Se a primeira temporada de Família Soprano foi uma revolução silenciosa, redefinindo o espaço da televisão como território de densidade psicológica, e a segunda um exercício de expansão narrativa, o terceiro ano é a consolidação amarga dessa jornada. A série de David Chase atinge aqui uma maturidade desconfortável, em que a humanidade dos personagens se torna mais clara, porém mais corrompida; em que a terapia e a introspecção não são mais promessas de redenção, mas lembretes de que, em certos casos, compreender o mal não o diminui, apenas o expõe em toda sua banalidade.
A terceira temporada inicia-se sob o signo da vigilância. Literalmente, o FBI acompanha cada movimento dos Sopranos, instalando câmeras e microfones, espionando gestos cotidianos que deveriam ser banais. Mas é essa metáfora do olhar constante, da tentativa de capturar o íntimo que Chase transforma em discurso sobre o próprio seriado. Família Soprano sempre foi uma obra sobre observação, em que o público é o terapeuta invisível, a lente que acompanha Tony tentando entender-se. Agora, o olhar se torna invasivo e opressor, deslocando o tom tragicômico das temporadas anteriores para algo mais tenso e paranoico.
É também a temporada em que a morte se torna um personagem permanente, não mais como evento narrativo, mas como presença psicológica. A morte de Livia, no segundo episódio, Proshai, Livushka, é o ponto de virada simbólico. O desaparecimento físico da mãe não liberta Tony, pelo contrário, deixa um vazio que ele tenta preencher com culpa e autodepreciação. O luto não purifica; apenas reafirma a herança emocional que o devora. O episódio é magistral ao misturar humor, desconforto e patetismo: o funeral transformado em farsa familiar, Janice encenando uma devoção tardia, Carmela e seu pai insultando a morta. É o retrato da impossibilidade de catarse num mundo em que o afeto está sempre corrompido pela performance.
A partir daí, a série se torna um estudo sobre o fracasso da transformação. Tony tenta encontrar novos equilíbrios, seja na relação com Melfi, seja nos negócios, seja em suas conexões extraconjugais, mas tudo converge para o mesmo beco sem saída. Os conflitos da máfia se tornam reflexos de seus impulsos interiores: Ralph Cifaretto, o novo antagonista, é o espelho grotesco de Tony, uma caricatura hiperviolenta e niilista de tudo que ele poderia ser. A morte de Tracee, no infame University, é talvez o momento mais brutal de toda a série, não apenas pela violência explícita, mas pela ausência de consequências. Tony reage com indignação, mas logo retoma a rotina, o que mostra que, em Família Soprano, a moralidade é efêmera, uma emoção que dura até a próxima reunião de negócios.
Essa sensação de repetição, longe de ser um defeito, é um instrumento dramático. Chase compreende que a vida de Tony é um ciclo viciado: cada tentativa de mudança é engolida pela própria estrutura que o sustenta. O roteiro transforma o cotidiano em inferno, em um purgatório suburbano onde nada de fato muda, apenas se reconfigura em novas formas de angústia. Mesmo as sessões com Melfi, que outrora pareciam espaços de possibilidade, agora são dominadas pela impotência. O episódio Employee of the Month, no qual a terapeuta é estuprada e escolhe o silêncio, é o mais devastador de todos. A decisão de Melfi de não contar a Tony, de não liberar o monstro, é o coração ético da temporada: o momento em que ela entende que a violência, ainda que tentadora, é irreversível – a interpretação da atriz ao se segurar é notável.
Em paralelo, Família Soprano continua a sofisticar sua estrutura. A narrativa é cada vez menos linear, alternando episódios quase autônomos (Pine Barrens, dirigido por Steve Buscemi, é uma pequena obra-prima de absurdo e desespero, quase um Fargo dentro da temporada) com capítulos de tensão lenta e psicológica. O ritmo é propositadamente desigual, refletindo o tédio e o caos de uma vida que oscila entre o almoço em família e o assassinato de um rival. O formato episódico, tantas vezes descartado como datado, aqui é reapropriado para criar uma textura de realismo: a vida não tem arco dramático, apenas repetições.
No plano simbólico, Tony atinge o auge da contradição. Ele é simultaneamente pai, monstro, amigo e patrão. A relação com Carmela é mais amarga que nunca, com a esposa dividida entre o conforto e a vergonha, buscando consolo na religião que ela mesma prostitui ao aceitar o dinheiro sujo do marido. Carmela, aliás, cresce como uma das figuras mais trágicas da série, sendo a personagem que mais entende o próprio aprisionamento, mas não consegue abandoná-lo. O episódio Second Opinion, em que uma terapeuta lhe diz para sair da relação, é uma das cenas mais cruéis da temporada justamente porque explicita a verdade que todos preferem ignorar: ninguém quer mudar, todos querem racionalizar o próprio vício.
E no meio dessa decadência moral, há espaço para o riso, um riso desconfortável, como o que atravessa Pine Barrens, a comédia de erros que coloca Paulie e Christopher perdidos na neve após um assassinato malfeito. É um episódio que sintetiza o espírito da série: o absurdo do cotidiano mafioso, onde a incompetência e a brutalidade coexistem num mesmo gesto. Entre tiros, insultos e delírio de fome, Chase e Buscemi criam um pequeno Beckett de Nova Jersey, um Esperando Godot com pistolas e neve.
O mais impressionante é como a temporada, mesmo se tornando mais escura e desesperançada, mantém a humanidade intacta. Os personagens não são vilões nem vítimas, são seres de desejos confusos, presos em suas rotinas e pequenas covardias. A série nunca oferece conforto. Quando Tony tenta redimir-se, o roteiro o sabota com precisão cirúrgica; quando Melfi tenta compreender, descobre o limite da empatia; quando Carmela tenta se libertar, percebe que a prisão é ela mesma.
No final, a terceira temporada de Família Soprano é um espelho sujo, refletindo não apenas o protagonista, mas também o espectador que ainda busca um sentido, uma catarse, um “fim” que nunca vem. É a temporada em que a série deixa de ser apenas um retrato psicológico e se transforma em diagnóstico cultural: um retrato da América de consumo e culpa, onde o sonho suburbano é sustentado pela violência, e a terapia não cura, apenas torna o sofrimento mais consciente. É, portanto, o auge da coerência interna de Família Soprano: cada gesto, cada silêncio e cada crime ecoam como notas dissonantes de uma sinfonia moral em colapso. Chase domina a arte da anti-conclusão e é justamente essa recusa ao fechamento que faz da terceira temporada não só o ponto mais sombrio, mas talvez o mais honesto de toda a série até aqui.
Família Soprano (The Sopranos) – 3ª Temporada (EUA, 2001)
Criação: David Chase
Direção: John Paterson, Allen Coulter, Timothy Van Patten, Henry Bronchtein, Jack Bender, Dan Attias, Steve Buscemi
Roteiro: David Chase, Frank Renzulli, Mitchell Burgess, Robin Green, Michael Imperioli, Terence Winter, Todd A. Kessler, Salvatore J. Stabile, Lawrence Konner
Elenco: James Gandolfini, Lorraine Bracco, Edie Falco, Michael Imperioli, Dominic Chianese, Steven Van Zandt, Tony Sirico, Robert Iler, Jamie-Lynn Sigler, Drea de Matteo, Aida Turturro, John Ventimiglia, Federico Castelluccio, Steve Schirripa, Robert Funaro, Kathrine Narducci, Nancy Marchand, Joe Pantoliano
Duração:700 min. (13 episódios)
