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Crítica | Gavião Arqueiro – 1X01 e 02: Never Meet Your Heroes / Hide and Seek

Acertando e errando o alvo.

por Ritter Fan
2.629 views (a partir de agosto de 2020)

A quinta e última série do primeiro ano da Fase 4 do Universo Cinematográfico Marvel (o que, infelizmente, me força a excluir M.O.D.O.K. e Hit-Monkey da conta) é mais uma que, como Falcão e o Soldado Invernal, é dedicada à passagem de bastão, desta vez de Clint Barton (Jeremy Renner), o Gavião Arqueiro, para a estreante neste universo Kate Bishop, vivida por Hailee Steinfeld, personagem que, nos quadrinhos, assume o mesmo codinome (“Gaviã” Arqueira, por aqui). Mesmo com apenas seis episódios, o Disney+ optou por fazer como em Wandavision, lançando os dois primeiros simultaneamente. No entanto, decidi fazer críticas separadas como se eles tivessem sido lançados em semanas consecutivas, ou seja, assisti o primeiro, escrevi, assisti o segundo e escrevi o segundo texto, de forma a evitar “contaminação”.

Vamos lá?

1X01: Never Meet Your Heroes

Pode-se reclamar sobre tudo no UCM menos sobre escalação. Se lembramos todo o elenco desde 2008 que foi escolhido para viver os mais variados personagens – com ou sem superpoderes e/ou uniformes – será raríssimo encontrar algum ator ou atriz que não se encaixou no papel ou vice-versa e o primeiro episódio de Gavião Arqueiro, felizmente, não é exceção. Hailee Steinfeld, desde os primeiros segundos em que aparece fazendo uma travessura de proporções épicas em sua faculdade, simplesmente é Kate Bishop, o espectador conhecendo ou não a personagem dos quadrinhos, originalmente criada em 2005 por Allan Heinberg e Jim Cheung. A atriz imediatamente encanta com sua combinação mágica de olhar inteligente, mas cínico, com postura despachada, mas encantadora. Aliás, por mais que eu goste muito de Jeremy Renner como Gavião Arqueiro, os minutos de duração deste episódio – quase que integralmente dedicado à Kate – já deixam evidente que a persona super-heroística do arqueiro da Marvel está em excelentes mãos.

Mas o melhor é que o acerto na escalação não para em Steinfeld. Ver Tony Dalton (o sensacional Lalo Salamanca, de Better Call Saul) como Jacques “Jack” Duquesne, que, nos quadrinhos, é o Espadachim, personagem que treinou Clint Barton em sua juventude, é um absoluto deleite no primeiro segundo em que ele aparece, logo após que Kate percebe que o luxuoso apartamento de sua mãe Eleanor (Vera Farmiga – não preciso falar nada sobre a escalação dela, não ´´e mesmo?) está, agora, decorado com espadas, em um prenúncio da união oficial dos dois para seu desgosto total. Mas eu tenho total consciência de que obras audiovisuais não se bastam em escalações irretocáveis, ainda que seja um excelente começo. Há necessidade de mais, bem mais, e fico feliz em constatar que Never Meet Your Heroes entrega além do que o meramente necessário para fisgar o espectador somente pelo charme de seu elenco.

Para começo de conversa – ok, não é tão começo assim, admito… – o episódio é de uma gostosa simplicidade que cria uma história de origem para Kate Bishop galgada na mitologia do UCM, estabelece sem perder tempo e economicamente o status quo do Gavião Arqueiro original e estabelece a linha narrativa em tese principal. Não há grandes invencionices e vejo isso muito positivamente, com um preâmbulo passado em 2012 que usa a admiração de Kate (vivida por Clara Stack) por Clint (em que somos relembrados de sua mais memorável cena, só que de outro ângulo) e uma grande perda que sofre para que a elipse temporal seguinte – e que é inteligentemente ilustrada pela sequência de créditos – já a reapresente, no tempo presente, como um arqueira, lutadora e ginasta de alto gabarito que se envolve na invasão de um leilão secreto e ilegal no subsolo da festa beneficente onde sua mãe está com Jack e o tio dele, Armand Duquesne (Simon Callow) que não nutre simpatia alguma por Eleanor.

