Equipe: 10º Doutor, Rose
Espaço: Planeta Starfall, Nave Venture, Nave Bucaneiro
Tempo: Não Especificado
Justin Richards pode não ser o mais criativo dos autores a escrever para Doctor Who, pois suas histórias jogam com tropos muito comuns do Show. Ele também não tem a assinatura forte de alguns autores da série, como Trevor Baxendale, Steve Lyons ou Dave Stone, ou seja, não tem nada em sua prosa ou narrativa que o identifique, como ocorre com os citados. Mas, em compensação, o escritor é dono de uma versatilidade aplaudível, conseguindo circular por diferentes tipos de gêneros e estilos, demonstrando na maioria das vezes que entende bem o terreno onde está pisando. Felizmente, O Caixão Da Ressurreição é um bom exemplo dos principais pontos fortes de Richards como um contador de histórias, ao apresentar um pastiche de gênero típico de Doctor Who, que, ainda que não tome nenhum grande risco, cumpre muito bem com aquilo que se propõe a fazer.
Na trama, situada entre os episódios Tooth and Claw e School Reunion, a TARDIS acaba fazendo um pouso forçado no planeta Starfall, um mundo onde nenhuma tecnologia eletrônica funciona, devido a uma enorme zona de gravitação eletromagnética localizada naquela galáxia. Precisando levar a TARDIS até o limite da galáxia para que ela possa funcionar novamente, o Décimo Doutor e Rose Tyler juntam-se a uma expedição que está indo em busca de um famoso tesouro pertencente a um lendário e sanguinário pirata espacial que teria morrido naquela região décadas atrás. Mas quando uma série de mortes suspeitas passa a ocorrer antes e durante a expedição, o Doutor e Rose logo percebem que não só o tesouro do pirata espacial está em jogo, mas a vida de todos os envolvidos também.
Com O Caixão Da Ressurreição, Justin Richards presta diversas homenagens para as aventuras do estilo bucaneiro, adaptando arquétipos do gênero como tesouros lendários, maldições antigas e piratas sanguinários. Ao universo de ficção científica da série. De fato, para construir a sua narrativa, Richards pega vários elementos emprestados de A Ilha do Tesouro, clássico romance de Robert Louis Stevenson, que é a principal referência das histórias de pirataria moderna. Mas o romancista não está interessado em simplesmente contar uma história de marujos e piratas, só que passada no espaço. O livro faz algo que Doctor Who sempre foi muito bom, que é se divertir com os clichês de diferentes gêneros, muitas vezes beirando a sátira, mas ainda sendo reverente e respeitoso com esses mesmos gêneros, vide a forma como o autor lida com a runa amaldiçoada que causa boa parte das mortes que ocorrem em sua história, ou os comentários do Doutor sobre a confiabilidade de piratas.
A narrativa é muito bem estruturada, sendo dividida em duas etapas: a primeira, antes da expedição, e a segunda, durante a própria expedição. A primeira parte da história é onde somos apresentados aos personagens principais e ao Planeta Starfall, um mundo onde a principal forma de tecnologia (inclusive as de viagem espacial) é baseada em motor a vapor. A escrita de Justin Richards se destaca especialmente nessa metade inicial pela forma econômica, mas efetiva, com que o autor constrói não só o mundo onde o seu romance se passa, mas também as relações, personalidades e motivações de seus personagens. Isso permite ao autor se concentrar mais na ação e suspense mais diretos na segunda metade da obra, quando a busca pelo tesouro no espaço realmente começa, já que as bases para desenvolvimento e reviravoltas dos personagens foram muito bem estabelecidas.
Os personagens, aliás, são bastante carismáticos. Um dos grandes destaques com certeza é Kevin, um monstro extremamente educado, que, muito a contragosto e sempre com um pedido de desculpas, deve matar todos aqueles que recebem uma runa amaldiçoada. O milionário Drei McCaviti, que atua como um dos grandes antagonistas da história, é outro personagem digno de nota, já que a sua obsessão pela esposa morta e a mania de falar com ela em público o tornam um vilão igualmente perturbador e hilário. Vale ainda destacar o garoto Jimm, que desenvolve uma interessante relação de irmão caçula com Rose, além de ser uma clara referência ao protagonista do citado A Ilha Do Tesouro de Stevenson, a principal referência temática de O Caixão Da Ressurreição. E claro, eu não posso deixar de falar da simpática cozinheira androide que se junta à missão de caça ao tesouro, e que está no centro de uma reviravolta, que é ao mesmo tempo óbvia e muito inteligente. Por fim, a própria dupla da TARDIS também é muito bem retratada, com Richards captando com habilidade a personalidade da dupla da TARDIS e sua dinâmica, seja a empolgação jovial que David Tennant deu ao 10º Doutor em suas primeiras histórias, ou o lado mais empático de Rose Tyler, que a Companion exibiu em seus melhores momentos na série de televisão.
O Caixão Da Ressurreição, no fim das contas, é uma leitura rápida e divertida, que traz uma história simples e direta, mas ainda muito bem contada, com personagens carismáticos e bem escritos, sejam eles originais ou aqueles que conhecemos da televisão. Se a obra de Justin Richards tem algum problema, talvez seja o fato de ela jogar seguro demais e não se valer do formato literário para dar alguns insights sobre a dupla da TV, mas acaba sendo um pecadilho dentro de um livro muito bem escrito e prazeroso de se ler.
Doctor Who: O Caixão Da Ressurreição (The Ressurrection Casket)- Reino Unido. 13 de Abril de 2006
Autor: Justin Richards
BBC New Series Adventures #9
Publicação: BBC Books
250 páginas
