Há três formas de observar o gênero da ação na cultura pop: por meio das franquias — o que pode ser citadas as sagas de Identidade Bourne, Missão: Impossível e Duro de Matar –; personagens — como Rambo — ou o eterno estereótipo dos brucutus, o que, consequentemente, também marca seus respectivos intérpretes — a exemplo de Liam Neeson, Jason Statham, e Kate Beckinsale, a braba. Fora desse meio da ação banhada a estética e estilo, há os exemplos que fazem do exagero e absurdo a combustão para dar forma a proposta. E se antes tínhamos títulos como Adrenalina e Carga Explosiva, agora a moda é misturar John Wick com que já tem no gênero. Embora seja uma espécie de sátira aos homens implacáveis da ação, a franquia do Baba Yaga se tornou o que Pânico causou em 1996: um modelo criativo a ser reproduzido.
Ao mesmo tempo em que os produtores da franquia do Bicho-Papão estão investindo em spin-offs, também miram em títulos semelhantes. No caso de Fight or Flight, a ideia é manter a base e utilizar de outros aspectos convencionais para tornar o produto atraente. Seguindo a fórmula Wick da ação temos: uma mitologia para dar lógica àquele universo; um mercenário essencial para uma missão imprescindível misturados ao absurdo Trem-Bala de David Leitch e o despretensioso Adrenalina, estrelado por Statham, com a ambientação principal aqui sendo um avião. Também parecido com Wick, Lucas Reyes (Josh Hartnett) funciona como uma desconstrução aos recorrentes mercenários aposentados, uma vez que é colocado numa missão suicida, fazendo do absurdo e exagero a sua melhor sacada.
Seria fácil muito fácil misturar a premissa habitual do mercenário em busca de vingança com a estética de John Wick como se isso fosse equivalente a elevar o resultado para algo fora da curva — o resultado seria semelhante a Beekeeper – Rede de Vingança estrelado por Statham — porém, os roteiristas Brooks McLaren e D.J. Cotrona olharam para referências que outrora seriam vistas como inverossímeis, exageradas para propor um filme de ação que visa o absurdo como espetáculo. Já vimos Velozes e Furiosos brincar de Missão: Impossível com carros e Megatubarão fazer do animal predador, um atrativo de ação e terror ilógico, logo, propor uma ação desenfreada com eventos catastróficos dentro de um avião não seria nem um pouco improvável. A tarefa é simples: identificar um alvo específico, porém, o que acontece quando há assassinos em busca do mesmo alvo?
A premissa em si tinha tudo para ser ridícula, mas há algo de tentador ao vermos o visual despojado e desleixado de Hartnett como um mercenário fora de forma se envolvendo em situações cada vez mais improváveis. Se o público já se acostumou em ver Channing Tatum e Brad Pitt em papéis com a aura cool, debochada e sem filtro, ou o corte de cabelo de Keanu Reeves se tornou sua marca nos últimos anos, Harnett caiu como uma luva na proposta de Fight or Flight, uma vez que está experimentando papéis mais distintos em sua carreira. É o arquétipo do brucutu através de uma ótica descompromissada de elevar os limites do ridículo ao exagerado em um filme de ação que não quer ser levado a sério pela sátira infame, e sim fazer disso sua melhor sacada. Enquanto que Trem Bala tinha o romance de Kôtarô Isaka, MariaBeetle para basear a sua trama, o filme de James Madigan apenas tem a intenção de ser divertido à moda antiga.
Na época de seu lançamento, Adrenalina não foi visto como um modelo para filmes de ação, mas caiu no gosto pela genialidade absurda de fazer jus ao seu título original, ao criar um efeito psicótico em torno do estado do personagem principal que precisava manter seu coração batendo. Agora, a era é sobre misturar premissas e conceitos até chegar num estilo; e da influência das artes marciais a abuso de substâncias, Madigan aposta em maneiras diferentes de tornar Fight or Flight um escapismo que quer superar as expectativas. Um bom exemplo disso é que não demora para sabermos a identidade do alvo caçado dentro do avião, o que faz o objetivo principal ser as formas encontradas para recuperar o alvo e sobreviver dentro de uma aeronave repleta de assassinos. O que adiciona uma dose de diversão a essa premissa é por se passar inteiramente dentro de um avião, e como beirar o absurdo não é o suficiente.
Adrenalina pode não ter influenciado um modelo de ação, mas é válido reconhecer que Statham se tornou um ator modelo para protagonizar filmes do gênero com níveis improváveis e cada vez mais descabidos, e embora não seja ele no papel de um mercenário desleixado, Harnett parece encabeçar uma espécie de paródia de Crank — no que tange o estilo descompromissado e insano — John Wick e Trem Bala num resultado alucinante de de ação violenta e coreografada. De tantos, Harnett foi o escolhido para viver esse anti-herói, um brucutu fora de moda em um tipo de filme que não é mais visto, mas que certo ou tarde poderíamos ver Nicolas Cage protagonizar.
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- NOTA DO EDITOR: Existe uma discrepância nas fichas técnicas do filme sobre o seu ano original de lançamento. Parte delas apontam para 2025, baseando-se nos lançamentos principais no Reino Unido e EUA. Entretanto, sites de indexação especializados, como IMDb e Letterboxd, indicam 2024, considerando que o filme teve seu primeiro lançamento comercial na Alemanha, em 27 de dezembro de 2024, via internet. Uma vez que esse lançamento alemão não foi restrito a festival ou pré-estreia para um grupo seleto, seguimos a convenção de que o primeiro lançamento aberto determina o ano original do filme, estabelecendo, assim, 2024. Se vierem indicações de um ano diferente em outras fichas, vocês já sabem o motivo.
Fight or Flight (EUA, 2024)
Direção: James Madigan
Roteiro: Brooks McLaren, D.J. Cotrona
Elenco: Josh Hartnett, Carithra Chandran, Kate Sackhoff, Julian Kostov, Mark Zaror, JuJu Chan Szeto, Danny Ashok, Hughie O’Donnell, Jyuddah Jaymes
Duração: 102 min.