Tudo flui muito facilmente, sem sequências de ação grandiosas como realmente deveria ser, e com as cenas de luta em que Kate está envolvida sendo tratadas com uma coreografia que faz o melhor uso possível das habilidades marciais da jovem, ou seja, evitando aqueles momentos improváveis que costumamos ver por aí com um personagem bem menos poderoso espancando facilmente um brutamontes. Até mesmo objetos prosaicos têm uso mais “realista”, como garrafas de vinho cheias que não se quebram ao encostar em uma superfície dura, como o crânio de alguém. E, em meio a tudo isso, não só Steinfeld tira tudo de letra – seja seu descontentamento com o anunciado casamento da mãe, o nojo palpável que sente de Armand ou, claro, a forma como lida com os vilões, aqui os membros da ainda não nomeada Gangue do Agasalho (ok, o nome pode parecer ridículo, mas ela vem de uma das melhores HQs mainstreams mensais  já feitas, justamente a escrita sobre o Gavião Arqueiro por Matt Fraction, que atua como consultor da produção, e desenhada por David Aja, que serve de inspiração mais direta para a minissérie, como ainda há tempo para o memorável Pizza Dog (ou Lucky, “interpretado” por Jolt) ser introduzido organicamente na confusão.

Do lado de Clint Barton, a abordagem é completamente prosaica, mas não sem peso, a começar de sua deficiência auditiva muito claramente indicada. Nós o vemos com seus três filhos no musical da Broadway Rogers: The Musical, que transforma a mais famosa frase do Capitão América – “Posso fazer isso o dia todo.” – em refrão-chiclete, revelando ao mesmo tempo o quanto ele valoriza a família e o quanto ele ainda sofre pela morte de Natasha Romanoff, sua melhor amiga. Também é possível ver o quanto ele se incomoda por ser um herói reconhecível por todos, algo que o jantar no restaurante oriental deixa evidente quando o dono se recusa a cobrar dele e dos filhos. E, em meio a isso tudo, o roteiro ainda consegue inserir seu passado sombrio quando, em Vingadores: Ultimato, o vimos como o sanguinário ninja Ronin aniquilando os vilões que sobreviveram ao “blip” como a maneira de reuni-lo a Kate Bishop, prometendo, talvez, esclarecer um pouco mais esse momento em sua vida.

Never Meet Your Heroes é, talvez, o melhor início de série deste primeiro ano da Fase 4 do UCM, ainda que não exatamente o mais original ou diferenciado, com uma abordagem que sabe usar uma falsa impressão de descompromisso e de jocosidade, além de seu elenco inspirado, para começar uma história natalina no estilo buddy cop que promete trabalhar, pela primeira vez neste universo (claro, estou aqui “esquecendo” das séries Marvel-Netflix para poder afirmar isso), heróis urbanos em linhas narrativas menos espalhafatosas, ainda que bem costuradas ao plano macro de Kevin Feige. Seja qual for o futuro que aguarde os dois Gaviões Arqueiros e Lucky, fica evidente o carinho do showrunner Jonathan Igla (que começou sua carreira em nada menos do que a excepcional Mad Men, o que automaticamente chama atenção) pelo material fonte e pelo UCM em geral.

1X02: Hide and Seek

E não demorou muito para Gavião Arqueiro desapontar. Depois de um começo tonalmente excelente, equilibrando narrativa com ação e estabelecimento de premissas da minissérie e das características dos personagens, eis que logo em seguida vem Hide and Seek, episódio que efetivamente tenta criar uma boa conexão cômica entre Clint Barton e Kate Bishop, mas não consegue ser muito mais do que um pot-pourri de esquetes que, quando são bem-sucedidas, conseguem ser no máximo simpáticas. Fica até o receio de que Jeremy Renner e Hailee Steinfeld não tenham, juntos, aquela química toda que dava a entender que teriam no episódio inaugural em que, claro, eles não tiveram momento juntos.

