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Crítica | Do Fundo do Mar 3

por Leonardo Campos
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Uma franquia com potencial industrial para crescer ainda mais, mesmo que a qualidade de seus filmes decaia diante das sequências lançadas em relativos espaços temporais, guiadas pelo interesse do público por um segmento que parece longe de encontrar o fim: os filmes sobre ataques de tubarões. Depois que a Universal bancou Tubarão, em 1975, um improvável sucesso para muitos, não tivemos apenas o deslanchar da carreira de Steven Spielberg no auge de seus 27 anos, mas também o estabelecimento de padrões para as narrativas do horror ecológico, padrão ainda hoje retomado constantemente, muito além dos tubarões, mas com os ataques de ursos, tigres, leões, serpentes, piranhas, aranhas, dentre outros animais transformados em monstros icônicos do cinema. Após o clássico que redefiniu a indústria na década de 1970, só tivemos um bom filme com tubarões em 1999, Do Fundo do Mar, aventura que tinha uma história relativamente interessante, elenco acima da média, orçamento e distribuição mais considerável e efeitos visuais que tornaram as criaturas realmente ameaçadoras, diferente dos tantos embustes anteriores, a maioria telefilmes também lançados em VHS e DVD, além das pérolas dos seguidores de Roger Corman, o imperador do bizarro no subgênero “monstros assassinos”.

Nesta produção, tínhamos como diferencial, a interação entre homens e tubarões num viés científico, voltado ao processo de exploração de uma determinada espécie, para fins farmacológicos. Diferente do clássico que é a principal referência, bem como os seus dois melhores sucessores temáticos, isto é, Águas Rasas e Medo Profundo, ambos bem contemporâneos, não temos um encontro fatídico entre humanos e tubarões. Aqui, tal como o antecessor Do Fundo do Mar 2, os personagens entendem os predadores de topo na cadeia alimentar marinha e sabem conduzir explorações subaquáticas profissionalmente, o que não impede a iminência do perigo diante de criaturas que podem ser imprevisíveis. E é galgado na manipulação de um grupo de tubarões integrantes de uma pesquisa completamente megalomaníaca dos antagonistas desta narrativa que a história se desenvolverá, desta vez, sob a direção de John Pogue e texto de Derek Blackman, profissionais que criam uma estrutura dramática com potencial desperdiçado, mas ainda melhor que qualquer um dos tubarões assassinos exibidos no canal Sy Fy.

O desperdício vem da falta de habilidade do texto em criar personagens mais cativantes e menos genéricos. Águas Rasas, por exemplo, mencionado anteriormente, comprovou que ao desenvolver melhor a estrutura dramática, a narrativa se torna mais empolgante, pois nos relacionamos melhor com os acontecimentos. Os filmes de tubarões são numerosos e produzidos num ritmo tão constante que ao investir numa empreitada com selo Warner, os realizadores precisavam ter mais cuidado, para evitar cair na mesmice. No entanto, nem sempre o nosso desejo é uma ordem e no desenvolvimento da ação em Do Fundo do Mar 3, temos um amontoado de cenas já contempladas em outras narrativas do mesmo tema, até mesmo na própria franquia. Os animatrônicos, por exemplo, são inferiores aos utilizados no filme de 1999, produzidos há mais de duas décadas. Algo bastante estranho e curioso, pois é um setor que avançou bastante industrialmente e não significa necessariamente um aumento expressivo no orçamento da produção.

Os efeitos visuais, por sua vez, melhoraram nas cenas com uso de planos mais fechados, justaposta com trechos de mergulhos reais, com diversas espécies de tubarões menos perigosos que a espécie responsável por causas transtorno nesta sequência. O famoso tubarão-touro, conhecido aqui por cabeça-chata, é quem traz dor de cabeça para os pesquisadores deste filme. As criaturas conseguem destronar até mesmo os tubarões-brancos, espécie que ocupa espaço no topo da cadeia, mas aqui perde feio para os bichos manipulados por cientistas, responsáveis por torna-los mais agressivos, velozes, furiosos e inteligentes. A inteligência, por sinal, é utilizada pelo roteiro de maneira tão excessiva que numa determinada cena de aparente “diálogo” entre um humano que detém um tubarão em cativeiro e dois bichos libertos em mar aberto, apreensivos por observar um dos seus sob a mira de uma arma, me perguntei em meio ao riso, se era isso mesmo que eu estava contemplando. Demorou, mas deixei de lado, afinal, estamos falando de cinema, aventura, tubarões mortais e suspensão da descrença, não é mesmo?

