Cinquenta anos separam este Emmanuelle (2024) do original francês de 1974. Nessas cinco décadas, o mundo viu o feminismo se diversificar em múltiplas vertentes, o erotismo se tornar pauta acadêmica crescente, a representação sexual nas telas migrar do tabu para o algoritmo de reprodutibilidade técnica e o cinema erótico europeu ceder às famosas doses industriais de nostalgia cult. Quando a diretora Audrey Diwan (bem badalada depois de vencer o Leão de Ouro por O Acontecimento) anunciou que faria a releitura da famosa personagem de Emmanuelle Arsan, o que se esperava era tanto uma atualização estética quanto uma coerente confrontação política e dramática do que o nome “Emmanuelle” ainda significa para milhões de pessoas que conheceram os filmes originais e suas séries derivadas. Mas o que chegou foi um rascunho pintado de crítica social, que nega o desejo, rebaixa a feminilidade a alívios isolados e esvazia a personagem com uma linguagem que quer se mostrar limpinha o tempo todo.
Noémie Merlant interpreta uma auditora de hotéis luxuosos, cuja função é identificar falhas nos serviços prestados para endinheirados. O filme a acompanha nessa rotina meio robótica (vendida como máxima vitória, já que ela está no topo profissional), sem apresentar grandes decisões narrativas ou transformações dramáticas. A ideia do roteiro, aparentemente, é mostrar o distanciamento emocional da protagonista com tudo à sua volta, inclusive com o próprio corpo. Só que o resultado não sugere introspecção: sugere uma personagem inexpressiva, antipática, plastificada e que o público começa a rejeitar, a partir de certo ponto. Ela não deseja, não se comove, não se comunica e anda a esmo pescando migalhas de experiências físicas, diante das quais só sente nojo ou vazio existencial. O rosto da atriz permanece numa expressão que varia entre enjoo e sonolência, e qualquer interação ou insinuação sexual com ela é protocolar, sem envolvimento físico nem psicológico. Não há progressão interna, não há curva dramática, não há descoberta… há apenas uma sucessão de cenas que se grudam ao tédio.
À sua volta, a coisa também não vai muito bem. Uma engessada Naomi Watts faz uma personagem irrelevante (a despeito do que o roteiro queira nos fazer acreditar), com função narrativa rasa, desperdiçada em diálogos truncados e contexto simplório. Will Sharpe é introduzido como possível objeto de desejo e acaba esmagado por uma encenação que transforma o erotismo em reunião de negócios e ação voyeur. Em certa medida, o filme recorre a uma lógica punitiva disfarçada de empoderamento: Emmanuelle pode se envolver com qualquer pessoa, desde que não ame, desde que não se entregue, desde que não se permita. Há uma cena inteira dedicada à ideia de que o prazer real precisa ser negado e, no ápice da encenação, o ato sexual é substituído por uma terceirização simbólica e patética. “Uh, mas ela está no controle, diferente do original!”. Calma aí, ela está no controle de quê, mesmo? Da frivolidade? Da impossibilidade do prazer pessoal? Da frustração sexual?
Por mais que eu goste da fotografia de Laurent Tangy, não me sai da cabeça que toda a escolha de cores e aspecto geral da fita exalta demais a sofisticação externa e, justamente por causa disso, retira tudo o que poderia ser plasticamente íntimo, pessoal, particular, emocional, algo que vale também para a direção de arte, até por conta do ambiente onde a personagem passa a maior parte do tempo. Enquadramentos distanciados e paleta gélida reforçam essa ideia de mulher deslocada e sem chão, uma noção de personagem que poderia muito bem estar num filme chamado Procurando o Sentido da Vida ou qualquer coisa do tipo, mas não em um remake de Emmanuelle. O trabalho musical de Sacha e Evgueni Galperine até explora um pouco a melancolia de todo esse cenário, mas sua presença é sutil demais para provocar qualquer impacto dramático, até porque a direção de Diwan não ajuda, parecendo impedir, de propósito, a sensualidade como linguagem, adotando um formalismo frio que faz o filme parecer um comercial de hotel exibido naquelas lojas de televisões gigantes.
Falta coragem e até mesmo entendimento do material que se tem em mãos. Refilmar Emmanuelle, hoje, exigia um debate e uma abordagem que o presente filme evita fazer. O texto e a direção poderiam aproveitar a oportunidade para dar liberdade à nova Emmanuelle e lidar com o legado de fetichização cultural (notem que o cenário da obra é Hong Kong!), de submissão e de voyeurismo, assim como de desejo cerceado da mulher, ocultado, ignorado e muitas vezes negado pela sociedade. Mas a diretora não faz nem o enfrentamento histórico, nem a chamada crítica, preferindo neutralizar tudo. Pior: ela transforma um filme sobre o corpo e a volúpia femininas num enredo com uma mulher europeia rica em viagem pela Ásia, envolvida em relações sexuais mecânicas com desconhecidos em ambientes corporativos e tão fria quanto o inverno siberiano. Isso não é revolução! É mais uma repetição, agora com um verniz de empatia que funciona como escudo moral.
Emmanuelle (2024) é um filme sem tensão, sem libido e sem propósito, que ignora a chance de repolitizar a personagem e a reescreve como símbolo de conformidade emocional e reclusão libidinosa. Vê-se aqui novos vícios narrativos (basicamente deixando o filme estéril) e a retirada de tudo aquilo que a protagonista tinha de minimamente seu, mesmo num cenário patriarcal mais poderoso. Essa Emmanuelle da liberdade feminina é a Emmanuelle sanitizada, insípida, inodora, incolor, a quem o mínimo (o prazer real) é negado. E não, nada disso é posto no filme como uma discussão interessante, explorada para trazer à tona uma tese específica. É tudo visto na linha de ação e reação basilar, zanzando pelos corredores de um hotel e exibindo nojo constante no olhar da protagonista. Se era para fazer um filme sobre a ausência/frustração/negação de desejo, que pegassem os celibatários contemporâneos, não Emmanuelle! Que papelão! Que filme broxante!
Emmanuelle (França, EUA, 2024)
Direção: Audrey Diwan
Roteiro: Audrey Diwan, Rebecca Zlotowski (baseado na personagem de Emmanuelle Arsan)
Elenco: Noémie Merlant, Will Sharpe, Kei Shinohara, Jamie Campbell Bower, Chacha Huang, Anthony Wong, Naomi Watts, Harrison Arevalo, Marguerite Dabrin, Adam Pak, Sofie Royer, Hu Kai, Isabella Wei, Hugh Tran, Zariyah Tang, Carole Franck, Andrea Dolente, Naama Preis, Sean Li, King Lok Cheng
Duração: 107 min.