perigosa.
O ponto forte desse clima triste inicial é a urgência constante: o espectador quer saber por que a policial morreu. Esse gancho pode ser retomado a qualquer momento no filme. Quem sustenta essa tensão são os personagens de Damon (tenente Dane) e Affleck (sargento Byrne). Em um simples interrogatório, eles entregam o clima pesado e realista de policiais. Como atores que leem bem o roteiro, apresentam a persona dos “porcos” (policiais corruptos ou cínicos) só através desses dois. A fotografia não é muito sutil para desenhar isso para nós, pois quando eles estão lado a lado no plano, há algo ou alguém pressionado entre eles. Isso entrega uma didática dos cenários que compõem o segundo ato, do suspense na casa envolvendo os policiais e o dinheiro.
A rapidez do texto de Carnahan provoca um desenrolar duvidoso, mas intrigante. Fala de uma operação para recuperar dinheiro na casa da avó da personagem latina Desiree (Sasha Calle). Os cifrões digitados escondidos nos celulares dos policiais, as atitudes estranhas de Dane (chefe da operação) e a descrença geral na polícia após a morte da colega funcionam perfeitamente para o espectador. Tudo isso, somado à personagem latina presa, encaixa bem. Até a explicação burocrática da acusação e da operação com o dinheiro fica clara. O dinheiro suspeito é o grande MacGuffin (o elemento que move a trama inteira, mesmo sem ser o foco emocional principal).
Quando a ação começa de fato, Carnahan ainda toma cuidado. Situa o bairro do cartel, mostra a casa do dinheiro e acompanha um tiroteio com cenas mais abertas e fluidas. Mas isso se perde nas perseguições de carro no terceiro ato. O roteiro fica incompreensível. Enquanto o suspense do dinheiro cria dúvidas e desconfiança sobre a equipe de policiais no segundo ato, o final desfaz toda a ambiguidade e a premissa intricada. Faz isso sem o mesmo cuidado da construção anterior.
O que mais decepciona é que Carnahan conhece bem a magia do suspense no cinema. Sabe construir mistérios gradualmente, criar um clímax tenso com sombras, penumbras e confrontos entre policiais para descobrir o traidor (o X9) e o vilão do início. No entanto, resolve tudo com cores saturadas e um flashback explicativo. Isso se torna contraditório. O filme cria tensão com diálogos ótimos, mas perde intelectualidade na repetição de falas e trejeitos dos personagens, sem ambiguidade ou profundidade.
Por fim, Dinheiro Suspeito termina sem saber como enquadrar Matt Damon e Ben Affleck na praia, ou como resolver os dramas bem construídos no início sem recorrer a humor ou moralismo heróico. Soa constrangedor. O filme se esforça para ser realista, criando tons de cinza na vida dos policiais. Mas o final feliz fica desassociado do resto, com moralismo e apenas toques superficiais de humanização.
A policial morta vira uma justificativa pequena para quebrar a ambiguidade e transformar o dinheiro em mais um trabalho de uma equipe unida contra a corrupção. A ganância como mentira-disfarce justifica o cenário cinza e tenso de policiais presos em uma casa por causa de um cartel de drogas. Isso faz o filme parecer mais de herói do que policial. Mesmo que revele conversas reais sobre as necessidades financeiras dos policiais. A humanização e a profundidade são usadas por Carnahan como mero objeto, não como parte essencial da história. São apenas engrenagens para a premissa andar, e nada mais.
Dinheiro Suspeito (The Rip) – EUA, 2026
Direção: Joe Carnahan
Roteiro: Joe Carnahan, Michael McGrale
Elenco: Matt Damon, Ben Affleck, Steven Yeun, Teyana Taylor, Catalina Sandino Moreno, Sasha Calle, Kyle Chandler, Scott Adkins, Daisuke Tsuji, Nestor Carbonell, Lina Esco, Alex Hernandez, Cliff Chamberlain, Jose Pablo Cantillo
Duração: 113 minutos
