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Crítica | Essa Doce Obsessão, de Patricia Highsmith

O lado sombrio da atração.

por Ritter Fan
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Como já escrevi diversas vezes, Patricia Highsmith tem o dom de criar personagens masculinos assustadores. Claro que Tom Ripley é sua mais famosa criação, protagonista de cinco de seus romances, e não sem razão, mas ele está longe, mas bem longe de ser o mais estranho, mais inquietante e mais doentio deles. Do doentio Charles Anthony Bruno de Pacto Sinistro, passando pelo atrapalhado Walter Stackhouse de Sem Saída e chegando no ciumento Vic Van Allen, de Em Águas Profundas, chega a ser quase possível mergulhar na mente da autora americana em suas concepções que, mesmo gravitando sobre um mesmo tema, conseguem ser variadas e muito interessantes, quando não completamente apavorantes. Em Essa Doce Obsessão, obra de 1960, ela presenteia os leitores com mais um exemplar de um homem profundamente perturbado: o jovem cientista David Kelsey.

Kelsey parece um homem introvertido, pacato, trabalhador, inteligente e que vive em uma pensão cercado de pessoas que o têm em alta estima. Em suma, é mais uma pessoa normal vivendo sua vida ordinária sem atrapalhar a de ninguém. Mas claro que isso é só uma aparência cuidadosamente mantida por ele de forma que ele possa viver uma segunda vida em outra casa, em que ele é William Neumeister, um jornalista freelancer que vive em função de Annabelle. Só que Annabelle não é muito mais do que uma mulher imaginária pelo menos no que diz respeito a relação que David acha que tem com ela. Sim, ela é de carne e osso, mas Annabelle é uma mulher com quem David teve uma breve relação no passado, mas que seguiu seu próprio caminho, casando-se com outro homem e sequer se comunicando com o antigo namorado. Mal ela sabe, porém, que ela ainda é o objeto do desejo de David, um homem perdidamente apaixonado obcecado por Annabelle e que é capaz de qualquer coisa por ela, inclusive e especialmente viver essas duas vidas estanques.

Mesmo que o termo stalker no sentido de alguém que persegue e assedia suas vítimas tenha surgido décadas depois da publicação de Essa Doce Obsessão, Highsmith parece, aqui, criar o protótipo de uma pessoa dessas, mas um protótipo muito bem desenvolvido, com ampla voz interna e um intricando modus operandi para conseguir aquilo que ele não só tem certeza que quer, como ele também tem certeza que sua vítima quer mais do que tudo na vida. Bem em seu estilo intrincado, repleto de pequenas idiossincrasias e em um crescendo de situações implausíveis, mas que estranhamente acabam fazendo sentido, a autora costura uma narrativa sufocante, labiríntica, desnorteadora que é bem-sucedida em colocar o leitor na mente problemática (só para usar um eufemismo) de David Kelsey em seu projeto de vida que ele se recusa a largar mesmo diante de todas as evidências de Annabelle não quer absolutamente nada com ele. É como acompanhar, no banco do passageiro de um carro, alguém dirigindo a mais de 100 km/h na direção de um muro de concreto.

Highsmith, porém, não faz de Annabelle uma “dama em perigo” típica. Na verdade, Annabelle é, apenas e tão somente, um objeto de desejo, pois a preocupação maior é mesmo com o mergulho na mente de Kelsey, com seus sentimentos conflitantes e emoções disruptivas povoando toda a narrativa, com Annabelle, ainda que presente, servindo apenas como instrumento de figuração. A mira da autora é na obsessão cada vez maior de seu protagonista que se recusa a acreditar naquilo que vê e, no processo, encara qualquer situação contrária a seus interesses como, no máximo, um pequeno obstáculo a ser facilmente ultrapassado com um pouco mais de esforço. É também relevante deixar claro que David Kelsey não é um “louco furioso”, mas sim um homem realmente calmo e profundamente calculista que, porém, em tudo aquilo que se refere à Annabelle, não consegue distinguir fatos de ficção, escrevendo em sua mente a história que quer, não a que está diante de si, algo que vai se tornando cada vez mais intenso na medida em que a história continua.

Essa Doce Obsessão é um dos mais angustiantes livros de Patricia Highsmith que, mesmo que algumas vezes se perca na complexidade das ações de David Kelsey, consegue construir uma trama essencialmente psicológica que se passa na mente do protagonista ou que é modificada por seu filtro de viés monomaníaco que não enxerga qualquer possibilidade de ele não acabar junto de sua amada. Temos, aqui, um dos exemplos máximos de stalker na literatura, um personagem detestável, mas ao mesmo tempo fascinante que não consegue fugir de uma ideia fixa de felicidade que, claro, nunca é concretizada.

Essa Doce Obsessão (This Sweet Sickness – EUA, 1960)
Autoria: Patricia Highsmith
Editora original: Harper & Brothers
Data original de publicação: 18 de dezembro de 1960
Editora no Brasil: Editora Best Seller
Data de publicação no Brasil: 1º de janeiro de 1989
Páginas: 288

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