O trágico Acidente Radiológico de Goiânia, ocorrido em 1987, ano seguinte dos assustadores eventos de Chernobyl, já foi objeto de filmes e documentários brasileiros, mas Emergência Radioativa é a primeira obra realmente de amplo espectro, acessível para um número considerável de pessoas, que é lançada por aqui, o que é uma ótima notícia considerando que há pelo menos uma geração que, com muita sorte, pelo menos ouviu falar que algo dessa natureza aconteceu no Brasil. E a ótima notícia é dupla, pois a minissérie em cinco episódios criada por Gustavo Lipsztein é uma mais do que eficiente versão ficcional do que ocorreu há quase 40 anos e que tem efeitos até hoje para suas vítimas. Faço questão de salientar “versão ficcional” para desde já dissipar toda e qualquer ilusão de que o vemos na telinha reflete totalmente a realidade. Como Chernobyl, a aclamada minissérie da HBO de 2019, Emergência Radioativa não é e não quer ser um documentário, pelo que é natural que diversas adaptações tenham sido feitas para trazer linguagem cinematográfica ao produto final, algo que é essencial para que uma obra dessa natureza encontre seu público.
A produção, porém, atem-se à realidade sempre que pode e entrega um sólido thriller carregado de momentos dramáticos tensos e aflitivos, mesmo que, aqui e ali, carregue no melodrama, algo que fica talvez mais evidente no caso do núcleo familiar do protagonista, o físico nuclear Márcio (Johnny Massaro) que, em viagem de dois dias para Goiânia com sua esposa Bianca (Júlia Portes) para visitar o pai aniversariante, recebe a ligação de um antigo amigo médico que desconfia de que os sintomas em alguns de seus pacientes possam ser decorrentes de exposição à radiação, o que acaba fazendo dele peça-chave em todo o processo de descoberta do que está acontecendo e de contenção de uma tragédia que poderia ter sido muito maior. A gravidez que Bianca revela a Márcio logo antes da ligação e o desaparecimento do jovem para tratar de um assunto que, tecnicamente, não lhe diz respeito, com sua esposa inicialmente não aceitando essa ausência, faz a minissérie por vezes enveredar em um dramalhão extra que não era sequer necessário existir, com Massaro construindo um personagem que, por mais heroico que seja, parece o tempo todo que está prestes a chorar, mesmo que o roteiro espertamente crie uma certa ambiguidade de intenções no rapaz, já que ele tem ambições de trabalhar para os órgãos responsáveis pelo programa nuclear brasileiro e isso, mesmo que nas entrelinhas, põe em xeque seu altruísmo.
Mas o verdadeiro drama é muito bem conduzido pelos roteiros e pela direção de Fernando Coimbra e Iberê Carvalho, algo que fica particularmente evidente nos dois episódios iniciais que apresentam a situação com calma, mostrando parte da “cadeia” de eventos que vai da localização, por uma dupla de catadores, de um objeto em uma clínica radiológica irresponsavelmente abandonada que potencialmente tem muito chumbo que eles podem revender, passando pela efetiva venda para Evenildo (Bukassa Kabengele), dono de um ferro-velho que, ato contínuo, o leva para sua casa por dias, com apenas sua esposa Antônia (Ana Costa) percebendo que talvez haja uma conexão entre o objeto e com o mal-estar que ela vem sentindo. A construção do primeiro episódio é soberba, pois toda a situação – da descoberta até o primeiro dia da Emergência Radiológica – é apresentada por completo, com o segundo, por meio de flashbacks que vêm naturalmente do questionamento daqueles que entraram em contato com o misterioso objeto, destrinchando o horror da coisa toda, com o pós de Césio-137 sendo manuseado como se fosse pó de pirlimpimpim.
A entrada progressiva de novos personagens, notadamente o Dr. Benny Davi Orenstein (Paulo Gorgulho), físico da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) que imediatamente viaja do Rio para Goiânia quando recebe uma ligação de Márcio que acaba representando os esforços científicos para lidar com a situação da melhor e mais rápida maneira possível, o Governador Roberto Correia (Tuca Andrada) que, como todo político, representa a incompetência e o egoísmo ao fazer de tudo para se eximir de responsabilidade e manter o povo na ignorância para ganho próprio e o Dr. Eduardo Souto (Antonio Saboia), médico que representa toda uma classe de profissionais que, sem pestanejar, carrega em seus braços nus um paciente que ele sabe estar contaminado com radiação, é bem cadenciada e bem organizada ao longo do relativamente pouco tempo que a minissérie tem para explorar todos os lados da história. Pode faltar profundidade para alguns deles, inclusive para várias vítimas, mas quase todo o elenco tem espaço dramático para entregar performances e estabelecer seus personagens, algo que ficar particularmente sensível nos casos de Bukassa Kabengele e Ana Costa, com o primeiro fazendo de seu Evenildo um homem naturalmente desconfiado de autoridades que reluta em ceder e a segunda sendo basicamente seu oposto. Paulo Gorgulho também merece destaque, mesmo que, por vezes, seu personagem seja o porta voz do bom senso que profere discursos para o espectador e não para a história sendo contada, se é que me entendem.