A lógica da relação dos dois é boa. Kate tem em Clint Barton um ídolo, a inspiração de sua vida dedicada aos esportes e treinamento em armas “antigas”, pelo que seu deslumbramento e tietagem iniciais faz sentido e são tão esperados quanto a sisudez e objetividade do Gavião Arqueiro que não quer mais nada além de recuperar seu uniforme de Ronin e livrar-se da jovem para poder passar o Natal com a família, e isso sem deixar de continuar salientando sua deficiência auditiva. Havia, portanto, todas as oportunidades possíveis para as famosas – e muitas vezes odiadas (não me perguntem o porquê) – piadinhas da Marvel Studios serem usadas como uma metralhadora giratória. Infelizmente, porém, o roteiro de Elisa Climent não consegue achar a verve cômica da série ou, talvez, Renner e Steinfeld realmente não façam o “clique” na rotina de falastrona versus caladão.

Nem mesmo o momento solo de Renner no jogo de interpretação ao vivo no Central Park, que poderia render excelentes tiradas, funcionou de verdade, mais parecendo justamente o que seu personagem passa para recuperar o uniforme: profundo tédio e incômodo. Por outro lado, Steinfeld tem um pouco mais de sorte em seus momentos sem seu co-protagonista, seja no escritório da mãe com Jack atazanando-a, seja depois, no jantar, com… sim, você acertou, Jack atazanando-a, com direito até a um duelo de esgrima, a o que talvez prove que o diferencial, aqui, seja mesmo Tony Dalton (é cedo demais para querer um spin-off do Espadachim?).

No entanto, confesso que acho a Gangue do Agasalho muito divertida, quase que uma reinterpretação moderna dos Keystone Kops de outrora, especialmente pela presença mais destacada de Aleks Paunovic como Ivan, o grandalhão que vai chamar Maya Lopez (Alaqua Cox), a futura Echo, aparentemente chefe do grupo, bem ao final. Minha única dúvida é se todo esse drama gira em torno, única e exclusivamente, do uniforme de Ronin que Clint escondeu, pois esse é um artifício narrativo fraco demais mesmo para um MacGuffin. Desconfio que não, porém, e que haverá alguma conexão entre a Gangue, Maya e Jack, ainda que eu fique com receio que a quantidade econômica de episódios não abra espaço para desenvolvimentos relevantes e que toda a minissérie não passe de uma abertura de portas para diversas linhas narrativas a serem exploradas no futuro (como será o caso de Echo, que já teve uma série anunciada, vale lembrar).

Hide and Seek, porém, não desfaz a natureza talvez mais descompromissada desta série que Never Meet Your Heroes imprimiu. A leveza continua bem presente, assim como a comicidade, ainda que sem acertar de verdade no alvo desta vez. O importante será ver se, quando a ação com flechas e outros objetos pontiagudos com os dois Gaviões – e com Pizza Dog, não esqueçamos dele! – realmente começar, a “distância” entre Renner e Steinfeld encolherá, fazendo com que a minissérie deslanche de verdade.

Gavião Arqueiro – 1X01 e 1X02: Never Meet Your Heroes / Hide and Seek (Hawkeye, EUA – 24 de novembro de 2021)
Criação e desenvolvimento: Jonathan Igla
Direção: Rhys Thomas
Roteiro: Jonathan Igla (1X01), Elisa Climent (1X02)
Elenco: Jeremy Renner, Hailee Steinfeld, Tony Dalton, Fra Fee, Brian d’Arcy James, Aleks Paunovic, Piotr Adamczyk, Linda Cardellini, Simon Callow, Vera Farmiga, Alaqua Cox, Zahn McClarnon, Florence Pugh, Ava Russo, Ben Sakamoto, Cade Woodward, Jolt, Clara Stack
Duração: 49 min. (1X01), 51 min. (1X02)

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