De volta aos elementos estéticos, nos enquadramentos mais abertos e nas clássicas cenas com destaque para barbatanas a patrulhar pela superfície, podemos observar que o CGI é parte de uma equipe acima da média, mas ineficaz, por exemplo, ao dar movimento para os monstros que criaram. Existe um descompasso entre o movimento dos bichos e a sua própria aparência, estranheza que traz para o filme, irregularidades que poderiam ser evitadas com uma supervisão de efeitos visuais mais atenta. Outro problema é o distanciamento entre as cenas de ação, longevas umas das outras, nos colocando na dúvida sobre estarmos diante de uma narrativa sobre tubarões ou numa aventura ao estilo Waterworld – Segredo das Águas. Ademais, fora todos os pontos mencionados, Do Fundo do Mar 3 funciona como entretenimento se você adentrar na aventura sem cobrar muito do material fornecido. Há todo um debate sobre alterações climáticas, preservação da espécie, autoconsciência dos perigos no processo de manipulação de animais, dentre outros tópicos que não deixam o filme naufragar completamente, dando-lhe alguma sustentação.

A direção de fotografia de Sven Vosloo nos coloca constantemente em contato com cenas subaquáticas e evita ao máximo o uso de ponto de vista, clássica modalidade narrativa para emular o suposto olhar de um tubarão, recurso utilizado numa cena lá pela metade da produção, mas que não se relaciona exatamente com uma das criaturas marinhas, mas com um ser humano. O design de produção de Franz Lewis capricha na construção da ilha artificial, erguida como centro de pesquisa e ponto de outras interações humanas, em decadência diante de problemas ambientais. O texto também é bacana ao favorecer debates sobre protagonismo feminino, em especial, da mulher negra, historicamente alijada do posto de sobrevivente, algo não discutido em momento algum pela produção, mas ofertado como narrativa e observado por alguém que compreende ali o interesse dos realizadores em avançar e dar conta de demandas contemporâneas, sem transformar a personagem num irritante clichê, afinal, de lugar-comum já bastam os tubarões que em Do Fundo do Mar 3, exercem o papel de “monstros” superiores ao fraco desempenho dos animais marinhos do antecessor, mas ainda assim, entregam um trabalho fruto do desperdício de potencial dos realizadores envolvidos neste tema que ainda promete render bastante.

Ah, antes de terminar, a história: na produção, a Dra. Emma Collins (Tania Raymond) é uma especialista focada nos estudos acerca dos impactos das mudanças climáticas na vida dos tubarões-brancos. Ela atua na abandonada Little Happy, junto ao seu grupo e dois dos últimos pescadores que ainda tentam levar a vida neste local abandonado. O problema é que diante da chegada de Richard (Nathaniel Buzolic), as coisas mudam. Para pior. Ele aporta no local com uma embarcação que traz em seu interior um laboratório com pesquisas longe de qualquer aprovação de um comitê de ética. E para acrescentar dramaticidade, sabemos que ele é ex-namorado da jovem pesquisadora e a pessoa que conseguirá explicar os motivos de Emma e sua equipe terem encontrado carcaças de tubarões-brancos enormes, destroçados por uma espécie que conforme já mencionado, servem de almoço para esses predadores poderosos. Confusões começam a ocorrer quando o contato entre pesquisadores e tripulantes recém-chegados demonstram os seus reais interesses e os tubarões se tornam peças menos perigosas que algumas figuras humanas que circulam pela narrativa de 99 minutos, divertida, irregular e com desfecho anticlimático.

Do Fundo do Mar 3 — (Deep Blue Sea – Estados Unidos, 2020)
Direção: John Pogue
Roteiro: Dirk Blackman
Elenco: Tania Raymonde, Nathaniel Buzolic, Emerson Brooks, Bren Foster, Reina Aoi, Alex Bhat, Ernest St.Clair, DeVille Vannik, Siya Mayola, Brashaad Mayweather
Duração: 99 min.

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