Mas o personagem de Gorgulho, eu entendo, precisa ser assim e, mesmo eu tendo ojeriza a diálogos expositivos e didáticos, Emergência Radioativa dá uma aula de como utilizá-los. Quase todos os “momentos de explicação” da minissérie têm uma razão de ser e ela quase invariavelmente é a mesma, ou seja, a ignorância, seja ela das vítimas, seja daqueles que deveriam entender, mas que se recusam a assim fazer, notadamente os políticos ou aqueles com cargos de responsabilidade. Quando Márcio ou Benny pausa a narrativa para explicar para Evenildo o porquê de e ele precisar sair de seu ferro-velho, é perfeitamente perceptível como o diálogo soa real e necessário. Evenildo e as demais vítimas simplesmente não têm ideia do que pode ser radiação e o porquê de um pozinho cintilante ser tão mortal e explicações básicas – para muitos de nós óbvias e banais – precisam estar presentes e, mais do que isso, repetidas. E o mesmo acontece quando a mesma dupla precisa explicar para o governador ou outros membros do governo que é sim necessário vedar a circulação de pessoas por quarteirões inteiros da cidade, evacuar casas e assim por diante, com esses momentos criando exasperação não pelo didatismo, mas sim pela reação daqueles que recebem a informação e a peneiram pela ótica do que pode ser feito para tudo ser varrido para debaixo do tapete.
Como disse, porém, não há espaço suficiente para tudo e a maior vítima narrativa da minissérie é o lado da investigação criminal sobre os responsáveis pelo abandono de material radioativo. Uma delegada é encarregada de fazer os interrogatórios, mas tudo não só é muito burocrático, como simples demais, como se todo esse lado da história fosse um adendo inserido na obra posteriormente, quando alguém percebeu que talvez fosse necessário abordar também esse assunto. Não tenho dúvida que isso era mesmo necessário, mas a solução tinha que ter sido a ampliação do número de episódios ou a redução – ou eliminação completa, sendo sincero – de linhas narrativas como o chororô de Márcio perante sua esposa e seu pai. Não é de forma algum o fim do mundo, até porque os roteiros conseguem transmitir muito claramente que as vítimas não são responsáveis por absolutamente nada, com Antônia, ao contrário, recebendo o destaque que merece pelo gigantesco bem que ela faz e que, nesse caso, reflete a realidade dos fatos, mas tenho para mim que o lado da responsabilização deveria ter sido objeto de mais detalhamento.
Emergência Radioativa é um merecido retorno a um momento assustador na história recente do país e que é considerado como o maior acidente nuclear do mundo fora de usinas, com efeitos até os dias de hoje tanto para suas vítimas quanto para toda a política de tratamento de resíduos radioativos. Para quem viveu a época, mesmo que à distância, como é meu caso, a minissérie foi capaz, como Chernobyl também foi, de reacender toda a paranoia do momento e, tenho certeza que, para aqueles que só ouviram falar ou nem isso sobre o Acidente Radiológico de Goiânia, os cinco episódios serão como um filme de horror inacreditável, mas infelizmente real. Ou próximo do real, claro.
Emergência Radioativa (Brasil, 18 de março de 2026)
Criação: Gustavo Lipsztein
Direção: Fernando Coimbra, Iberê Carvalho
Roteiro: Gustavo Lipsztein, Rafael Spínola, Fernando Coimbra, Stephanie Degreas, Fernando Garrido
Elenco: Johnny Massaro, Paulo Gorgulho, Tuca Andrada, Bukassa Kabengele, Ana Costa, Clarissa Kiste, Antonio Saboia, Alan Rocha, Marina Merlino, William Costa, Victor Salomão, Luiz Bertazzo, Castilho, Leandra Leal, Emílio de Mello, Júlia Portes, Douglas Simon, Pri Helena, Marisa Salles, Vini Ranieri, Mari Lauredo, Enzo Ignácio, Renata Augusto, Magali Biff
Duração: 306 min. (cinco episódios)
