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Crítica | Estranha Obsessão

por Leonardo Campos
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Um escritor com bloqueio. Uma atmosfera nebulosa, versão parisiense sem a vivacidade a que estamos acostumados quando a capital francesa é transformada em cidade-cinema. Uma ordem de restrição. A ausência de emprego. Complicado ser o personagem de Ethan Hawke no letárgico Estranha Obsessão, história amarga sobre um homem que já perdeu toda a camada de brilho que representa uma faísca de vida para agonizar diante das circunstancias insalubres que envolvem o seu ofício de escritor e as suas relações interpessoais. Todo esse material deveria ser potência para tornar a narrativa um exercício grandioso de catarse, mas na verdade, a mesma angústia do personagem é transmitida aos espectadores, graças ao desenvolvimento perturbador do roteiro e da direção de Pawel Pawlikowski, trama que consegue ser tediosa, mesmo com seus brevíssimos 85 minutos de duração.

A culpa disso tudo é a pretensão que se tem diante da necessidade em ser “europeu” demais em seu estilo de narrar. Uma narrativa complexa não precisa ser cifrada demais. O meio-termo está disponível para isso. Não precisa ser tão hollywoodiana quanto algumas produções que exageram nas explicações das coisas, mas também não precisa ser tão aleatória como é o caso de muitas passagens de Estranha Obsessão, pretensão em ser difícil que se transforma em tédio e acaba sendo mais tola e clichê que filosófica. Vamos ao enredo, já apresentado em tópicos na abertura desta reflexão breve e pontual. Um escritor quer se reconectar com a sua família. Há uma ordem de restrição que o impede de se aproximar, legalmente, da ex-esposa Nathalie (Delphine Chuillot) e de sua filha, Chloe (Julie Papillon), alvo de sua obsessão paternal como um resquício de humanidade de um personagem abandonado pela vida.

Na verdade, talvez ele tenha abandonado a vida, não o contrário, colhendo agora os resultados que contemplamos nesta narrativa que também delineia o seu bloqueio criativo. Ele escreveu um livro de sucesso crítico modesto enquanto estava nos Estados Unidos, publicação com retorno financeiro. Ao exercer a carreira de professor de literatura, o estadunidense se encontra na terra que respira belas artes, literatura e teatro pomposo, mas a direção de fotografia de Ryszard Lincyzewski capricha na opacidade de sua iluminação parca, representação visual do desgosto que é a existência do professor escritor. O design de produção de Benoith Bardsh também é eficiente neste quesito, responsável pelo contraste entre o hotel decadente que Tom Hicks passa a habitar, gerenciado pelo asqueroso Sezer (Samir Guesni), marido de Ania (Joanna Kulig), atendente do terraço que passa a demonstrar interesse pelo escritor abandonado.

O lugar é sujo, esverdeado como limo, habitado por outros hóspedes desagradáveis, o espaço ideal para reforçar o estado degradante de Tom, um homem interessado em recobrar a sua vida, mas consciente da impossibilidade de oxigenação criativa num lugar tão bizarro. Para ficar, sem o dinheiro suficiente, ele deixa o passaporte como garantia. Circula pelas ruas cidade, logo depois do primeiro encontro com a família que não o deseja por perto, até passar por uma livraria e ser reconhecido pelo dono que o convida para um encontro de pessoas interessadas em artes. A irmã do proprietário provavelmente teria interesse em conhece-lo. Num intervalo, Tom é intimidado por Sezer sobre o pagamento da hospedagem e depois de alguns acertos, vai trabalhar como vigia noturno num dos negócios deste homem que parece ser envolvido com atividades sem nobreza alguma. Os 50 euros por noite podem o ajudar a se reerguer.

Será no dia seguinte que as mudanças se estabelecerão. Ele vai ao evento literário, tomado por pessoas esnobes, a debater sobre literatura e juízos valorativos em torno das obras, etc. Lá conhece Margit Kodiarque (Kristin Scott Thomas), uma mulher misteriosa que descobriremos, é a viúva de um escritor húngaro. Ela se diz a musa do falecido companheiro. A condução musical de Max de Wardener não a deixa negar isso, sempre presente enquanto a enigmática personagem está em cena, iluminada, trajada e com direção de arte caprichada nos espaços que transita. Depois de conhece-la, Tom começa a sentir mais desenvoltura em sua escrita e desejo no desenvolvimento de seu trabalho. O interesse de Ania também o reacende. Tudo bem que ela é o extremo oposto intelectual da sofisticada Margit, mulher que exala uma aura de dama noir, mas ainda assim, desperta atenção pelo interesse no escrito e em sua obra já publicada.

A musa misteriosa o diz constantemente, entre momentos de sexo e luxúria: o aprendizado insano em Paris o despertou para situações realmente literárias. Se você fez algum sucesso com o seu primeiro livro, tem todos os ingredientes para ter mais prestígio agora. Essa motivação e a chance de rever a filha permite ao personagem mais garra para continuar na luta. Mas, como já dito, é uma luta fria, calma demais, sem paixão, letárgica e repleta de situações inconsistentes para flertar com a dúvida diante dos acontecimentos estarem ou não, conectados com a realidade. Seria tudo um delírio de Tom Hicks? Será que a sua trajetória é delirante como a própria história que pretende escrever? Quando um vizinho perturbador morre violentamente e tudo indica que ele é o assassino, como proceder? Se o seu único álibi é Margit, mas segundo registros, ela cometeu suicídio há eras, o que fazer? É preciso assistir para saber. Boa sessão.

Estranha Obsessão (La Femme Du Veme) – França, 2012
Direção: Pawel Pawlikowski
Roteiro: Pawel Pawlikowski, Douglas Kennedy
Elenco: Ethan Hawke, Kristin Scott Thomas, Samir Guesmi, Joanna Kulig, Delphine Chuillot
Duração: 85 min.

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